O que você precisa saber para evitar uma crise financeira na sua empresa, segundo a VP de operações da Falconi
Juros altos expõem fragilidade das empresas, e gestão vira questão de sobrevivência. Líderes precisam alinhar metas, ganhar eficiência e pensar no longo prazo

A combinação de juros elevados e consumo enfraquecido tem colocado pressão extra sobre as empresas — e exposto problemas de gestão que, em períodos de crescimento, muitas vezes passam despercebidos. Com a redução do consumo e endividamento das famílias, a receita encolhe. Assim, o resultado operacional, que vem do próprio negócio, pode não ser suficiente para cobrir também a dívida e os juros.
Para ajudar líderes a melhorar a saúde financeira das empresas, Seu Dinheiro conversou com Marina Borges, vice-presidente de operações e sócia da Falconi, uma das maiores consultorias de gestão do Brasil, com mais de 40 anos de atuação.
Em um cenário desafiador, os problemas tendem a se agravar. “Em momentos como este, olhar para dentro deixa de ser uma escolha e passa a ser uma questão de sobrevivência”, afirma.
Maturidade e eficiência na gestão
Toda empresa precisa ter métricas claras e controle rigoroso de custos e processos. Ou seja, cada divisão precisa saber suas receitas e custos e, principalmente, qual o impacto de cada decisão em outras divisões da empresa. Sem isso, a operação fica no escuro.
“Frequentemente, quando entramos nas empresas — inclusive grandes — nos surpreendemos com as práticas de gestão”, diz Borges, que já está há quase 19 anos na consultoria.
Isso significa que cada equipe precisa ter clareza sobre o seu papel e a relação com outras, e isso vem de líderes que sentam juntos para definir as métricas de maneira conjunta.
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Antes mesmo de definir as metas, é fundamental olhar para a empresa como um todo. Em muitos casos, as organizações tratam o CFO como único responsável pela eficiência financeira.
“Dizem que o CFO é o dono dos números, mas toda a empresa precisa entender o impacto de suas decisões”, diz. “Muitas empresas até têm metas, mas os indicadores são isolados e sem visão sistêmica”, afirma.
Também é essencial que todos saibam para onde a companhia está indo. Muitas vezes, metas e estratégias ficam restritas ao alto escalão, o que faz as equipes avançarem em direções diferentes. “Ainda vemos inúmeras oportunidades de melhorar resultados e tornar as empresas mais saudáveis financeiramente”, afirma.
Ela alerta que não adianta a área comercial focar apenas em aumento de vendas sem avaliar os efeitos colaterais. Práticas como alongar prazos de recebimento, conceder descontos excessivos ou alterar o mix de produtos podem reduzir margens e pressionar o caixa.
Aumentar as vendas também tem consequências para a divisão de produção ou compras. Para ter mais produtos, ela precisa de mais capital de giro, o que pode comprometer ainda mais as finanças.
Ou seja, não basta a divisão comercial ter a meta de aumentar suas receitas: isso precisa fazer parte da estratégia da empresa como um todo. Sem isso, a consequência é a redução de margem e uma dependência ainda maior de crédito vindo de fora, o que piora ainda mais a situação financeira.
Olhar para o longo prazo
Na mesma linha, a liderança precisa ter visão de longo prazo. Entregar um trimestre com forte crescimento no lucro é menos relevante do que garantir resultados sustentáveis, diz a diretora da Falconi.
"Metas de curtíssimo prazo podem prejudicar a companhia quando levam a decisões que preservam apenas o caixa ou o resultado imediato, mas comprometem a capacidade futura de geração de valor", afirma.
Embora reduzir os custos seja um objetivo essencial, ainda mais entre empresas em dificuldades, fazer isso dem pensar nos planos de futuro da companhia pode ser um tiro na culatra.
Isso pode levar a cortes indiscriminados de custos, redução excessiva de investimentos, perda de talentos-chave, deterioração da experiência do cliente ou adiamento de decisões estruturantes. Empresas em recuperação precisam equilibrar liquidez imediata com sustentabilidade operacional, diz a especialista.
As soluções não devem ser imediatistas, especialmente porque a queda da Selic pode demorar. O custo da dívida tende a permanecer elevado, e uma taxa básica perto de 10% ao ano é projetada apenas para 2028 — ainda assim em dois dígitos, sem alívio expressivo.
Por outro lado, metas de longo prazo que valem a pena são aquelas ligadas ao fortalecimento estrutural da empresa. É o caso de metas que aumentem a produtividade, revisão do modelo operacional, disciplina de uso de capital, fortalecimento de governança e reconstrução de confiança com clientes ou fornecedores e mercado.
Situação financeira das empresas está crítica
O número de empresas envolvidas em pedidos de recuperação judicial no Brasil atingiu, em 2025, o maior patamar da série histórica. Ao todo, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos nesses processos — um avanço de 13% em relação ao ano anterior e o maior nível já registrado na série.
E é por isso que o governo lançou uma nova etapa do programa Desenrola Brasil voltado a empresas, aberto desde o dia 4 de maio. Com duração de 90 dias, o programa abre espaço para que micro e pequenas empresas renegociem dívidas, alonguem prazos e troquem empréstimos antigos por linhas com condições mais favoráveis.
A expectativa do governo é alcançar mais de 2 milhões de empresas com mudanças em linhas como ProCred e Pronampe. As alterações incluem ampliação de prazos, aumento dos limites de crédito e extensão do período de carência. Mas a oportunidade pode não ser para todo mundo; confira aqui se você deve entrar na renegociação.
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