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Da origem remota ao design da garrafa, entenda o que transforma a água em objeto de desejo e faz alguns consumidores pagarem preços comparáveis aos de uma joia

Circular pelas gôndolas do supermercado Casa Santa Luzia, no Jardim Paulista, bairro nobre de São Paulo, é quase uma experiência turística. O local reúne uma curadoria de produtos premium, entre eles, a água. Sim, aquela que sai da torneira. Ali, uma garrafa pode chegar na casa dos R$ 50.
Em versões ainda mais exclusivas vendidas pela internet, os preços chegam a R$ 35 mil para uma água feita com gelo derretido do ártico ou R$ 2 mil para uma versão produzida a partir de vapor amazônico. Mas o que explica cifras tão altas para algo aparentemente tão comum? O que diferencia essas águas premium de uma garrafa de R$ 2 comprada na padaria ou no mercado?

Origem geográfica remota, composição mineral específica, gaseificação natural, método de envase, raridade da fonte, design da embalagem e prestígio da marca ajudam a explicar o preço. Quem nunca quis comprar a norueguesa Voss só pela embalagem? No universo das águas premium, o storytelling importa quase tanto quanto o conteúdo da garrafa.
Mas, segundo Gustavo Buske, sommelier especializado em águas pela ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo), as diferenças vão além do marketing. “A diferença começa no solo. Água premium vem de fontes naturais protegidas, com composição mineral formada ao longo de séculos. pH, dureza, bicarbonato, sílica, tudo isso define sabor, textura e personalidade”, explica. “A água premium carrega a assinatura geológica do lugar onde nasceu. Cada água tem um terroir diferente e único.”

Se nas gôndolas os preços já impressionam, nos restaurantes eles podem subir ainda mais. No Figueira Rubaiyat, em São Paulo, por exemplo, Acqua Panna e San Pellegrino aparecem no cardápio por R$ 54 em garrafas de 505 ml. No Skye Bar, no rooftop do Hotel Unique, uma Evian de 750 ml custa R$ 45.
Em alguns casos, ela chega à mesa com recomendação de harmonização: águas menos mineralizadas para acompanhar pratos delicados, opções gaseificadas para refeições mais gordurosas e versões com maior presença de bicarbonato para “limpar o paladar” entre etapas do menu.
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E sim, harmonização de água existe. “Funciona pela mesma lógica de qualquer harmonização: equilíbrio entre o que está na taça e o que está no prato”, diz Buske. “Frutos do mar pedem águas mais leves, para não competir com a delicadeza do ingrediente. Já carnes vermelhas podem combinar melhor com águas mais minerais ou naturalmente gaseificadas, que ajudam a cortar a gordura e preparar o paladar.”
A FIJI Water, por exemplo, se tornou objeto de desejo porque conseguiu transformar um item cotidiano em símbolo de status entre as celebridades de Hollywood. Parte disso vem da embalagem imediatamente reconhecível, mas também da narrativa construída pela marca em torno de sua origem nas ilhas Fiji, que é associada à ideia de pureza, exclusividade e natureza intocada.
Nas prateleiras dos supermercados mais sofisticados, as garrafas disputam atenção como rótulos de vinho. Francesas como Evian, Badoit e Perrier convivem com italianas como Acqua Panna e San Pellegrino. Algumas são naturalmente gaseificadas, outras se destacam pelo alto teor de minerais como cálcio, magnésio, bicarbonato e sódio, elementos que alteram sabor, textura e sensação na boca.
O especialista explica que águas minerais podem, sim, apresentar perfis sensoriais bastante distintos entre si. “O que dá personalidade à água são os minerais dissolvidos. O bicarbonato traz frescor, o cálcio dá estrutura, o magnésio pode trazer um leve amargor elegante e a sílica deixa a textura mais sedosa”, afirma.
É justamente essa variedade que deu origem aos sommeliers de água. Eles são profissionais especializados em analisar sabor, textura, mineralidade e harmonização, assim como acontece com o vinho. E, ao contrário do que muita gente imagina, água tem, sim, sabor.
“Tem água que é sedosa, tem água que é dura, tem água que some sem deixar rastro e tem água que termina com uma mineralidade elegante e persistente”, resume Buske. “A análise segue a mesma lógica do vinho: entrada, meio de boca e final.”
A Danone, dona de marcas como Evian, Volvic e Badoit, por exemplo, mantém uma equipe de sommeliers de água em seu quadro de funcionários. Já a Nestlé, responsável por Perrier, San Pellegrino e Acqua Panna, afirma que não possui esses profissionais em sua estrutura interna. No entanto, algumas de suas marcas trabalham regularmente com eles.
O luxo engarrafado também movimenta cifras expressivas. O mercado global de águas premium foi estimado em US$ 23,4 milhões (R$ 118,6 milhões) em 2025 e deve alcançar US$ 42,1 milhões (R$ 213,3 milhões) até 2033, segundo levantamento da Grand View Research. A expectativa é a de que o setor cresça puxado, principalmente, pelo consumo ligado ao wellness, pela substituição de bebidas açucaradas e pelo avanço da "premiumização" no setor de alimentos e bebidas.
No mesmo movimento em que cafés especiais, azeites de origem controlada e chocolates artesanais ganharam espaço, a água passou a ocupar um território semelhante: o de produto cotidiano elevado à categoria de experiência.
Para Buske, a percepção de valor também passa pelo sensorial e pela atenção ao detalhe. “Para quem nunca prestou atenção pode parecer exagero. Mas é como comparar um suco de caixinha com uma fruta colhida na hora. Quando você prova com atenção, percebe que a diferença está ali.” A seguir, algumas das águas mais caras comercializadas mundo afora.
As águas mais caras que poucos conhecem

A Svalbarði é produzida a partir da água do degelo de icebergs que se desprendem de geleiras no Ártico e flutuam pelo mar antes de serem coletados. A empresa recolhe blocos de gelo já separados naturalmente das geleiras e usa a água do derretimento para o envase.
Como esse gelo se formou há milhares de anos, antes da industrialização, a marca argumenta que se trata de uma água extremamente pura, livre de nitratos, poluentes modernos e contaminantes atmosféricos recentes.

A edição especial Vitória Régia é uma água premium brasileira produzida a partir da umidade do ar da Floresta Amazônica. Diferentemente das águas minerais tradicionais, extraídas de fontes subterrâneas ou aquíferos, ela nasce da condensação do vapor presente na atmosfera amazônica, um vapor gerado pela própria floresta.
Segundo a empresa produtora, a captação acontece exclusivamente em noites de lua cheia, no município de Barcelos, no Amazonas, região considerada uma das mais preservadas do país. Para isso, a marca utiliza a tecnologia GAUA (Generator Atmospheric Water), sistema patenteado que transforma a umidade do ar em água potável por meio de condensação, sem interferir em sua composição e sem impacto ambiental direto sobre rios ou lençóis subterrâneos.

A Uisge Source é uma água premium escocesa criada com uma proposta bastante específica: harmonizar com whisky. O nome vem do gaélico escocês, uisge significa “água” e deu origem, inclusive, à palavra whisky, derivada da expressão uisge beatha, ou “água da vida”.
A marca ficou conhecida por vender águas de diferentes regiões da Escócia, cada uma pensada para acompanhar determinados estilos de whisky sem alterar suas características. A lógica por trás do produto é que a composição mineral da água influencia diretamente a percepção de sabor da bebida quando adicionada ao copo.
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