Já fomos mais polarizados? Carlos Lacerda e Leonel Brizola ganham biografias que retratam dois lados do mesmo Brasil
Dobradinha de biografias pela Companhia das Letras colocam Lacerda e Brizola como protagonistas de um mesmo (e turbulento) momento da política brasileira

Em um ano eleitoral em que se sente a polarização, a Companhia das Letras lança as biografias de Leonel Brizola e Carlos Lacerda, considerados dois dos políticos mais importantes do país no período entre a Era Vargas e a Ditadura Civil-Militar de 1964.
O Seu Dinheiro conversou com os biógrafos Karla Monteiro e Mário Magalhães. Juntos, eles debatem como as trajetórias opostas de Brizola e Lacerda formam uma biografia do próprio Brasil.
Carlos Lacerda e Leonel Brizola: "como dois irmãos"
Descritos pelo jornalista e escritor brasileiro Antônio Callado (1917 – 1997) como os dois líderes mais magnéticos do panorama brasileiro, Leonel Brizola e Carlos Lacerda parecem ter nascido como espelho um do outro. “Como se fossem dois irmãos”, diria Callado.
É uma comparação interessante, porém injusta. Nascido no interior do Rio Grande do Sul e órfão de pai aos dois anos de idade, Brizola teve de lutar para estudar. Foi morar sozinho em Porto Alegre aos treze anos, trabalhou como engraxate e só parou de estudar depois de conseguir o diploma de engenheiro civil. Lacerda, de sua parte, não seguia carreira tão brilhante quanto Callado fazia crer. Envolvido com a política estudantil, largou o curso de Direito em 1932 e trilhava um caminho incerto.
Também se assemelhavam em outros pontos. Lacerda e Brizola eram, cada um à sua maneira, exímios oradores, capazes de conquistar o povo com suas palavras neste novo veículo de comunicação, o rádio. Pareciam destinados à política, aliás, desde a escolha de seus nomes: Carlos Frederico Lacerda, em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista, de um lado. E Leonel de Moura Brizola, em homenagem a Leonel Rocha, bravo caudilho que liderou o pai de Brizola em batalha.

A fonte inesperada
Nascidos para a política, tiveram em comum a frustração de jamais chegarem à presidência da República. Narrar vidas assim, tão ricas e cheias de reviravoltas, é um desafio à parte. Somados, os biógrafos Mário Magalhães e Karla Monteiro passaram mais de quinze anos em seus projetos. Amnbos foram auxiliados por uma fonte peculiar: os arquivos secretos dos órgãos de inteligência dos Estados Unidos.
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Karla Monteiro, autora de Brizola, Lobisomem Contra o Império (Cia da Letras, R$ 99,90), conta que em determinado momento da pesquisa percebeu que daria para reconstituir a vida do Brizola “pelos arapongas”. “Eles sabiam tudo, da hora que saía de casa até a hora que voltava, com quem saía e com quem voltava. Parecia que tinha alguém dentro da cozinha dele.”
Em Lacerda, Coração de Tempestade (Cia da Letras, R$ 99,90), Magalhães vai ainda mais longe. Ele diz que só topou encarar o desafio depois de receber acesso a 1.475 documentos secretos da CIA, do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa dos EUA.

A relevância conquistada pelo Brasil entre os anos 1930 e o fim da Segunda Guerra Mundial — que coincide com o período de modernização da Era Vargas — só cresceu com a Guerra Fria. Lacerda e Brizola, representando a extrema-direita e a extrema-esquerda, eram objetos de particular interesse para o governo americano.
Da crise de 1954 à Campanha da Legalidade
Se derrubar presidentes fosse um esporte olímpico, Carlos Lacerda seria duplo medalhista de ouro. Esteve por trás da escalada de violência que culminou no atentado da rua Tonelero e no subsequente suicídio de Getúlio Vargas. O atentado é reconstituído com precisão forense por Mário Magalhães, revelando que o tiro no pé de Lacerda no atentado da rua Tonelero foi acidental — disparado por ele ou sua escolta —, e que o político ocultou o fato e fingiu ter sido atingido pelo pistoleiro para se fazer de mártir e derrubar Getúlio Vargas.

A responsabilidade do suicídio do presidente foi imputada a ele, e Lacerda, nas palavras de Nelson Rodrigues, era considerado o “assassino de um suicida”.
Anos depois, Lacerda seria apontado, junto de “forças terríveis”, como responsável pela renúncia de Jânio Quadros em 1961 — Lacerda sentiu-se traído por Jânio, a quem havia endossado e de quem esperava, portanto, sociedade na presidência do país — e pelo impasse sucessório que se seguiu.
Sem saber, ele criava momentos canônicos na vida de Brizola. Com o suicídio de Getúlio, Lacerda dava a Brizola e João Goulart — seu cunhado e herdeiro de Getúlio Vargas — a carta-testamento em que Vargas escreve: “saio da vida para entrar na história”. Anos depois, a própria interpretação da carta, tomada por Brizola como compasso, levaria ao trágico rompimento com Jango, que a entendia mais como uma sugestão.
Campanha da Legalidade
O jornalista Fernando Morais costuma dizer que a Campanha da Legalidade, por si só, já merece um livro. Assim, é um dos pontos altos da biografia de Brizola.
Dizendo ser movido por “forças terríveis”, Jânio Quadros renuncia ao mandato da presidência em 1961. Com o vice-presidente João Goulart em viagem à China, essas forças encabeçadas por Carlos Lacerda começam a movimentação de peças para uma tentativa de golpe.
Enquanto Jango volta ao Brasil, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, passa quase cinco dias costurando uma solução política que garanta a posse de João Goulart — que só consegue se comunicar por meio de telegramas recebidos enquanto pula de país em país até voltar para cá.
Ao mesmo tempo, Brizola organiza a resistência civil em Porto Alegre que lhe daria a fama de “mais perigoso que Fidel Castro” nos arquivos da inteligência americana. Este é o segundo momento canônico na vida de Brizola causado por Carlos Lacerda; para a biógrafa, é inclusive o momento de sua memória que vem sendo resgatada atualmente pela juventude:
“Uma grife lançou uma camiseta estampada com a foto dele segurando uma metralhadora na Campanha da Legalidade. Acredito que seja um renascimento do Brizola, e acho que o Brizola que está sendo reivindicado por essa nova geração é justamente o Brizola revolucionário.”
Karla credita esse reavivamento da memória de Brizola como revolucionário de esquerda a um momento de descrédito das democracias liberais muito parecido com os períodos anteriores à Segunda Guerra Mundial e o começo da década de 1960, e complementa:
“A gente acha que agora está polarizada porque não tem noção de como era nos anos 1950 e 1960. E a polarização era física, brizolistas e lacerdistas se enfrentavam na Cinelândia a pau.”
1964
O golpe de 1964 leva Brizola ao exílio, mas não sem antes tentar organizar um movimento de resistência. De acordo com uma pista de Almino Affonso, Karla Monteiro entrevistou Raúl Roa Kourí, embaixador cubano no Brasil à época. Acabou descobrindo que momentos antes do golpe militar Brizola se comunicava com Che Guevara, que tinha se oferecido para montar um movimento de guerrilha no Brasil. A tomada de poder, no entanto, veio antes que os planos pudessem se concretizar, mudando a história da América Latina.
Anos depois, Lacerda se arrependeria de ter apoiado o golpe. Ele participaria da formação de uma frente ampla com os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek. Os três morreriam em menos de um ano, sendo Lacerda o último, em 1977. Por sinal, o mesmo ano em que Brizola foi expulso do Uruguai e buscou asilo nos Estados Unidos de Jimmy Carter. Este, o primeiro presidente democrata desde John Kennedy. A ocasião acabou transformando o brasileiro no rosto do movimento de anistia.

Legados
Perguntado sobre o legado de Carlos Lacerda, Mário Magalhães diz ver reflexos do político cuja virulência só era superada pelo seu brilho como homem de letras.
“Ouço e vejo Carlos Lacerda em todos os quadrantes, do jovem comunista ao jovem anticomunista. Como ele não teve uma trajetória política e existencial linear, suas ações e ideias falam com cabeças de todos os tipos. Como dizia o jornalista João Saldanha, não sou filho de chocadeira, tenho sentimentos e opiniões. Contudo, como biógrafo, não os manifesto. Não sou advogado de Carlos Lacerda nem, contra ele, promotor. Muito menos tenho veleidades de juiz. Escrevi um relato escrupuloso sobre sua história, contribuindo para que cada leitor e cada leitora possa, de modo autônomo, formar seu próprio juízo”, diz o biógrafo.
Já o legado de Brizola, para Monteiro, é a educação. A biógrafa acredita que ele “foi o político que mais lutou pela educação no Brasil”. Ela cita o projeto Nenhuma Criança Sem Escola, que zerou o analfabetismo no Rio Grande do Sul com a construção de escolas pequenas em zonas rurais do estado. Estas eram conhecidas como “brizolinhas”. Houve ainda a construção dos mais conhecidos “brizolões”, como são chamados os CIEPs, escolas em tempo integral, idealizadas por Darcy Ribeiro, com o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, construídas quando Brizola foi governador do Rio de Janeiro no final dos anos 1980.
Duas biografias do Brasil
Maiores oradores de sua era, Lacerda e Brizola tiveram vidas que se contrapõem e se confundem com a história do Brasil. São quase duas biografias do país com protagonistas diferentes.
O trabalho extraordinário dos biógrafos constitui tanto uma contribuição à historiografia brasileira quanto duas longas reportagens que se leem como romances. Nenhuma das duas, porém, romanceiam a vida dos biografados.
Fica, no fim, a impressão de que Antônio Callado estava certo. Especialmente quando terminou seu artigo dizendo que “nenhum dos dois parece muito apegado à democracia”. E quando afirma que “há nos dois algo de ultrapassado, algo de um Brasil velho e politiqueiro”.
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