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As carnes veganas da Beyond Meat continuam em alta, como provou o balanço da companhia no terceiro trimestre. Mas as projeções decepcionantes da empresa para o futuro, somadas ao temor quanto a uma cláusula do IPO, fizeram suas ações derreterem em Nova York
Você pode detestar a ideia das carnes vegetais e jurar de pés juntos que não vai se render à febre. Mas, mesmo quem não troca um bom e suculento bife por nada nessa vida, precisa dar o braço a torcer: os hambúrgueres veganos vieram para ficar. E a Beyond Meat é uma das responsáveis por popularizar esses produtos.
A pioneira das carnes vegetais é um caso a ser estudado pelo mercado financeiro: suas ações chegaram à bolsa americana em 2 de maio, valendo US$ 25. Em menos de três meses, os papéis dispararam incríveis 840%, chegando a US$ 234,90 na máxima, registrada em 26 de julho.
Essa valorização impressionante tinha como base o potencial de crescimento da companhia: com uma demanda cada vez maior pelos hambúrgueres veganos, a Beyond Meat era vista como a grande aposta num segmento que tinha tudo para deslanchar. Nesse cenário, os investidores preferiram comprar antes e fazer perguntas depois.
Os questionamentos rapidamente começaram a surgir. Será que a empresa conseguiria crescer no mesmo ritmo que a demanda por seus produtos? Será que as parcerias fechadas com redes de fast food, como o McDonald's, não eram um passo muito largo para suas pernas ainda curtas?
E, principalmente: será que as ações não subiram demais, sem fundamentos sólidos que justificassem a euforia?
Assim, de julho para cá, o mercado tem assumido uma postura mais cautelosa em relação às ações da Beyond Meat: os papéis encerraram o pregão de segunda-feira (28) — o último antes da divulgação do balanço da companhia no terceiro trimestre — valendo US$ 105,41.
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Mas, quem duvidava da capacidade de a empresa continuar se expandindo e entregando resultados consistentes, se deu mal: a Beyond Meat superou as expectativas dos analistas no trimestre, tanto em termos de lucro líquido quanto de receita, e ainda elevou suas projeções para 2019. Um balanço que foi considerado forte por Wall Street.
Só que as ações da companhia não refletem nem de longe a força dos números trimestrais: os papéis da empresa (BYND) despencaram 22,22% nesta terça-feira, a US$ 81,99. A cotação ainda representa um salto de mais quase 230% em relação ao preço do IPO, mas está cada vez mais distante da máxima registrada em junho.
Para entender melhor o comportamento do mercado em relação às ações da Beyond Meat nessa terça-feira, fica mais fácil separar a análise em tópicos: o balanço em si, as projeções para 2019 e as preocupações dos investidores quanto a uma cláusula do IPO.
Como dito acima, os resultados trimestrais foram fortes: a Beyond Meat registrou um lucro líquido de US$ 4,1 milhões entre julho e setembro deste ano — no mesmo intervalo de 2018, a empresa teve um prejuízo de US$ 9,342 milhões. É a primeira vez desde o IPO que a companhia fecha um trimestre no azul.
Com isso, a fabricante de carnes vegetais obteve um lucro por ação — uma métrica importante para a análise de balanços estrangeiros — de US$ 0,06. O indicador ficou acima da média das estimativas de analistas consultados pela Bloomberg, que apontava para um lucro por ação de US$ 0,02.
A receita líquida também veio forte: US$ 91,9 milhões, um crescimento de 250% na base anual — a média das projeções dos analistas ouvidos pela Bloomberg era de US$ 82,2 milhões. No segundo trimestre, a empresa reportou receitas de US$ 67,2 milhões.
Por fim, a Beyond Meat elevou suas estimativas para 2019: agora, a produtora de hambúrgueres veganos quer fechar o ano com uma receita líquida entre US$ 265 milhões e US$ 275 milhões — a meta anterior era de US$ 240 milhões.
E é aqui que mora um detalhe sutil e que ajuda a explicar a reação negativa do mercado. Nos primeiros nove meses de 2019, a Beyond Meat já acumulou receitas de US$ 204,5 milhões. Assim, considerando o topo da estimativa, de US$ 275 milhões, a empresa irá gerar apenas US$ 70,5 milhões de receita no quarto trimestre desse ano.
Desta maneira, mesmo no cenário mais otimista, a fabricante de carnes vegetais irá reportar uma queda de 28% na receita líquida no quarto trimestre, na comparação com os resultados atuais. Ou seja: o conservadorismo da Beyond Meat em suas projeções caiu muito mal no mercado.
Esse mau humor com as projeções fornecidas pela própria empresa, no entanto, não seria tão grande caso a Beyond Meat não estivesse perto de um ponto de inflexão: o período de "lock-up" das ações da companhia irá terminar em 29 de outubro, e os agentes financeiros temem que uma enorme onda vendedora inunde os mercados com os papéis.
Para quem não sabe, "lock-up" é uma cláusula relativamente comum dos processos de abertura de capital. Ela determina que os investidores iniciais de uma empresa — não os que entraram no IPO, mas sim aqueles que já tinham posições na companhia, como os controladores, a administração e os parceiros iniciais — sejam obrigados a ficar com as ações por um certo período de tempo depois da estreia na bolsa.
E, no caso da Beyond Meat, o "lock-up" termina hoje. Ou seja, a partir de amanhã, todos esses investidores iniciais poderão se desfazer de suas ações — e, considerando que, no IPO, os papéis valiam apenas US$ 25, uma eventual venda de posição via mercado traria lucros expressivos a esses acionistas.
Desta maneira, por mais que o balanço da empresa tenha sido positivo, o mercado está colocando as barbas de molho: temendo um movimento massivo de venda de ações — e amparado pelas projeções desencorajadoras da própria empresa —, os agentes financeiros optam por se desfazer dos papéis nesta terça-feira.
Em relatório, o analista Brian Holland, do D.A. Davidson, elogia os resultados trimestrais da Beyond Meat. "Continuamos impressionados com a execução da estratégia até agora", escreve o especialista. "Mas, para sermos construtivos, vamos defender nossa perspectiva mais cautelosa para o setor e para a companhia, buscando um valuation mais palatável".
Holland diz ainda que, no curto prazo, irá monitorar o comportamento das ações em relação aos ruídos de curto prazo, especialmente o fim do lock-up, de modo a buscar um potencial ponto de entrada nos papéis. O D.A. Davidson possui recomendação underperform para os ativos (abaixo da média do mercado), com preço-alvo de US$ 84,00.
O J.P. Morgan, por outro lado, tem recomendação overweight (acima da média) para as ações da Beyond Meat. No entanto, a instituição cortou seu preço-alvo, de US$ 189 para US$ 138, citando as previsões conservadoras emitidas pela própria empresa — o banco, agora, projeta uma receita menor de 2025 em diante.
"Apesar de acreditarmos na história da Beyond Meat e acharmos que as ações estão subvalorizadas, acreditamos que é prudente adotar um modelo com crescimento estável no longo prazo, ao invés de uma aceleração", escreve o analista Ken Goldman, em relatório.
De acordo com dados compilados pela Bloomberg, as ações da Beyond Meat possuem duas recomendações de compra, oito avaliações neutras e três classificações de venda.
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