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Reforma da Previdência é complicada em qualquer lugar do mundo, porque mexe com interesses estabelecidos e com grupos de interesse. E o Brasil insere-se no grupo dos países mais complicados do mundo. Então, podemos nos preparar para tiro, porrada e bomba
“Quem é? Toca qual fundo? É tesoureiro de qual banco? Fundou qual empresa grande? É algum bilionário que eu não conheço?”
Ouvi essa bateria de perguntas de um grande gestor na semana passada. Há uma única linguagem respeitada pelos verdadeiros ganhadores de dinheiro e ela está descrita no parágrafo de abertura.
Lembrei-me do clássico de Warren Buffett: “Wall Street é o único lugar do mundo em que pessoas que andam de Rolls-Royce pedem conselhos a quem anda de metrô”. Pablo Triana também oferece versão parecida em “Lecturing Birds on Flying” — vamos nós, só porque conhecemos as regras da aerodinâmica, ensinar os pássaros a voar? Analogamente, como ensinar bilionários a ganhar dinheiro?
Fico sempre constrangido ao conversar com esse pessoal. Por trás do personagem, que, diga-se, também é verdadeiro, esconde-se uma pessoa bastante tímida.
Na sexta-feira, pude conversar com um tesoureiro de grande banco e um bilionário. Confesso que a melhor conversa mesmo foi com o meu filho, João Pedro, mas as outras duas foram bem boas também. E se digo “conversa” é pela ausência de termo melhor, porque, na verdade, nessas ocasiões assumo apenas a condição de ouvinte e aprendiz. Acho mesmo que tenho pouco, quase nada a oferecer-lhes e, portanto, fico calado tentando absorver o conhecimento alheio. Ao tratar de finanças, minhas orelhas ficam maiores e parecem se multiplicar diante de gente mais rica e inteligente do que eu, o que engloba apenas 99 por cento da população.
Aqui repasso as valiosas informações capturadas.
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O tesoureiro estava vendendo dólares. O gestor bilionário estava trocando parte de suas posições em ações de empresas exportadoras por companhias apegadas ao ciclo doméstico, com destaque para Kroton e Braskem.
Embora sejam posições distintas, partiam basicamente do mesmo racional: os acontecimentos da semana passada, ao deteriorarem o preço dos ativos de risco brasileiro, abriram uma oportunidade de compra interessante. A leitura era de que, apesar da volatilidade e dos sustos em torno do tema Previdência, isso era mais ruído do que sinal. Poderia até ter ficado mais difícil ou atrasar, mas, no final, a imposição inexorável das condições materiais garantiria a aprovação da reforma previdenciária no final.
Ninguém disse que seria fácil, tampouco rápido ou livre de momentos de incerteza e insegurança. Muito pelo contrário. Aqui, reiteradas vezes argumentei em prol da necessidade de preparação psicológica do investidor para o que viria. Disse que notícias seriam vazadas para proteger determinados grupos de interesse, que certos deputados tentariam vender caro suas posições, que jogos de poder seriam jogados e que, por várias vezes, haveria choro e ranger de dentes. Reforma da Previdência é complicada em qualquer lugar do mundo, porque mexe com interesses estabelecidos e com grupos de interesse. E o Brasil insere-se no grupo dos países mais complicados do mundo. Então, podemos nos preparar para tiro, porrada e bomba.
Minha sugestão segue a mesma de sempre: senta na mão. Essa é a hora de disciplina mental, tolerância à volatilidade e, se possível, adição marginal e gradativa de posições.
Não se trata aqui de dourar a pílula, tampouco da esperança ingênua típica dos ignorantes — o pessimismo sempre foi percebido como postura filosófica superior, de certa profundidade intelectual, enquanto o otimismo seria mais superficial e dotado de uma alegria imatura (Schopenhauer, Montaigne e, em alguma instância, Nietzsche sempre estiveram entre uma espécie de tríade incontestável da sabedoria; parte disso se deve a sua postura pessimista).
Reconheço que a semana passada foi péssima. E aqui me refiro à movimentação na margem, pois, como todos sabemos, importam mesmo os movimentos na margem, não no nível.
A reformulação da carreira dos militares veio em momento bastante ruim — ainda que possa ser meritória, dada a defasagem da categoria frente às demais, passa uma sinalização horrorosa neste momento, de falta de isonomia com as corporações e os grupos particulares; enquanto todos são cobrados por um sacrifício, os militares teriam melhoras de condições?
A prisão do presidente Temer tirou visibilidade sobre articulação no Congresso e sobre a postura do MDB principalmente (ainda que eu, Felipe, ainda prefira viver num país em que o combate à corrupção seja irrestrito).
Rodrigo Maia, importante nas negociações no Congresso, e o presidente Jair Bolsonaro estranharam-se nas redes sociais e em entrevistas à imprensa — sabe lá Deus todos os interesses que estão por trás dessa disputa pública, mas não parece uma boa ideia brigar com o dono da casa que vai servir o jantar; rusgas com o presidente da Câmara pouco agregam. Vale a volta também: não gera valor para o presidente da Câmara brigar com o chefe do Executivo; em especial, esse presidente da Câmara.
Maia cobra uma definição explícita do presidente Bolsonaro sobre o que seria a nova política. O Poder Executivo rebate dizendo que não jogará a velha política.
Comum à velha ou à nova, há apenas a política. E é disso que se trata aqui: do sentido clássico e etimológico da coisa, da polis grega, em seu sentido de cidade, essenciais para a organização social por meio de debates, diálogos, negociações.
Aqui é preciso diferenciar o que é meramente a conotação negativa dada a tal “velha política” do que é a essência do presidencialismo de coalizão. Marcos Lisboa e Samuel Pessôa chamaram brilhantemente atenção para esse ponto em artigos na Folha de ontem, em que lembram da possibilidade (talvez até mesmo necessidade) de se compartilhar poder em torno de um programa dentro do presidencialismo multipartidário, o que envolve negociar cargos e posições no gabinete após a negociação de um programa e de um projeto de país. Ao afastar essa possibilidade, o presidente Bolsonaro pode perder a parte mais nobre da política.
Apesar disso, não me parece razoável supor que tuítes mal colocados e alfinetadas na imprensa possam fazer-nos desviar da rota da recuperação. A reforma da Previdência é uma imposição inexorável. Sem ela, o país explode. E não temos vocação para explodir. Sem um ajuste nas contas previdenciárias, essa linha de despesa vai responder por 120 por cento do Orçamento em poucos anos.
Ninguém quer isso. Os parlamentares não querem porque precisam de suas emendas. O presidente quer porque sabe que seu governo acaba antes de começar se não aprovar a reforma da Previdência. Os governadores querem porque estão quebrados e precisam de dinheiro. E a população precisa porque o crescimento econômico e a melhor distribuição de renda exigem acerto das contas públicas.
O caminho vai ser tortuoso. Quando se está no meio de um furacão na travessia, a visibilidade é baixa. No final, porém, vai dar certo. É preciso apegar-se ao estrutural. A ação mexe pra cá e pra lá. O diabo da renda variável é que ela varia. No final do dia, acaba seguindo o lucro da empresa.
Encerro a contribuição de hoje com a imagem das buscas no Google pelo termo “Ibovespa” nos últimos 30 dias. O que será que está por trás do aumento recente?
Na Empiricus, costumamos dizer que somos uma empresa do “o que” (foco no resultado), não do “porquê" (certo desinteresse pelas potenciais causas). Então, deixemos as razões e as emoções de lado.
Em sua primeira encíclica, batizada “Deus é amor”, Bento XVI fala como o amor transmuta-se na forma de Eros (amor no sentido erótico, apaixonado, na sua chama incandescente) em Ágape (amor no sentido de afinidade, respeito, afeto, afeição, em algum grau autossacrifício).
As buscas apaixonadas por Ibovespa devem se transformar numa abordagem racional, em busca material de conhecimento, quebra da inércia dos investidores em manter seu dinheiro na poupança ou em outros produtos financeiros ruins dos bancos. Contas serão abertas nas corretoras, que farão diligentemente os projetos de know your client e depois suitability. A chama de uma paixão inicial transformada em estudo e diligência cotidianos, verdadeiro hábito de investir, mudança de comportamento, com seus benefícios e mazelas. A vida como ela é.
Mercados iniciam a semana estendendo o pessimismo da sexta-feira, mas com variações mais modestas. Há uma mistura de preocupação no exterior com a falta de resolução para as discussões entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia.
Lá fora gera temor principalmente porque oferece pouca capacidade de leitura. Indicadores ainda não mostram, mas é uma expansão muito longa e significativa, ao mesmo tempo em que a inversão dos yields sempre emite um alerta importante. China também é sempre uma caixa-preta — e do tamanho que está, pode ser uma bomba nuclear. Não estou dizendo necessariamente que é, mas, sim, que pouca gente (para não dizer ninguém) sabe algo de China.
PMIs industriais de Japão e Alemanha mostraram redução em março. Nos EUA, registrou sua pior performance em quase dois anos. Gera um alerta, é claro.
O yield do bond de dez anos do Tesouro alemão veio para o negativo pela primeira vez desde 2016, enquanto o rendimento do Treasury de dez anos caiu a 2,44 por cento, inferior ao nível pago pelo papel de três anos (juros longos inferiores aos curtos nos EUA costumam ser um indicador de preocupação com as recessões).
No momento, porém, parece mais uma desaceleração do que propriamente uma inversão súbita no sentido da recessão. Juros devem subir menos lá fora e alimentar fluxo para mercados emergentes.
Agenda local traz déficit em conta corrente, relatório Focus e IPC-S. Lá fora, sai atividade na região de Dallas.
Ibovespa Futuro cai 0,5 por cento. Juros futuros sobem e dólar cai.
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