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Estratégias mais sofisticadas com fundos de índices podem pagar dividendos gordos; veja quais estão disponíveis no mercado e conheça os riscos

Ativos que geram renda extra costumam brilhar aos olhos dos investidores. Afinal, são uma forma de usar o patrimônio alocado para ter valores pingando recorrentemente na conta para usar como preferir: seja para reinvestir, pagar uma conta de casa ou comprar algo pessoal.
Os investimentos mais conhecidos que costumam ser usados para esse objetivo são os fundos imobiliários — que distribuem rendimentos aos cotistas, muitas vezes derivados dos aluguéis dos imóveis da carteira — e as ações pagadoras de dividendos, que dão parte do lucro aos acionistas.
Porém, outro tipo de ativo que tem caído nas graças do mercado e oferece a possibilidade de receber renda extra são os Exchange Traded Funds (ETFs), fundos de investimento listados em bolsa atrelados a índices do mercado.
Os ETFs podem replicar o desempenho de índices de ações, fundos imobiliários, commodities, moedas, criptomoedas ou renda fixa.
Devido a vantagens como praticidade, ausência de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e come-cotas — cobrança semestral de Imposto de Renda feita nos fundos de investimento tradicionais —, transparência, baixo custo e alta liquidez, os ETFs têm conquistado investidores de forma acelerada, principalmente nos últimos dois anos.
Para se ter ideia, o valor investido nos fundos de índice dobrou nos últimos 12 meses e já alcança um patrimônio líquido de quase R$ 130 bilhões.
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Outro diferencial dos ETFs é a possibilidade de pagar proventos. Em janeiro de 2023, esses fundos foram autorizados pela B3 e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a distribuir rendimentos aos cotistas, não sendo mais obrigados a reinvesti-los na própria carteira.
A partir de então, surgiram dezenas de fundos de índice com pagamento de dividendos — geralmente mensal ou trimestral — com estratégias em diferentes classes de ativos, como:
Com a mudança nas regras dos ETFs, cada gestora pode estabelecer se vai reinvestir os proventos dentro da carteira ou distribuí-los para os cotistas.
Andrés Kicuchi, CEO da Nu Asset, defende que não existe uma estratégia melhor e outra pior.
O executivo recomenda os fundos de índice que pagam proventos para quem está na fase de usufruto do patrimônio, enquanto as carteiras que reinvestem os ganhos são voltadas para quem está na etapa de acúmulo de capital.
Não é coincidência que muitas gestoras possuam ETFs que são “irmãos gêmeos bivitelinos”: dois fundos de índice com carteiras iguais, mas um reinveste os retornos no próprio portfólio e outro o distribui aos investidores.
O NSDV11, da Nu Asset, seleciona 25% dos ativos com maior dividend yield que compõem o Ibovespa e reinveste os proventos. Já o NDIV11 segue o mesmo índice, o Ibovespa Smart Dividendos, e distribui os rendimentos aos investidores todos os meses.
A Investo também tem ETFs que possuem carteiras idênticas para estratégias diferentes envolvendo proventos.
Os fundos BTER11 e BEST11 seguem o índice MarketVector Brazil BESST Quality Index, que seleciona ações de alta qualidade e de setores normalmente atrelados à geração de proventos: bancos, energia, saneamento, seguros e telecomunicações.
A única diferença é que o primeiro reinveste os ganhos e o segundo possui distribuições mensais.
A mesma coisa acontece com a Itaú Asset: o DIVO11 segue o IDIV, principal índice de dividendos da B3, e realoca os retornos nas ações da carteira, enquanto o DIVD11 paga os valores aos investidores.
A taxa de administração cobrada no caso de todos esses fundos citados é 0,50% por ano.
O funcionamento dos ETFs de ações pagadoras de dividendos é mais intuitivo por se assemelhar à negociação comum dos papéis na bolsa, mas essa não é a única classe que gera renda extra dentro dos fundos de índice.
Há uma certa dose de criatividade nesse tipo de ativo, o que abre o leque para diferentes estratégias envolvendo o pagamento de proventos — inclusive na renda fixa.
A Investo, por exemplo, tem o NTNF11, que possui uma carteira de títulos do Tesouro Direto prefixado com pagamento de cupons semestrais, lançado em julho deste ano, com taxa de administração de 0,35% ao ano.
Segundo Cauê Mançanares, CEO da gestora, o ativo foi criado para se juntar ao ETF de ações de dividendos, o BEST11, para investidores que querem ter toda uma carteira voltada para a renda extra.
Porém, outros ETFs de renda fixa têm estratégias que permitem o pagamento mensal. É o caso do AREA11, da BTG Pactual Asset, em parceria com a consultoria financeira AUVP Capital.
O fundo de índice tem taxa de administração de 0,30% ao ano e investe em ativos do Tesouro IPCA+, títulos públicos atrelados à inflação, que pagam cupons semestrais.
Se o investidor comprasse os títulos diretamente pela plataforma do Tesouro Direto, receberia esses proventos somente duas vezes ao ano. Porém, a proposta do ETF é reorganizar os pagamentos semestrais, de modo que haja renda extra todos os meses.
“O objetivo quando pensamos nesse ETF era substituir o aluguel como método de aposentadoria. O Tesouro IPCA+ oferece mais ou menos a mesma rentabilidade do aluguel de uma casa. Tanto é que o AERA11 é um ETF voltado para um público mais velho”, diz Raul Sena, fundador da AUVP Capital e conhecido na internet como Investidor Sardinha.
A gestora que possui mais ETFs com distribuição de dividendos é a Buena Vista. São mais de 10 fundos de índice com essa estratégia, inclusive o maior do mercado em termos de número de cotistas e patrimônio líquido: o COIN11.
Trata-se de um ETF de bitcoin com proventos mensais, que possui quase 30 mil investidores e R$ 349,8 milhões em aportes.
Outros fundos de índice da gestora que pagam dividendos mensais e têm dezenas de milhares de investidores são:
Porém, há também outras estratégias de investimento: fundos imobiliários norte-americanos, ouro, small caps (ações com baixo valor de mercado) dos Estados Unidos e a criptomoeda ethereum, por exemplo.
O CEO e fundador da gestora, Renato Nobile, explica que o foco da Buena Vista é criar ETFs “satélites”, fora do tradicional do mercado, para não competir com outras instituições financeiras gigantes, e que complementem as carteiras dos investidores.
O diferencial dos ativos criados por essa gestora, segundo o CEO, é o pagamento de dividendos sintéticos — gerados por meio da negociação de opções. Trata-se de uma estratégia mais complexa do que o investimento direto nos ativos, e os proventos são, na verdade, o prêmio dessas operações.
É por isso que a Buena Vista consegue entregar proventos mensais com produtos que normalmente não geram dividendos: criptomoedas e ouro, por exemplo.
Além disso, o objetivo é que a renda extra seja maior do que o investimento direto nesses ativos. O S&P 500 normalmente gera dividendos baixos, como 1,5% ao ano. Já o ETF SPYI11 tem a meta de entregar um dividend yield de 12% ao ano.
Cabe destacar que esses ativos que envolvem operações com opções são mais arriscados. Ainda assim, Nobile defende que há o respaldo de uma gestora com experiência nesse tipo de negociação, o que possibilita que o investidor tenha acesso a oportunidades com maior potencial lucrativo sem precisar tomar as decisões sozinho.
Na visão dele, quem quiser investir nesse tipo de ativo pode começar com o SPYI11, que ele considera um “feijão com arroz” que pode pagar 1% ao mês e, em seguida, se expor ao QQQI11, que tem expectativa de entregar em torno de 1,2% ao mês.
Apesar de proventos maiores, devido à complexidade desses ativos, a taxa de administração cobrada nos ETFs da Buena Vista também é maior e, em alguns casos, passa de 1% ao ano.
Existem diferentes estratégias de ETFs que envolvem o pagamento de dividendos. Mas afinal, quais são as vantagens de buscar proventos por meio desses produtos?
Segundo Kikuchi, da Nu Asset, a principal vantagem dos fundos de índice geradores de renda extra em relação à alocação direta em ações pagadoras de dividendos é a organização.
“Quem investe em ações pagadoras de dividendos recebe os pagamentos em datas diferentes. Às vezes também uma empresa é negociada ex-dividendos em um mês e os valores só são distribuídos um ano depois. O ETF reúne esses proventos e paga para o cotista de uma vez só em um dia do mês”, diz o gestor da Nu Asset.
Essa mesma visão de facilidade operacional é compartilhada pelos demais gestores em outras classes de ativos.
O próprio funcionamento do fundo rebalanceia a carteira automaticamente. Isso gera duas vantagens para o investidor: não é necessário se preocupar em escolher os ativos, nem pagar pelo rebalanceamento.
Ao vender os ativos “puros” — seja qual for a classe —, no caso de quem investe individualmente, é preciso pagar impostos sobre o ganho de capital no período. Já nos ETFs, esse processo é realizado internamente e é totalmente isento.
O investidor só precisa pagar Imposto de Renda no momento da venda da cota, que é de 15% para qualquer ETF de renda variável e, na renda fixa, pode ser entre 15% e 25% (veja detalhes nesta matéria).
Em relação ao valor de aporte inicial, os preços das cotas de ETFs costumam ser menores do que o investimento direto em um portfólio pagador de dividendos — por exemplo, para comprar cada ação pagadora de proventos individualmente. Assim, é possível comprar uma carteira bem diversificada com um investimento inicial muito menor.
É possível encontrar ETFs de renda extra com cotas a partir de R$ 38,78, como é o caso do COIN11, da Buena Vista. Outro exemplo de cotação baixa é o DIVD11, da Itaú Asset, que permite comprar uma carteira de ações pagadoras de proventos a partir de R$ 58,56.
Apesar das vantagens que têm levado ao crescimento acelerado dessa indústria, os ETFs pagadores de dividendos também têm pontos negativos.
Um dos principais fatores que jogam contra esse tipo de investimento é que todos os proventos são tributados em 15%, independentemente do tipo de ativo que componha a carteira do ETF.
Enquanto isso, rendimentos pagos por fundos imobiliários são isentos de imposto de renda.
Já no caso dos dividendos pagos por ações, há isenção para rendimentos no valor de até R$ 50 mil por mês provenientes de uma mesma empresa e desde que a pessoa física não tenha rendimentos superiores a R$ 600 mil por ano, que é o caso da maioria dos pequenos investidores.
Também não existe a isenção de IR para ganhos com a venda de cotas de ETFs em operações comuns sempre que as vendas no mercado à vista ficarem abaixo de R$ 20 mil no mês, como acontece com as ações.
Nem a isenção para bens de pequeno valor quando as vendas no mês não ultrapassam os R$ 35 mil, como ocorre com a venda de criptoativos.
Além disso, há os riscos dos próprios ativos. Os mercados de ações, criptomoedas e até renda fixa possuem oscilações e, portanto, a escolha dos fundos de índice também deve respeitar a tolerância a risco de cada investidor.
Ainda assim, os gestores que oferecem esse tipo de fundo defendem que, mesmo com essas ressalvas, é um investimento que vale a pena, principalmente quando comparado aos fundos tradicionais.
“É um veículo de investimento muito mais evoluído [do que os fundos tradicionais]. O ETF é como participar de uma corrida com um carro de Fórmula 1. Os fundos são como um ‘fusquinha’, não conseguem acompanhar”, afirma Nobile, da Buena Vista.
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