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VIDA FINANCEIRA

Crédito não é o vilão: problema está no uso errado e na falta de informação, diz CEO da CloQ

Em entrevista ao Seu Dinheiro, a executiva Rafaela Cavalcanti afirma que não existe crédito “bom” ou “ruim” sem considerar renda, objetivo e capacidade de pagamento

Rafaela Cavalcanti, CEO da CloQ
Rafaela Cavalcanti, CEO da CloQ - Imagem: Divulgação/Tijmen Hobbel

O crédito virou sinônimo de preocupação para boa parte dos brasileiros considerando o alto nível de endividamento da população. Mas, para especialistas do setor, o problema pode estar menos no acesso ao dinheiro emprestado e mais na forma como ele é oferecido e utilizado.

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Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram que cerca de 80,9% das famílias brasileiras têm dívidas atualmente. O cartão de crédito lidera com folga, responsável por aproximadamente 85% dos casos.

Ainda assim, para Rafaela Cavalcanti, CEO e cofundadora da fintech CloQ — que oferece empréstimos de baixo valor a negativados —, isso não significa que o crédito seja o principal inimigo da saúde financeira.

“O crédito, quando utilizado de forma planejada e alinhada à realidade financeira do consumidor, pode ser uma ferramenta importante de organização e até de construção de histórico financeiro. A inadimplência está muito mais relacionada ao uso descontrolado e à falta de informação do que ao crédito em si”, afirmou em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.

A executiva diz que um dos principais erros cometidos pelos consumidores é contratar crédito apostando em uma melhora futura da renda.

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“De nada adianta encontrar o crédito ‘perfeito’ se as parcelas vão estrangular o orçamento. O crédito precisa caber no hoje, não no amanhã que a gente espera que aconteça”, disse.

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Segundo Cavalcanti, muita gente avalia apenas se a nova parcela “cabe no bolso”, sem considerar o quanto da renda já está comprometida com outras despesas fixas.

Fintechs avançam e mudam análise de crédito

Ao mesmo tempo em que o endividamento cresce, o mercado de crédito também passa por uma transformação puxada pelas fintechs.

Levantamento da PwC Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) mostra que o volume concedido por fintechs de crédito atingiu R$ 35,5 bilhões em 2024.

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Essas empresas vêm tentando reduzir um problema histórico do setor: liberar crédito acima da capacidade de pagamento do consumidor. A estratégia é utilizar modelos mais digitais e realizar análises baseadas em inteligência artificial (IA) e dados alternativos, como movimentação bancária e histórico de contas pagas.

Para Rafaela Cavalcanti, o desafio do mercado não é apenas ampliar o acesso ao crédito, mas garantir que ele seja sustentável ao longo do tempo.

“É fundamental oferecer ferramentas, informação e limites adequados para que o consumidor consiga usar o recurso a seu favor, sem comprometer sua saúde financeira”, afirmou.

O “crédito certo” depende do objetivo

Na avaliação da CEO da CloQ, não existe um tipo de crédito universalmente melhor. A escolha depende do objetivo da contratação e da situação financeira de cada pessoa.

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Ela cita, por exemplo, que tomar empréstimo para quitar uma dívida mais cara pode fazer sentido, enquanto usar crédito para investir exige mais cautela.

“Pegar crédito para investir é uma aposta que exige muita clareza, porque você precisa ter quase certeza de que o retorno vai superar o custo do dinheiro emprestado”, afirmou.

Outro erro comum, segundo a executiva, é usar linhas de crédito incompatíveis com o objetivo final, como contratar uma dívida longa para resolver um problema pontual ou recorrer a prazos curtos para financiar investimentos de longo prazo.

Parcelamento sem juros ainda é o favorito

Quando o assunto é consumo, como a compra de eletrodomésticos ou celulares, Rafaela Cavalcanti considera que o parcelamento sem juros no cartão ainda é uma das alternativas mais vantajosas para o brasileiro, desde que a fatura seja paga integralmente.

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“O problema é quando o consumidor entra no rotativo do cartão. Essa é a linha de crédito mais cara do país”, disse.

Ela também alerta para o parcelamento oferecido diretamente por varejistas, que muitas vezes embute juros no preço final do produto mesmo quando anunciado como “0%”.

Nano-crédito ganha espaço entre baixa renda

Uma das apostas da CloQ é o nano-crédito, modalidade voltada para empréstimos de até R$ 500 e prazos que variam de 2 a 5 meses. A ideia é que o produto seja uma porta de entrada para o sistema financeiro.

Segundo Rafaela Cavalcanti, o modelo pode funcionar bem em situações emergenciais mais simples, como despesas inesperadas com farmácia, pequenos reparos ou gastos antes do recebimento do salário.

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“O nano-crédito faz sentido quando o valor do imprevisto é baixo, o prazo de resolução é curto e a pessoa tem clareza de que consegue pagar em pouco tempo”, disse. “Tomar um valor que você já consegue pagar, quitar dentro do prazo e repetir esse ciclo algumas vezes ajuda a construir confiabilidade.”

A executiva pondera, porém, que o recurso não deve virar hábito para cobrir déficits recorrentes no orçamento.

“Quando o nano-crédito vira uma solução permanente para tapar buracos, o problema deixa de ser a emergência e passa a ser o orçamento em si”, pontuou.

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