Sozinha, a Farm Rio deve valer mais que a própria dona Azzas 2154 — e sua venda pode ditar rumos de AZZA3 em meio à guerra de sócios
Bancos veem potencial de destravamento de valor na principal marca da Azzas, que pode atrair compradores estratégicos e redefinir a tese de investimento de AZZA3

Em um caso que lembra o velho ditado de que o aluno pode superar o mestre, a Azzas 2154 (AZZA3) movimentou o mercado na última sexta-feira (19) ao anunciar que avalia alternativas estratégicas para a Farm Rio. A marca, que faz parte do extenso portfólio do grupo e se tornou seu principal motor de crescimento, pode valer sozinha mais do que toda a companhia na bolsa, segundo estimativas do JP Morgan.
Na avaliação do banco,o valor gira entre R$ 4,4 bilhões e R$ 5,5 bilhões. A conta considera cerca de R$ 3,7 bilhões em vendas brutas projetadas para 2026, com margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 18% e múltiplo EV/Ebitda entre 8 e 10 vezes.
Esses dois últimos indicadores medem, respectivamente, a parcela da receita que a empresa consegue transformar em geração operacional de caixa e quanto o mercado está disposto a pagar por essa geração de resultados.
Com isso, as ações da Azzas disparam nesta segunda-feira (22), com alta de quase 9% por volta das 10h35, negociadas a R$ 19,10.
Farm Rio e Azzas: a criatura pode valer mais que o 'criador'
"Caso essa estimativa se confirme, a Farm Rio sozinha valeria mais de 120% do valor de mercado atual da Azzas, que gira em torno de R$ 3,6 bilhões e vem sendo pressionado por questões de governança e execução", escrevem os analistas do JP Morgan em relatório.
De acordo com o banco, a marca opera de forma relativamente independente dentro do grupo, sob liderança de seus fundadores, Kátia Barros e Marcello Bastos. Segundo estimativas, a dupla detêm cerca de 3% a 4% da Azzas. Os analistas avaliam que ambos podem estar dispostos a deixar o grupo em meio aos problemas mais amplos de governança.
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Por outro lado, o time de análise argumenta que a Farm Rio ainda apresenta concentração relativamente elevada em categorias de produtos e mercados geográficos. O Brasil responde por cerca de 60% das vendas totais e a companhia ainda não foi testada ao longo de múltiplos ciclos de consumo e de moda, como ocorre com grandes grupos globais.
Por isso, o JPMorgan acredita que investidores tendem a precificar a empresa mais próxima de companhias de vestuário de alta qualidade do que de conglomerados globais de luxo, apesar do crescimento superior.
Já na visão do BTG Pactual, a Farm tem sido uma das poucas marcas capazes de entregar crescimento consistente de dois dígitos ao mesmo tempo em que preserva seu posicionamento premium e uma rentabilidade saudável.
"O contraste com outros segmentos do grupo tem se tornado cada vez mais evidente. Enquanto categorias como calçados, básicos e algumas operações mais maduras de vestuário enfrentaram um ambiente de consumo mais desafiador, ajustes de estoques e demanda mais fraca, a Farm continuou se beneficiando da força da marca e de sua crescente relevância internacional", escrevem os analistas do banco.
Para a XP, a operação combina fortes perspectivas de crescimento, valor de marca distintivo e rentabilidade sólida, o que deve atrair interesse de players estratégicos e financeiros.
O principal ponto de atenção, na visão da corretora, é o preço que um eventual comprador estaria disposto a pagar pela Farm Rio. Os analistas estimam que a marca possa valer entre US$ 360 milhões e US$ 900 milhões, algo entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões — uma diferença suficiente para alterar significativamente a percepção de valor da Azzas.
Os próximos capítulos devem ditar os rumos de AZZA3 na bolsa
Para XP e JP Morgan as ações da companhia passarão a reagir cada vez mais a rumores sobre interessados e às discussões em torno do valuation do negócio, em dinâmica semelhante à observada durante o processo de venda da Aesop pela Natura.
A discussão surge em meio a um cenário de governança cada vez mais complexo envolvendo os acionistas controladores da companhia, além de um momento em que investidores continuam questionando se os benefícios da criação de um conglomerado multimarcas de moda foram plenamente capturados.
"O anúncio sugere que algum movimento estratégico envolvendo a marca pode ocorrer antes mesmo de uma resolução da disputa societária entre os acionistas controladores", diz o relatório do JP Morgan.
Hoje, uma solução para o impasse poderia resultar em uma divisão da empresa em dois negócios distintos: de um lado, as operações de calçados e marcas básicas e franquias; de outro, o segmento de vestuário feminino. Nesse cenário, a marca Reserva surge como uma das principais incógnitas.
O que fazer com as ações?
Mesmo com o potencial destravamento de valor, o JP Morgan mantém uma recomendação neutra para o papel que negocia a 4,7 vezes o lucro estimado para 2026 e 3,8 vezes para 2027.
Já a o BTG Pactual e a XP recomendam a compra dos papéis, ambos com preço-alvo em R$ 40, o que representa um potencial de quase 130% de alta.
TESOURA AFIADA
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