Ibovespa quebra a maldição de maio e fecha o mês com ganho acumulado de 0,7%
A melhoria no cenário político local impulsionou o Ibovespa nas últimas duas semanas e levou o índice ao campo positivo no acumulado de maio, quebrando a escrita dos últimos nove anos. O mercado acionário local, assim, foi na contramão das bolsas americanas, que tiveram um mês amplamente negativo, afetadas pela guerra comercial
O Ibovespa iniciou o mês com um peso nos ombros. Uma velha superstição deixava os agentes financeiros ressabiados — e não sem razão. Afinal, o índice vinha de uma sequência de nove anos com desempenho negativo em maio, e esse histórico trazia uma boa dose de cautela às mesas de operações.
Era o tal do "sell in May and go away" — algo como "venda em maio e vá embora", um chavão do mercado financeiro. Só que o quinto mês de 2019 quebrou essa escrita.
Depois de muita volatilidade nas últimas semanas, o Ibovespa encerrou o pregão desta sexta-feira (31) em queda de 0,44%, aos 97.030,32 pontos. Mas, apesar dessa perda, o índice ainda fechou maio com ganho acumulado de 0,7% — o primeiro resultado positivo para o mês desde 2010.
A história do Ibovespa neste mês pode ser dividida em duas etapas. No primeiro tempo, o time do mercado local foi massacrado pela guerra comercial e pelas incertezas no front político. Mas, nos 45 minutos finais, houve uma virada: a despressurização de Brasília fez o índice ligar o turbo — e virar ao campo positivo em maio.
Mas, apesar da quebra da "maldição de maio", é importante ressaltar que o mês foi marcado por uma volatilidade intensa. Afinal, o índice oscilou entre os 89.408,93 pontos e os 97.992,31 pontos, considerando as mínimas e máximas intradiárias dos últimos 31 dias. É uma diferença de mais de 8 mil pontos.
Assim, essa história teve um desfecho feliz — mas só quem tem estômago forte conseguiu acompanhá-la do início ao fim.
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Uma onda de pessimismo varreu os mercados brasileiros na primeira metade do mês. E esse turbilhão teve dois vetores: um externo e um interno.
No exterior, a guerra comercial voltou aos holofotes. Estados Unidos e China, que pareciam próximos de fechar um acordo, entraram novamente em rota de colisão. Essa mudança de trajetória pegou os mercados globais desprevenidos e gerou uma espiral negativa.
A escalada nas tensões entre as potências começou quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou no início do mês que o país aumentaria as tarifas sobre produtos importados da China. O clima entre os governos azedou e qualquer possibilidade de acordo comercial foi para o abismo.
Desde então, americanos e chineses vêm se estranhando e adotando uma retórica de ataque e contra-ataque: cada vez que um governo anuncia uma medida que afeta o rival, uma iniciativa de retaliação era imediatamente adotada pelo outro lado. E, nessa escalada, os mercados levaram um choque.
Como se não bastasse, o cenário doméstico também passou por um 'tsunami', usando as próprias palavras do presidente Jair Bolsonaro. Por aqui, a primeira metade de maio foi marcada por fortes divergências entre governo e Congresso, investigações envolvendo a família do presidente e muitos outros focos de tensão envolvendo as figuras centrais de Brasília.
Nesse contexto, o mercado adotou uma postura de pessimismo em relação ao futuro da tramitação da reforma da Previdência. Afinal, nesse ambiente conturbado, os agentes financeiros viam poucas chances de o texto não ser fortemente desidratado ou sofrer com atrasos em seu cronograma.
E o auge do pessimismo foi registrado em 17 de maio. O índice terminou esse pregão aos 89.992,73 pontos, o que, na ocasião, representava uma queda acumulada de 6,6% no mês. Mas aí...
Segundo tempo: Ibovespa Balboa
Como o famoso boxeador dos cinemas, o Ibovespa apanhou, apanhou e apanhou. Mas, quando tudo parecia perdido, o índice reagiu e conseguiu uma virada.
E essa virada possui estreita relação com o cenário político. Em Brasília, governo e Congresso começaram a aparar as arestas e mostrar uma maior sintonia. MPs de interesse da gestão Bolsonaro foram levadas à votação e declarações mais amenas começaram a tomar conta do noticiário.
Era o sinal que o mercado aguardava: a articulação política, antes tão problemática, começou a caminhar em passos largos. E o Ibovespa reagiu quase que imediatamente.
Na segunda metade de maio, o índice foi ganhando terreno sessão após sessão, acompanhando a despressurização do cenário político. E, nessa semana, esse movimento ganhou ainda mais força com a sinalização de que os Três Poderes assinarão um "pacto" para o crescimento econômico do país.
Com esse cenário bem menos turbulento em Brasília, o índice foi reagindo e ignorando o exterior ainda cheio de conflitos. E o resultado foi a quebra da maldição de maio.
E o dólar e os juros?
O dólar à vista terminou a sessão desta sexta-feira em forte queda de 1,33%, a R$ 3,9255 e, com isso, fechou o mês com leve alta acumulada de 0,11%. Mas, assim como o Ibovespa, a moeda americana também passou por um forte alívio nas últimas duas semanas.
Basta lembrar que, em 20 de maio, o dólar à vista aparecia na faixa de R$ 4,10, a maior cotação de 2019 — na máxima intradiária, chegou a bater os R$ 4,12. Mas as melhores perspectivas locais em relação à reforma da Previdência provocaram um desmonte massivo de posições.
Esse cenário também afetou as curvas de juros. Os DIs com vencimento em janeiro de 2021, por exemplo, fecharam a sessão de hoje em 6,49%, de 6,56% no ajuste de ontem. As curvas para janeiro de 2023 recuaram de 7,62% para 7,56%, e as com vencimento em janeiro de 2025 caíram de 8,19% para 8,16%.
No caso dos juros, também cooperou para a despressurização a perspectiva de fraqueza da economia brasileira — o PIB do país recuou 0,2% no primeiro trimestre deste ano na comparação com os três últimos meses de 2018. Nesse cenário, cresce a expectativa de um eventual corte da Selic por parte do BC, como maneira de estimular a atividade econômica.
Banho de sangue no exterior

Lá fora, os mercados não tiveram nenhum alívio. Pelo contrário: a guerra comercial piorou ainda mais na segunda metade de maio.
E isso porque o governo americano abriu mais um front de tensão na guerra comercial nesta sexta-feira, partindo para cima do México — a gestão Trump afirmou que irá aplicar uma tarifa de 5% sobre todas as importações mexicanas.
Essa medida trouxe mais uma dose de pessimismo aos mercados globais, já que reduz ainda mais as esperanças quanto ao fechamento de um acordo entre Estados Unidos e China. E, em meio às tensões comerciais, as bolsas americanas foram amplamente impactadas.
O Dow Jones, por exemplo, fechou o pregão de hoje em queda de 1,41%, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq tiveram perdas de 1,32% e 1,51%, respectivamente.
No mês, as perdas foram ainda mais volumosas. O Dow Jones fechou maio com baixa acumulada de 6,68%, enquanto o S&P recuou 6,57% e o Nasdaq teve queda de 7,93%.
Se o Ibovespa conseguiu quebrar a maldição de maio, o mesmo não pode ser dito das bolsas americanas. Lá fora, o "sell in May and go away" segue mais vivo que nunca.
E daqui para frente, como fica?
Para Vladimir Caramaschi, estrategista-chefe da Indosuez Wealth Management, é preciso ir com calma e não se deixar empolgar pela recente onda de recuperação dos mercados locais, uma vez que, embora os sinais sejam animadores, a reforma da Previdência ainda tem muitos obstáculos pela frente.
Ele pondera que a apresentação do relatório da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara é um primeiro ponto de interesse a ser observado pelo mercado, uma vez que o documento irá gerar uma onda de reações por parte dos deputados.
"A partir daí, teremos uma ideia melhor sobre os ajustes que serão necessários para conseguir um bom apoio na comissão", diz Caramaschi. Mas, depois dessa etapa, outras fases mais complexas ainda devem ser enfrentadas — em especial, o plenário da Câmara.
O estrategista da Indosuez afirma que, nesse ponto, a base efetiva de apoio ao governo será colocada à prova, uma vez que, embora muitos deputados se declarem favoráveis à reforma, a votação no primeiro turno no plenário da Câmara pode trazer diversas turbulências, com a análise ponto a ponto do texto.
E, em meio a essas possíveis incertezas, a volatilidade pode voltar a contaminar os mercados. "Acho que ainda teremos muita dificuldade daqui para frente", diz Caramaschi. "Não dá para contar com o ovo da galinha".
Sexta-feira de ajustes
Por aqui, o mercado continuou com a toada de otimismo em relação ao cenário local. Mas, no exterior, o dia foi tenso, em meio às ameaças dos Estados Unidos ao México — e esse clima de tensão lá fora gerou uma leve correção de posições no Ibovespa.
No âmbito corporativo, algumas empresas se destacaram nesta sexta-feira. Foi o caso do setor de frigoríficos, já que BRF e Marfrig surpreenderam o mercado na noite de ontem ao anunciarem que estão negociando a fusão de suas operações.
Os papéis ON da Marfrig (MRFG3) fecharam em alta de 0,74%, enquanto os ativos ON da BRF (BRFS3) caíram 4,52% — veja aqui o que os analistas acharam do anúncio. Quem também sentiu os efeitos do noticiário foi a JBS. Em meio à possibilidade de união de duas de suas principais concorrentes, ações ON da companhia (JBSS3) tiveram baixa de 1,84%.
As tensões no comércio global também derrubam as commodities: o minério de ferro caiu 2,19% na China e o petróleo teve mais um dia negativo, tanto o WTI (-5,69%) quanto o Brent (-5,57%).
Esse contexto afetou as ações de empresas que são ligadas às commodities, caso das siderúrgicas CSN ON (CSNA3), em queda de 2,13%; Usiminas PNA (USIM5), com baixa de 1,56%; e Gerdau PN (GGBR4), com desvalorização de 0,57%.
Os papéis da Petrobras também ficaram no vermelho: os ativos PN da estatal (PETR4) caíram 2,29%, enquanto os ONs (PETR3) recuaram 2,15%.
Vale ON (VALE3), por sua vez, teve queda de 2,02%. Os papéis da mineradora também foram pressionados pelo minério de ferro, mas a noticia de que uma parte do paredão da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG), deslizou e não afetou a barragem Sul Superior, ajudou a trazer algum alívio aos ativos.
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