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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Política

Flávio Bolsonaro e a teoria da bosta seca

Movimentações financeiras do senador e de seu ex-assessor geram um odor incômodo a um governo que nem começou, podendo resultar em indigestas faturas políticas

21 de janeiro de 2019
12:07 - atualizado às 18:34
Imagem: Montagem: Seu Dinheiro

O assunto em diferentes rodas de conversa, no noticiário e nas redes foi e continua sendo um só: as movimentações financeiras do filho do presidente Jair Bolsonaro, o senador eleito Flávio Bolsonaro, e seu ex-motorista Fabrício Queiroz.

Ao falar sobre o tema com diferentes grupos de amigos e colegas começava com a seguinte pergunta, que também faço ao leitor: Você conhece a teoria da bosta seca?

A maioria das respostas, entre breve riso e aquela olhadela de desconfiança, era um “não”, seguindo de “mas conta mais aí”.  Essa teoria tem domínio público, até porque advém de um antigo dito popular, mas cabe lembrar aqui que Elio Gaspari faz bom uso dessa figura em suas colunas na “Folha de S.Paulo” e outros jornais.

Tínhamos uma pilha de excremento exposta ao ar, as movimentações atípicas de Fabrício Queiroz detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A pilha estava lá, mas já parecia estar “secando”, ou seja, fedendo menos, pois o tema estava circunscrito ao ex-assessor, à falta de esclarecimentos em função de um câncer e até a uma dança em quarto de hospital.

Na sexta-feira, no entanto, Flávio Bolsonaro e seus advogados resolvem remexer a “bosta” ao entrar com pedido de suspensão de investigação e anulação de provas no Supremo Tribunal Federal (STF). Com isso, o odor fétido tomou enormes proporções, engolfando o senador, que agora aparece como investigado, e ampliando as suspeitas sobre seu ex-assessor, que teria movimentado R$ 7 milhões nos últimos três anos. Até então, o valor controverso era de R$ 1,2 milhão entre saques e depósitos.

Ação e reação

Podemos ver da seguinte maneira. Flávio “atacou” o Ministério Público e o Coaf e a resposta veio já na sexta-feira à noite, no “Jornal Nacional”. O senador recebeu 48 depósitos em dinheiro, de R$ 2 mil cada, totalizando R$ 96 mil. Depois surgiu o pagamento de um boleto de R$ 1 milhão para beneficiário não identificado.

Depósitos fracionados e feitos em sequência constituem indício de operação suspeita, que os bancos são obrigados a informar ao Coaf, que por iniciativa própria ou por determinação de outro Poder, elabora um relatório de inteligência e encaminha ao MP ou outra autoridade.

A versão “na boca do povo” é que Flávio Bolsonaro seria beneficiário da tal “rachadinha”. Funcionários do gabinete devolvem parte do salário ao contratante.

Com o ar já bastante contaminado, no domingo à noite, o senador deu duas entrevistas às TVs “Record” e “Rede TV”. O senador se defendeu e justificou que o dinheiro recebido foi proveniente da venda de apartamento e que o pagamento de R$ 1 milhão, também se refere a transação imobiliária feita não por ele, mas pela Caixa, envolvendo quitação com construtora e financiamento imobiliário.

Os documentos todos, segundo Flávio, serão entregues à autoridade competente, que ele espera descobrir se é o MP do Rio ou MP de Brasília, com sua "consulta" ao STF.

Pois bem, ao falar de transações imobiliárias o senador abriu espaço para mais uma remexida nos dejetos, pois a “Folha de S. Paulo” diz hoje que, em três anos, o senador comprou R$ 4,2 milhões em imóveis.

Palácios e seus habitantes

Em meio ao mau cheiro, vimos notas de que “alas do governo” querem explicações rápidas, numa tentativa de se distanciar da pilha indesejada. Depois aparece o vice-presidente, Hamilton Mourão, tentando traçar uma “linha higienista” falando que “a bosta” não é do governo, mas sim do filho do presidente, e ele que tem de dar explicações.

Mesmo que atrasada, a tentativa é válida, pois o nome do presidente não parece diretamente implicado. Mas quando “fontes palacianas” ou “do governo” falam é sinal de que o cheiro desagradável já invadiu os palácios e não adianta abrir ou mesmo fechar as janelas. Pior, quando fontes palacianas comentam assuntos como esse, conseguem o exato oposto do pretendido, levando o problema para dentro do Palácio do Planalto.

Pode ser um misto de inexperiência, com falta de assessoria e estratégia de comunicação. O senso de sobrevivência também pode falar mais alto, mas em política instintos básicos e primitivos nem sempre ajudam.

A crise, por assim dizer, já é do governo e creio difícil que seria diferente, já que o envolvido é filho do mandatário que se elegeu sabendo bem que teria um escrutínio aguerrido dentro de uma eleição, que como falamos, despertou dois dos sentimentos mais primitivos da população, o ódio e o medo. Essas funções foram instigadas de maneira ímpar, eclipsando o funcionamento do córtex pré-frontal.

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Efeitos práticos

Enquanto aguardamos as cenas dos próximos capítulos, ou se a bosta volta a secar ou continua sendo remexida, o que se pode depreender é um desgaste para o governo antes mesmo da abertura do ano legislativo.

Não será o último “escândalo” do governo, isso é fato, mas para boa parte dos congressistas, governo desgastado é sinal de “presa fácil”, se não para garantir “benesses”, para criar dificuldades e vender facilidades ou mesmo “fazer oposição”.

Já temos notícias de que o PT quer instituir uma CPI para “investigar” o caso. O investigar vem entre aspas, pois CPI serve para qualquer coisa, menos para investigar.

Assim, Bolsonaro já chega com uma fatura em aberto no Senado e a eleição do presidente dessa Casa se torna ainda mais relevante. Ponto para Renan Calheiros, que como vimos aqui, é favorito a comandar a Casa e já deu acenos favoráveis a Flávio, mudando postura inicial de ameaça ao senador e ao governo.

Todas essas intricadas relações podem ter algum efeito sobre a agenda de reformas que o governo pretende colocar em votação o mais rápido possível.

Sobre reformas, especialmente a da Previdência, o que se viu no fim de semana foi uma entrevista do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, defendendo que os militares devam ficar de fora e um desenho de estratégia política pouco convincente.

Sobre os militares, por mais que tenham diferenças com relação aos civis, essas diferenças devem ser equacionadas na carreira e não na aposentadoria. Seria mais interessante fazer ajuste de carreiras e soldos para “reduzir” essas diferenças, e tratar a aposentadoria de forma mais linear com os demais. Se for atender a todos os “diferentes” sobrará apenas alguns leitores e eu para arcar com a fatura, já que juízes, MP, polícias, professores, parlamentares e outros são “mais iguais que os outros”.

Na parte de estratégia, o ministro disse que não desidratará a proposta inicial, pois não quer um “pacotinho light” como o de Michel Temer. Data venia em discordar, mas seria mais inteligente mandar um texto bastante duro e negociar alterações até “um limite” preestabelecido e propositadamente não divulgado.

O custo político é menor que “tentar impor” um texto pronto ao Congresso sobre um tema urgente e controverso. Dar “margem” ao Congresso é sinal de boa vontade, de desejo de interlocução. Política se faz com gestos e não dar “margem muito grande”, como disse Onyx, a deputados e senadores, pode dificultar as coisas ou elevar seu custo de aprovação.

Para terminar, por mais que Flávio e seu motorista consigam provar a lisura das operações financeiras atípicas que lhe imputam, essa “bosta” vai ficar exposta ao longo de todo período de governo. É torcer para a “bosta secar”, parar de feder tanto e não ser remexida, não importando que outros partidos tenham pilhas de excremento ainda maiores. Quem está governo é sempre a “vidraça” da vez.

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