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Ameaça de Trump de elevar tarifas sobre as importações chinesas se não houver acordo comercial parcial e cenário adverso na América Latina preocupa
O cenário político conturbado no Brasil e no exterior continua pressionando o mercado financeiro. Lá fora, os ativos de risco amanheceram pressionados pela ameaça do presidente norte-americano, Donald Trump, de elevar tarifas de importação da China, caso os dois países não alcancem a primeira fase de um acordo comercial. Aqui, o cenário vizinho adverso na América do Sul contamina os negócios locais (leia mais abaixo).
E o dia parece ser de renovada pressão nos mercados. As principais bolsas asiáticas fecharam em queda hoje, com as perdas lideradas por Hong Kong, que caiu pouco mais de 2%. Xangai, Tóquio e as demais praças do Sudeste asiático encerraram todas em baixa. O sinal negativo também prevalece entre os índices futuros das bolsas de Nova York e das praças europeias, com os investidores avaliando a chance de escalada da guerra comercial.
As negociações entre Estados Unidos e China parecem estar emperradas, diante da falta de consenso sobre a reversão de tarifas existentes e suspensão de novas taxações previstas até o fim do ano. A questão tecnológica também parece sem solução. Os comentários de Trump ontem, em evento em Nova York, mostraram o posicionamento de Washington e serviram de lembrete do desafio que os dois lados enfrentam.
Nos demais mercados, o dólar mede forças em relação às moedas rivais, monitorando o comportamento dos bônus norte-americanos, com a taxa do título de 10 anos rondando a faixa de 1,9%. Destaque para o dólar neozelandês, o chamado kiwi, que disparou após a decisão do Banco Central local (RBNZ) de manter a taxa de juros estável. Entre as commodities, o petróleo cai, enquanto o ouro avança.
Com a safra de balanços chegando ao fim e os principais bancos centrais dando sinais de pausa na adoção de estímulos monetários, o foco dos investidores ajustou-se para a questão política, à espera de ações capazes de frear a desaceleração da economia global no cenário à frente. Porém, a ausência de progresso no front comercial serve de pretexto para realizar lucros dos níveis recordes que o mercado acionário atingiu recentemente.
Esse mesmo entendimento é válido para o mercado doméstico, diante da turbulência que tem atingido países vizinhos. Os investidores resistem em admitir, mas é crescente a preocupação com a cena política local, desde a soltura do ex-presidente Lula. A situação na América Latina também pesa, afugentando principalmente o investidor estrangeiro, que está reduzindo a exposição ao risco na região.
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Com isso, os ativos brasileiros sofrem certa “contaminação”. Há quem diga que o Brasil está pronto para se descolar da turbulência vista nos países vizinhos, com os investidores dissociando o cenário nacional dos ruídos mais recentes vindos de Bolívia, Chile e Argentina. Nessa premissa, os negócios locais devem entrar em outra rota, apresentando um desempenho diferente dos pares latinos.
O problema é que a frustração com o megaleilão do pré-sal, em meio ao desinteresse de empresas estrangeiras pelos campos de petróleo ofertados, e a retirada recorde de capital externo da Bolsa brasileira já davam indícios da falta de apetite dos “gringos” pelos ativos locais. E a situação na América do Sul tende a exacerbar os nervos dos investidores.
Afinal, boa parte da alocação dos estrangeiros na região era por causa do Brasil. E, agora, com a América Latina enfrentando pressão popular em plena primavera - fazendo alusão aos protestos da “Primavera Árabe” ocorridos em países do Oriente Médio e Norte da África no início da década - o investidor estrangeiro também acaba fugindo da terra brasilis.
Isso porque o temor é de que o Brasil sofra o chamado “efeito Orloff” - famosa expressão dos anos 80 que se baseava na premissa do “eu sou você amanhã”. Essa maior aversão aos desequilíbrios políticos na América Latina torna a região mais hostil ao capital externo.
E isso tende a manter o dólar pressionado, aproximando-se da marca de R$ 4,20. Por sua vez, o real mais fraco tende a elevar o prêmio de risco na curva de juros futuros, com os investidores descartando as chances de cortes adicionais na Selic em 2020 e vendo a taxa básica estacionada em 4,5% a partir de dezembro.
Para evitar uma deterioração adicional dos ativos locais e não correr o risco de interromper a recuperação da atividade econômica doméstica ora em curso, o Brasil deveria enviar uma mensagem ao mercado financeiro, isolando-se dos vizinhos e mostrando que, aqui, a história é outra.
Porém, a decisão do presidente Jair Bolsonaro de sair do PSL e criar uma nova legenda, a Aliança pelo Brasil, em nada ajuda. Afinal, o mercado doméstico estará atento ao número de filiados do novo partido do presidente - o novo desde o início da sua carreira política - de modo a mensurar o apoio político e o tamanho da base aliada no Congresso.
Dados de atividade e inflação estão em destaque na agenda econômica desta quarta-feira, no Brasil e no exterior. Por aqui, a atenção se volta para o desempenho do varejo em setembro e, de quebra, no acumulado do terceiro trimestre deste ano, lançando luz para o Produto Interno Bruto (PIB) no período.
A expectativa é de que as vendas tenham avançado pelo quarto mês seguido (+1,0%) em base mensal, somando seis resultados positivo no confronto anual (+2,30%). Os dados efetivos serão conhecidos às 9h, juntamente com novas estimativas para a safra agrícola neste e no próximo ano.
À tarde, o Banco Central informa (14h30) os dados parciais deste mês sobre a entrada e saída de dólares do país, que podem reforçar a falta de apetite dos estrangeiros pelos ativos brasileiros citada acima. No acumulado do ano até outubro, a conta financeira está negativa em US$ 35,5 bilhões, contaminando o fluxo cambial no período.
Entre os eventos de relevo, o presidente Jair Bolsonaro reúne-se hoje em Brasília com líderes do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Bolsonaro terá reuniões separadas com cada chefe de Estado. Ele se encontra com o líder chinês, Xi Jinping, pela manhã, para a assinatura de atos. A cúpula acontece até quinta-feira.
Já no exterior, o destaque fica com os dados de outubro da indústria e do varejo chinês, que serão conhecidos apenas no fim do dia, juntamente com os investimentos nos ativos fixos. Logo cedo, sai a produção industrial na zona do euro em setembro. Também serão conhecidos indicadores de preços na Alemanha e no Reino Unido.
Depois, nos EUA, é a vez da inflação ao consumidor norte-americano (CPI) no mês passado, às 10h30. Ainda por lá, merece atenção o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, no Congresso, onde falará sobre perspectivas econômicas, a partir das 13h. À tarde, sai o Orçamento do Tesouro dos EUA em outubro (16h).
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