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Eu trabalho muito. Tenho uma dedicação apaixonada e até mesmo obsessiva com a Empiricus. Nem sei se isso é bom. Mas é o que é
Já fui mais fã das historinhas das Finanças Comportamentais. Mas depois que entrei em contato com a literatura de Gerd Gigerenzer e soube da injustiça com que ele foi tratado no livro do Michael Lewis, peguei um certo bode. A tal “Aversão à Perda”, tão aclamada como oposição à “Aversão ao Risco” prescrita pela teoria neoclássica, seria nada mais do que a manifestação objetiva de nossa racionalidade ecológica — se estamos sob ameaça, natural estarmos dispostos a assumir mais riscos, porque precisamos sobreviver; já se estamos confortáveis, vamos ficar numa boa, sentados na segurança de nossos sofás. Eliminamos a estabilidade de nossas preferências conforme a situação — e é assim mesmo que deve ser, absolutamente racional.
Tenho certo gosto, uma empatia natural, pelos “underdogs” também. Quando vi a espécie de desdém com que Gigerenzer foi tratado no “Projeto Desfazer”, aproximei-me ainda mais do sujeito; metaforicamente, claro. Confesso ainda que o fato de as Finanças Comportamentais terem ficado meio pop, com dois prêmios Nobel, me trouxe alguma resistência adicional — se virou consenso, deixou de ter grande valia e utilidade prática para nós. Desconfio também que o fato de ter já ter estado pessoalmente com Daniel Kahneman e Richard Thaler talvez tenha, de maneira tácita e sem que eu mesmo tenha percebido, desconstruído um pouco a figura de heróis e seres mitológicos. A proximidade nos torna mais humanos. Enquanto isso, Gigerenzer, ao menos por enquanto, ainda é apenas uma figura distante e, portanto, mais olímpica no meu psiquismo.
Isso não significa também a desconfiguração completa de minha admiração por Daniel Kahneman. Aliás, aqui talvez caiba um parêntese, em especial quando se observa a profissão daqueles que, como eu, vivem de dar opiniões. Se você faz uma crítica a um determinado sujeito ou a uma certa teoria, isso não significa inteira desqualificação ou reunião pura de defeitos. Somos todos humanos, permeados de ambivalências, ódios e amores, erros e acertos, paixões e dissabores. Curiosamente, tomar uma avaliação pontual como uma síntese geral muitas vezes implica incorrer num dos mais clássicos vieses cognitivos apontados pelas Finanças Comportamentais, o chamado “halo effect”. Mas isso é assunto para outra hora, talvez para amanhã.
Há algo particularmente interessante no pensamento de Kahneman para mim, que é sua “equação favorita”, descrita abaixo:
Sucesso = talento + sorte
Grande sucesso = um pouco mais de talento + muita sorte
Eu trabalho muito. Tenho uma dedicação apaixonada e até mesmo obsessiva com a Empiricus. Nem sei se isso é bom. Mas é o que é. Ainda estou tentando um método de fugir de mim mesmo. Até hoje, não sei se tenho talento. Na maior parte das vezes, acredito que não tenho. Mas posso dizer que, ao menos até agora, tive muita sorte. Ainda bem, fique claro. Deusa Fortuna, continue assim, uma companheira fiel.
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Houve dois momentos ao longo dos últimos cinco anos em que a sorte se manifestou de maneira mais pronunciada.
A primeira delas foi com o famigerado “O Fim do Brasil”, que agora virou “cult" e óbvio, mas na época, ex-ante, foi bem diferente. Houve uma dupla atuação da Providência nesse caso. Claro que existiu também estudo e diligência, mas a verdade é que, àquela altura, vários outros economistas e bons gestores também estavam com a mesma cabeça. Mas o timing foi assustador. Escrevemos em julho de 2014, às vésperas da eleição — a presidente Dilma saiu vencedora do pleito e, bom, deu no que deu: a maior recessão da história republicana brasileira. E a segunda jogada da sorte àquela altura foi o processo que tomamos da turma do PT — ao acusar-nos de associação com Aécio Neves e Google, fomos colocados no holofote. Deram-nos o palco de que precisávamos. A informação é absolutamente antifrágil. Se você quer sua rápida disseminação, tente censurá-la. Caro presidente Jair Bolsonaro, seus esforços contra a Folha de S.Paulo apenas farão o jornal ficar maior. A imprensa se beneficia do choque.
E o segundo grande momento foi com a batizada “Virada de Mão”, quando mudamos a visão pessimista para os ativos brasileiros para uma abordagem construtiva, afirmando que o Brasil ficara barato, sendo a hora de comprar. Na minha visão, o consenso confundia ausência de evidência com evidência de ausência. Não era porque não enxergávamos saída para a crise que não havia uma saída. Ali foi uma situação distinta, pois ninguém — absolutamente ninguém — estava otimista com os mercados brasileiros. Bom, basta ler a entrevista do gênio Luis Stuhlberger às Páginas Amarelas na época, quando “flertávamos com o abismo” e “a presidente Dilma não sofreria impeachment” — de fato, ele, como sempre, parecia ter razão. Mas o Brasil é uma revoada de cisnes negros. Veio o áudio do “Bessias” e, de novo, deu no que deu.
Esse dois movimentos compõem uma espécie de dupla sertaneja dos grandes trades macro da Empiricus, com uma geração de valor brutal. A orientação em 2014 era comprar dólar a R$ 1,90, para ser vendido depois a R$ 4,00. A partir do final de 2015, a indicação era comprar Bolsa a 40 mil pontos. Seguindo apenas essas duas coisas, portanto, tivemos uma multiplicação da ordem de seis vezes desde 2014.
Não tenho a menor dúvida de que houve muita sorte nesses movimentos. Muita sorte mesmo. Mas meu ceticismo obriga o questionamento: será que foi apenas sorte? Reitero, sob o risco da repetição: não estou dizendo que não houve sorte. Houve, sabemos. Mas foi só sorte? Em outras palavras, será que não existe algo em comum aos dois momentos, uma espécie de método sistemático capaz de identificar estágios de virada macro?
Não tenho resposta pronta, mas confesso que estou trabalhando, junto ao Ricardo Mioto, numa tentativa de endereçar a questão. Como os três leitores mais assíduos já sabem, estamos escrevendo um novo livro, cujo título provisório é “Princípios de um estrategista” — sim, é uma homenagem ao Ray Dalio. O mérito é muito maior do Mioto do que meu — assim, muito maior mesmo. Do meu lado, há uma pretensão de reunir e sistematizar todas as minhas ideias e filosofias de investimento, colocando-as para trabalhar de forma prática, capazes de serem implementadas no dia a dia para se ganhar dinheiro.
Faço um paralelo com a Teoria das Cordas, um modelo físico-matemático com o objetivo de unificar a Física, conectando a teoria da relatividade e a teoria quântica numa única estrutura matemática — embora não seja uma teoria científica propriamente dita, porque não pode ser falseada, atrai bastante interesse por conta da esperança de vir a ser uma espécie de teoria de tudo.
Do ponto de vista micro, queremos unir Warren Buffett a Nassim Taleb. Como o mundo é complexo, imprevisível e dominado por cisnes negros, muito mais suscetíveis à aleatoriedade do que supomos a priori, precisamos abandonar a noção clássica da “escola fundamentalista” ligada ao tal valor intrínseco. Como o futuro permanece incerto e impermeável, e o valor intrínseco necessariamente depende da nossa capacidade de acessar o futuro, simplesmente não há como definir com uma mínima precisão qual é esse tal valor intrínseco.
Por isso, usamos todo o instrumental buffettiano na tentativa de identificar ações razoavelmente baratas, apenas com o objetivo de tentar fazer com que as surpresas e os cisnes negros estejam do lado positivo, já que o quadro muito adverso se encontraria em grande medida incorporado às cotações. Pouco a perder, muito a ganhar.
Já sob a ótica sistêmica, a ideia é mandar descer todos os filhos de Gandhi. Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré, Howard Marks (e seu “Mastering the Market Cycle”), Ray Dalio (com a ideia clara dos ciclos no famoso vídeo “How The Economic Machine Works”), George Soros (e sua obstinação pela sístole e diástole, pelos booms and busts) e, claro, a antifragilidade e a convexidade de Nassim Taleb.
Se você se debruçar, mesmo sob o benefício da retrospectiva, sobre as orientações de investimento feitas com O Fim do Brasil em 2014 e com a Virada de Mão ao final de 2015, verá que elas se apoiam, rigorosamente, na mesma essência: ambas se caracterizam pela identificação precisa do momento do ciclo da economia e também da política brasileira.
Em 2014, com a economia a pleno emprego e baixa ociosidade do fator capital, bem como diante da falta de espaço para o setor público continuar gastando, batemos no teto da oferta agregada. Não havia folga. Tínhamos uma demanda rigorosamente em linha com a oferta e crescendo. O que o governo fez? Continuou dando estímulos à demanda agregada. Encontraria necessariamente o prognóstico descrito pelo livro-texto. Se você joga mais demanda, com a farra do gasto público e um Banco Central subserviente, e não há aumento de oferta, vamos ter inflação e mais déficit em conta corrente.
Bingo! Era um estágio avançado do ciclo econômico. Não tínhamos muito mais para onde ir. Muito a perder, pouco a ganhar — com o desemprego abaixo de 5%, era mais fácil voltarmos a 10% do que irmos a 0%. A assimetria não era convidativa. Era o momento de vender Brasil, muito frágil à época.
Já ao final de 2015, era exatamente o contrário. Estávamos vindo de uma recessão brutal, havia muito desemprego (ainda há) e muita ociosidade na economia (ainda há). Os lucros das empresas do MSCI BR haviam caído cerca de 70%, o mesmo percentual da destruição observada em Wall Street por conta da Grande Depressão de 1929. Era o contrário. Tínhamos muito a melhor (a ganhar) e pouco a piorar (a perder). A população estava cansada do populismo da esquerda intervencionista e o pêndulo necessariamente migraria para a direita liberal. A assimetria passava a ser interessante.
Nada mais é do que a conexão entre Nassim Taleb, Ray Dalio e Howard Marks, apresentados conforme as palavras de cada um. A filosofia pode encontrar os botões do home broker. Basta darmos corda ao pensamento filosófico. É nisso que estamos trabalhando agora. Logo virão cenas dos próximos capítulos. Eu conto com a ajuda de vocês três.
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