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Felipe Saturnino

Felipe Saturnino

Graduado em Jornalismo pela USP, passou pelas redações de Bloomberg e Estadão.

Um pra lá, dois pra cá

Ibovespa sobe, dólar e juros caem: ingredientes locais e externos animam investidores, de olho em eleição nos EUA

Percepção externa sobre eleição favorece bolsas, com leitura de que onda democrata não ocorreu, sem ameaças de regulamentações da economia. Além disso, a liderança de Joe Biden em alguns Estados pode trazer resultado mais rapidamente, eliminando incertezas contínuas da disputa. Cenário político local alivia câmbio e juros

Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
4 de novembro de 2020
18:51 - atualizado às 18:54
dua setas indicam o movimento de alta e o de queda dos mercados e da bolsa
Imagem: Shutterstock

Uma mistura entre fatores externos e locais gerou um dia amplamente positivo para os mercados brasileiros, de olho na eleição presidencial americana ainda sem um vencedor claro.

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O Ibovespa terminou a sessão subindo perto de 2%, o dólar voltou para perto de R$ 5,65, enquanto os juros futuros se aliviaram e fecharam em baixa forte.

O otimismo disseminado no exterior, em meio à incerteza sobre as eleições dos Estados Unidos, e o cenário político ajudaram os ativos locais.

Lá fora, os índices acionários nos Estados Unidos subiram no mínimo 1,35%. Pela manhã, o fato de Joe Biden ter tomado a dianteira em Michigan e Wisconsin (anunciado há pouco por meios de imprensa como uma vitória para o democrata) animou os investidores, fazendo os índices futuros de Nova York virarem para alta.

Lembrando que, para os mercados, um tempo maior de espera pelo desfecho das eleições não ajuda em nada: o fundamental é ter um vencedor claro, sem a necessidade de uma briga jurídica que leve ainda mais tempo — o que o presidente Donald Trump prometeu fazer.

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Se o pleito também puder sair antes de sexta, ainda melhor — é nesse dia que a maior parte da apuração da Pensilvânia, outro Estado-chave no país, deverá vir a público.

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De outro lado, a inexistência de uma "onda democrata" no Congresso que regulamente diferente setores da economia americana também ajudou os mercados, puxando as ações de tecnologia, como ficou demonstrado pela alta vigorosa do Nasdaq.

Isto porque os democratas são amplamente vistos como mais intervencionistas, com a perspectiva de aumento de impostos sobre tais empresas e elevação de regulamentações, e o controle das duas casas do Congresso (eles atualmente detêm a Câmara dos Deputados dos EUA) favoreceria projetos do tipo.

Na Europa, as principais praças acionárias marcaram desempenhos positivos, acompanhando Wall Street — também embalados por melhores números da economia europeia.

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"Me parece que o mercado saiu de uma postura polarizada entre Trump ou Biden nos últimos dias, e passou a achar o Biden não uma má ideia com as perspectivas de um pacote mais robusto de estímulos fiscais", diz Eduardo Plastino, sócio da Unnião Investimentos, escritório filiado à XP Investimentos, e atuante na mesa de mesa de renda variável.

Neste cenário, o Ibovespa subiu 1,97%, aos 97.866,81 pontos. Na máxima, o principal índice acionário da B3 avançou 2,41%, para 98.296,35 pontos.

"Foi uma alta generalizada em torno do desempenho do mercado exterior", diz Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos.

Os principais destaques da sessão do índice foram os setores do varejo, na esteira do Nasdaq, e de construção civil, com a queda dos juros de longo prazo hoje.

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Top 5

Os papéis de varejistas como B2W ON (BTOW3) ficaram entre os maiores ganhos percentuais, na esteira da disparada do índice Nasdaq, que reúne ações de tecnologia dos Estados Unidos. As ações Magazine Luiza ON (MGLU3) e Via Varejo ON (VVAR3) também subiram forte, com alta de ao menos 4,8%.

"Se tratando do e-commerce, tem a Nasdaq que sobe forte lá fora", diz Panonko, da Toro Investimentos, citando o índice acionário de papéis de tecnologia de Nova York que disparou hoje.

As ações de Lojas Renner ON (LREN3) terminaram a sessão entre as maiores altas percentuais do Ibovespa, indicando a confiança de investidores com o setor de consumo.

Além disso, as ações de empresas do ramo da construção civil, como Cyrela ON (CYRE3), ficaram entre as maiores altas do dia. Papéis MRV ON (MRVE3) e EZTEC ON (EZTC3) também subiram fortemente, marcando avanços de 5,6% e 5,9%.

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A leitura é de que a queda dos juros futuros possa favorecer esse setor, uma vez que há a diminuição de custos de empréstimos em um ambiente de taxas menores.

O dia também foi positivo para os papéis da Weg, que acumulam a maior alta do índice em 2020. Weg ON (WEGE3) subiu 6,3% hoje.

Veja as maiores altas do dia:

CÓDIGOEMPRESAPREÇO (R$)VARIAÇÃO
CYRE3Cyrela ON             24,507,27%
LREN3 Lojas Renner ON              40,706,96%
BTOW3 B2W ON              80,99 6,59%
ECOR3EcoRodovias ON             10,58 6,55%
COGN3Cogna ON             4,47 6,43%

Enquanto isso, as siderúrgicas marcaram as maiores quedas percentuais do índice hoje. Os papéis CSN ON (CSNA3)Gerdau PN (GGBR4)Usiminas PNA (USIM5) lideraram as baixas.

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"Hoje há uma rotação setorial, depois que as ações do setor de siderurgia e mineração estiveram entre as maiores altas ontem", diz Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

As ações da resseguradora IRB Brasil terminaram a sessão entre as principais quedas, após a empresa registrar um prejuízo milionário. Confira as maiores perdas do dia:

CÓDIGOEMPRESAPREÇO (R$)VARIAÇÃO
CSNA3CSN ON             21,44 -4,24%
GGBR4 Gerdau PN               22,28-4,42%
GOAU4 Metalúrgica Gerdau PN              10,01 -3,75%
USIM5Usiminas PNA             11,18 -3,45%
IRBR3IRB ON                6,23 -2,66%

Bolsas americanas disparam

Os principais índices acionários americanos encerraram a sessão em alta nesta terça. O S&P 500 avançou 2,2%; o Dow Jones, 1,35%; e o Nasdaq, 3,85%.

O destaque do Nasdaq fica para o fato de investidores avaliarem que a inexistência de uma "onda azul", isto é, democrata para as cadeiras no Congresso — como projetado por especialistas — reduz as chances de grandes regulamentações sobre gigantes da tecnologia.

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Os negócios na Europa até começaram o dia no vermelho, mas se recuperaram ao longo da manhã, após bons dados da economia do bloco europeu.

Em meio a um cenário favorável se desenhando em favor de Biden nos estados de Michigan e Wisconsin, os investidores tomaram um fôlego extra e as principais praças do velho continente, como Frankfurt, Londres e Paris, fecharam com ganhos de ao menos 1,7%.

Na madrugada, as bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em alta.

No entanto, a perspectiva de que Donald Trump conteste o resultado — se sair perdedor — também deixa os investidores apreensivos acerca do futuro que os espera. A perspectiva de que o pleito seja eventualmente judicializado, o que postergaria o resultado da disputa ainda mais, não é nada bom para quem gosta de trabalhar com cenários definidos.

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O atual presidente já declarou vitória antes da hora e promete não aceitar facilmente o resultado. Trump citou "fraude" e disse que vai brigar na Suprema Corte do país pela recontagem de votos.

Há pouco, Biden se pronunciou sobre a dura corrida eleitoral, ladeado pela candidata a vice-presidente, Kamala Harris.

O democrata insistiu que "todos os votos devem ser contados", enquanto os republicanos montam contestações legais em alguns estados-chave. "Ninguém vai tirar nossa democracia de nós", disse ele. Biden então promete ser um presidente de todos os americanos, o que foi um tema de sua campanha.

"Não haverá estados vermelhos e azuis quando vencermos", diz ele. "Apenas os Estados Unidos da América."

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Até o momento, Biden lidera a corrida, com 248 delegados computados, contra 213 de Trump. Para declarar vitória, é necessário o número mínimo de 270 delegados. Vitórias em Nevada (onde a apuração só será retomada amanhã) e Michigan, estados em que o democrata lidera por margem muito pequena no momento, fariam-no o 46º presidente dos Estados Unidos.

Além disso, a falta de uma "onda azul" também ajudou os índices acionários hoje, uma vez que desta forma, com Senado e Câmara divididos entre republicanos e democratas, será mais difícil regular setores dos mercados como o de tecnologia.

Dólar e juros caem forte

A política local foi outro ingrediente fundamental para descomprimir a pressão existente sobre alguns ativos em que está embutido o risco político, uma vez que há a percepção de andamento da agenda econômica no Congresso após nervosismo em razão de declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Neste contexto, o mercado de câmbio teve uma sessão positiva: o dólar fechou em queda de 1,7%, sendo cotado a R$ 5,6643, em meio à perspectiva de apreciação de 41 vetos presidenciais. Na mínima, tombou 2,04%, para R$ 5,6448.

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Entre eles, estão o veto à prorrogação da desoneração da folha de pagamento — que já foi derrubado pela Câmara e pelo Senado hoje, sendo estendida a desoneração a 17 setores até ano que vem —, além do veto que retirou 12 dispositivos da lei que amplia os beneficiários do auxílio emergencial.

"O cenário doméstico com o Congresso voltando a tocar algumas pautas contribuiu para melhorar a percepção dos investidores", diz Camila Abdelmalack, economista da Veedha Investimentos. "Afinal, o risco embutido nos ativos brasileiros pelo cenário político ruim não é desprezível", diz ela, citando que o mercado enfim viu "fatos, e não boatos" ocorrerem com o encaminhamento de projetos importantes.

Além disso, contribuiu para a valorização do real o fato de a moeda americana também não exibir força nesta quarta frente a divisas fortes, como euro, libra e iene.

O Dollar Index (DXY) aponta leve enfraquecimento do dólar, e os pares emergentes do real também se apreciam diante da divisa — caso do peso mexicano, do rublo russo e do rand sul-africano.

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Enquanto isso, os juros futuros fecharam em tombo, um dia após a aprovação do projeto de autonomia do Banco Central no Senado — o texto agora segue para a Câmara dos Deputados. A perspectiva é que tais projetos possam engatilhar uma série de outros projetos da agenda econômica do governo no Congresso.

  • Janeiro/2021: de 1,954% para 1,945%
  • Janeiro/2022: de 3,51% para 3,46%
  • Janeiro/2023: de 5,18% para 5,06%
  • Janeiro/2025: de 6,92% para 6,76%

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