Menu
2019-10-14T16:23:46-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
The show must go on

Under pressure: aversão ao risco e noticiário local fazem Ibovespa cair mais de 1%

Em meio às incertezas da guerra comercial e ao clima de cautela em função do noticiário doméstico, o Ibovespa teve mais um pregão negativo

26 de agosto de 2019
10:25 - atualizado às 16:23
Freddie Mercury Queen
Ibovespa foi pressionado por fatores locais e externos, caindo à faixa dos 96 mil pontos - Imagem: Shutterstock

Eu gosto muito de rádio: enquanto dirijo, fico trocando freneticamente de estação, alternando entre músicas e notícias. E, na manhã desta segunda-feira (26), não foi diferente: a caminho do trabalho, enquanto pensava no Ibovespa e no dólar à vista, eu cruzava a zona oeste de São Paulo — e ia pulando de emissora em emissora.

E, entre as diversas manchetes, canções e entrevistas, uma linha de baixo prendeu a minha atenção: simples, elegante e marcante. Era a abertura de Under Pressure, clássico do Queen com a participação de David Bowie.

Depois de alguns segundos de introdução, Freddie Mercury e o camaleão do rock entram e cantam, a plenos pulmões: "Pressure / Pushing down on me / Pushing down on you / No man ask for". Ou, numa tradução livre:

Pressão / Me esmagando/ Te esmagando / Ninguém merece isso

Confesso: eu não sou um grande fã de Queen. Mas, desde hoje cedo, essa música está na minha cabeça. E, ao ver o Ibovespa cedendo às pressões locais e externas, não tive como não lembrar ainda mais do dueto entre Freddie Mercury e David Bowie — ou da linha de baixo de John Deacon.

Afinal, o principal índice da bolsa brasileira até começou o dia bem, tocando os 98.435,96 pontos logo após a abertura (+0,79%). No entanto, o Ibovespa rapidamente perdeu força e virou o campo negativo, terminando em baixa de 1,27%, aos 96.429,60 pontos — o menor nível de fechamento desde 5 de junho.

E, assim como nas últimas semanas, o noticiário externo trouxe cautela às negociações por aqui. Lá fora, a guerra comercial entre Estados Unidos e China segue nos holofotes, gerando preocupação aos mercados em escala global — e, em meio à turbulência, os ativos de países emergentes acabaram sendo os mais penalizados.

No entanto, o panorama doméstico também foi motivo de preocupação para os agentes financeiros. Os recentes atritos entre os governos do Brasil e da França, tendo como pano de fundo a crise na Amazônia, não são bem vistos pelo mercado; além disso, o noticiário envolvendo o BTG Pactual trouxe uma dose extra de estresse às negociações.

O mercado de câmbio também segue pressionado: o dólar à vista avançou 0,36%, a R$ 4,1395 — na máxima, chegou a tocar os R$ 4,1630, o maior nível em termos intradiários desde 19 de setembro (R$ 4,1767). Lá fora, o a moeda americana exibiu tendência semelhante em relação às demais divisas de países emergentes.

Já as bolsas americanas conseguiram passar por um alívio: o Dow Jones subiu 1,05%, o S&P 500 teve alta de 1,10% e o Nasdaq exibiu ganhos de 1,32%. E o que explica essa diferença de comportamento em relação ao Ibovespa?

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter

Is this the real life?

Na última sexta-feira (23), as tensões comerciais entre Estados Unidos e China chegaram a um novo patamar após os governos de Pequim e de Washington elevarem as tarifas de importação entre si — e após o presidente americano, Donald Trump, elevar o tom e fazer críticas agressivas ao governo chinês.

Contudo, o republicano deu algumas declarações nesta manhã, buscando esfriar um pouco os ânimos. Segundo Trump, o governo americano recebeu duas ligações de autoridades de Pequim na noite do último domingo. O republicano afirmou que os países retomarão as negociações comerciais "em breve" e de "forma muito séria", dizendo ainda ter respeito pelo presidente chinês, Xi Jinping.

E, por mais que o governo chinês tenha negado os contatos telefônicos, o tom mais ameno usado por Trump diminuiu o pânico nos mercados — o que abriu espaço para que as bolsas americanas recuperassem parte das perdas recentes. Só que esse otimismo não contamina as bolsas mundiais.

Conforme destaca Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, a aversão global ao risco por causa da instabilidade na guerra comercial segue elevada. A fala de Trump, assim, serve para trazer algum alento aos mercados americanos, mas não diminui a cautela em relação aos ativos mais arriscados, como os de países emergentes.

"Há cerca de duas semanas, começamos a ver um descolamento maior dos emergentes em relação ao mercado americano", pondera Beyruti. "E, hoje, vemos que a aversão ao risco ainda está alta. Isso gera um movimento de busca por ativos seguros que acaba nos desfavorecendo".

Assim, o Ibovespa mergulhou novamente no campo negativo e o dólar à vista voltou a ganhar força em relação ao real: em meio às incertezas e instabilidades da guerra comercial, os agentes financeiros preferem reduzir a exposição aos ativos mais arriscados e correm para opções mais seguras.

No caso do mercado acionário, essas alternativas seriam os papéis de empresas americanas; no câmbio, a preferência acaba ficando com o dólar.

Is this just fantasy?

Mas analistas e operadores também destacam que o noticiário local não coopera para melhorar o humor dos mercados por aqui. A crise na Amazônia, somada às trocas de farpas entre o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e da França, Emmanuel Macron, traz desconforto aos agentes financeiros.

Por mais que os países do G7 tenham definido ajudar o Brasil a combater os incêndios florestais na Amazônia, o bate-boca público entre Bolsonaro e Macron não é bem visto pelos mercados, uma vez que pode mexer com a percepção do Brasil no exterior e trazer instabilidade às negociações. "Isso não é nada bom", me disse um operador.

Além disso, um segundo fator no front local contribuiu para piorar ainda mais o humor por aqui: a possibilidade de envolvimento do BTG Pactual num esquema de lavagem de dinheiro, conforme revelado num primeiro momento pelo site O Antagonista.

A Polícia Federal estaria investigando "esquemas extremamente sofisticados" de lavagem de dinheiro — a denúncia, cuja íntegra foi disponibilizada pelo site, foi feita em 2016, por uma fonte anônima ligada ao banco. Em nota, o BTG negou qualquer irregularidade.

Como resposta, as units do BTG Pactual (BPAC11) fecharam em forte baixa de 18,48%, a R$ 46,46. Os demais papéis do setor bancário também fecharam no campo negativo, com destaque para Banco do Brasil ON (BBAS3) (-0,47%) e Bradesco PN (BBDC4) (-1,03%).

Caught in a landslide

Por aqui, o real segue mostrando dificuldade para retomar o terreno perdido, e nem mesmo a venda de mais um lote de US$ 550 milhões no mercado à vista pelo Banco Central trouxe maior tranquilidade às negociações de câmbio no mercado doméstico — essas operações vão até o dia 29.

Vale lembrar, ainda, que o BC continuará com as ofertas de moeda no mercado à vista em setembro: na última sexta-feira, a autoridade anunciou que ofertará até US$ 11,6 bilhões a partir de 2 de setembro.

E o estresse visto no mercado de câmbio local acompanha o movimento visto no exterior: lá fora, a divisa americana ganha força em relação às demais moedas emergentes, caso do peso mexicano, do rublo russo, do peso chileno e do rand sul-africano, entre outras.

No escape from reality

O novo dia de pressão sobre os ativos emergentes e o fortalecimento do dólar à vista acabaram fazendo com que as curvas de juros avançassem em toda a sua extensão.

Na ponta curta, os DIs para janeiro de 2021 subiram de 5,43% para 5,51%; no vértice longo, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 fecharam em alta de 6,44% para 6,59%, e as para janeiro de 2025 foram de 6,94% para 7,06%.

Comentários
Leia também
UMA OPÇÃO PARA SUA RESERVA DE EMERGÊNCIA

Um ‘Tesouro Direto’ melhor que o Tesouro Direto

Você sabia que existe outro jeito de investir a partir de R$ 30 em títulos públicos e com um retorno maior? Fiz as contas e te mostro o caminho

Enxugando

Bancos públicos devem acelerar vendas de ativos em 2020

Juntos, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES devem vender, só no primeiro semestre de 2020, mais de R$ 60 bilhões em ativos

Obras a todo vapor

A economia brasileira segue patinando, mas o setor de construção dá sinais de força

O segmento de construção continua aquecido, com a retomada nos lançamentos e um crescimento no volume de vendas. E as prévias operacionais da Helbor, Direcional e MRV dão suporte ao otimismo do mercado

Aval do presidente

Bolsonaro aprova fundo eleitoral de R$ 2 bilhões em orçamento para 2020

O presidente Jair Bolsonaro aprovou a inclusão do fundo eleitoral no Orçamento do governo de 2020 — um mecanismo que prevê gastos de R$ 2 bilhões para as campanhas das eleições municipais

O MELHOR DO SEU DINHEIRO

MAIS LIDAS: Bolha? Que bolha?

A matéria que discute uma suposta bolha nos fundos imobiliários foi a mais lida desta semana. Oi, aposentadoria e bolsa também estiveram entre os assuntos de destaque

Em busca de investidores

Guedes vai a Davos para ‘vender’ o Brasil

O ministro da Economia, Paulo Guedes, será a principal autoridade brasileira no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

LIÇÕES DO PAI RICO, PAI POBRE

Ganhando bem, mas longe de ser rico?

Robert Kiyosaki, autor do best seller Pai Rico, Pai Pobre, escreve aos sábados sobre suas lições de finanças

DE OLHO NOS EMPRÉSTIMOS

BNDES aprova empréstimos a exportações de Embraer, Marcopolo, Mercedes e Scania

A maior das operações foi para a fabricante de aviões Embraer, que tomou empréstimo de US$ 285 milhões para financiar a exportação de 11 aeronaves modelo E175 para a American Airlines, nos Estados Unidos

FUNDOS DE PENSÃO

Assessores de Guedes e mais 28 viram réus por rombo em fundos de pensão

“O Ministério Público Federal produziu e apresentou a este Juízo peça acusatória formalmente apta, acompanhada de vasto material probatório, contendo a descrição pormenorizada contra todos os denunciados”, anotou Vallisney.

SEU DINHEIRO NA SUA NOITE

De volta para o futuro

Quando escrevi aqui na newsletter que não é possível prever o futuro, um leitor me corrigiu. Em alguns casos podemos sim antecipar com razoável grau de precisão o que vai acontecer: que o diga a previsão do tempo. Ele tem razão, mas a mesma premissa válida para a meteorologia não se aplica ao mercado financeiro. […]

Bolsa forte

Otimismo externo se sobrepõe à hesitação local e Ibovespa sobe 2,58% na semana

Apesar do viés “misto” dos mais recentes dados da atividade doméstica, o otimismo em relação ao acordo EUA-China e a força mostrada pela economia chinesa sustentaram o bom desempenho do Ibovespa

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements