O novo motor de crescimento da Vale (VALE3): por que a aposta em metais de transição é tão importante para a mineradora?
Com cobre e níquel no centro da estratégia, a empresa busca reduzir a dependência do minério de ferro e da construção chinesa enquanto avança sobre a demanda criada pela transição energética e pela inteligência artificial

Durante décadas, falar sobre a Vale (VALE3) foi praticamente sinônimo de falar sobre minério de ferro — e, por consequência, sobre China. Mas a relação que trouxe tanta prosperidade para a empresa também deixou uma herança incômoda: a concentração excessiva em um único produto e em um mercado chinês cujo crescimento já não inspira a mesma confiança de antes.
O minério de ferro permanece como a principal fonte de receitas e geração de caixa da Vale, enquanto a China continua sendo o maior destino do produto.
No entanto, o principal cliente da mineradora enfrenta uma prolongada crise imobiliária e passa por uma transição para um modelo menos dependente de construção civil e infraestrutura pesada, justamente os setores que mais consomem aço.
Para os investidores, isso alimenta uma dúvida estrutural sobre o ritmo da demanda por minério de ferro nas próximas décadas e coloca uma nuvem sobe a tese de investimentos em Vale, apesar da pujança dos resultados recentes da companhia.
É nesse ponto que entra a Vale Base Metals (VBM), que reúne os negócios de cobre, níquel e outros metais considerados estratégicos para a transição energética. Criada em 2023, a empresa passou a ocupar o centro dos planos de crescimento da Vale.
A expectativa é elevar a produção de cobre das 382 mil toneladas registradas em 2025 para aproximadamente 700 mil toneladas por ano até 2035, apoiada por seis projetos de expansão e por melhorias nos ativos já existentes.
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Por trás dessa ofensiva, está uma tentativa de redesenhar o equilíbrio dos negócios da Vale. Ao ampliar a presença nos metais de transição, a mineradora busca reduzir o peso do minério de ferro em seus resultados e, ao mesmo tempo, diluir a exposição à demanda chinesa no segmento de construção civil.
O novo motor da Vale
Isso não significa abandonar o produto que transformou a Vale em uma potência global, nem abrir mão de seu principal mercado. Pelo contrário: é justamente porque a mineradora ainda fatura muito com minério de ferro que ela é capaz de financiar essa segunda plataforma de crescimento.
A aposta da Vale está voltada para mercados que devem concentrar uma parcela crescente dos investimentos globais nos próximos anos, da transição energética à expansão da infraestrutura digital para comportar o avanço da inteligência artificial (IA).
“A Vale Base Metals não existiria se não fosse a Vale do minério de ferro, porque uma precisa do dinheiro que a outra gera para investir”, afirma Ruy Hungria, analista da Empiricus Research.
Na avaliação do analista, o ramo de metais de transição deve crescer para algo próximo de 30% dos resultados da Vale. O ganho seria relevante o bastante para reduzir a concentração da mineradora em uma única commodity, mas não para provocar uma inversão completa de seu perfil.
A participação de cada divisão nos negócios da Vale também dependerá dos preços das commodities. “Pode ser que o mercado de minério de ferro vá para o buraco e, organicamente, a VBM ganhe proporção mesmo sem crescer tanto. Em contrapartida, se o minério for para US$ 120 ou US$ 130, essa parcela continuará grande”, afirma Hungria.
Isso significa que a Vale Base Metals pode ganhar espaço dentro do grupo por dois caminhos: pelo próprio crescimento, com o avanço da produção e da rentabilidade, ou pela perda de peso relativo do minério de ferro.
Rodrigo Glatt, sócio cofundador da GTI Administração de Recursos, também não espera que os metais básicos ultrapassem metade do negócio.
Para ele, a estratégia é construir uma fonte adicional de crescimento e diversificar a exposição da Vale, sem retirar do minério de ferro o papel de principal motor financeiro da companhia.
Se não China, quem?
Para além de diversificar o produto, a Vale também precisa ampliar a clientela. O foco é reduzir a dependência da China. Em 2025, a segunda maior economia do mundo respondeu por 51% da receita da Vale, uma proporção praticamente igual à registrada no ano anterior.
A concentração é ainda maior no minério de ferro: das 314,4 milhões de toneladas de finos, pelotas e minério bruto vendidas pela companhia naquele ano, 198,2 milhões tiveram o mercado chinês como destino — o equivalente a cerca de 63% do total.

No entanto, mesmo que a VBM ganhe protagonismo com o avanço da IA e outras frentes que demandam metais de transição, o gigante asiático ainda seria um dos compradores mais relevantes para a mineradora.
Não dá para esquecer que o país é um dos maiores consumidores mundiais de cobre e níquel, além de concentrar uma grande parcela da fabricação de veículos elétricos, baterias, painéis solares e equipamentos para redes de energia.
Inclusive, há quem diga que a China está vencendo até os Estados Unidos quando o assunto é inteligência artificial, embora isso seja difícil de determinar.
Por isso, a diversificação promovida pela Vale Base Metals não significa, necessariamente, retirar a China do mapa — ou sequer reduzir tão fortemente a dependência do país em si, mas sim deixar de se relacionar só com uma engrenagem da economia do país: a construção civil.
É claro que o negócio também deve atrair uma nova base de clientes, algo que já está no radar dos analistas que participaram desta reportagem. Com os metais básicos, a Vale passa a se expor a um conjunto mais amplo de compradores, setores e regiões.
“A produção de cobre provavelmente está visualizando o aumento dos data centers e da demanda de energia. Na China também existe essa demanda, mas ela virá principalmente dos Estados Unidos, que serão grandes investidores nesse setor”, afirma Glatt, sócio da GTI Administração de Recursos.
Assim, até mesmo as gigantes de tecnologia — ou as companhias que estão envolvidas nessa cadeia — podem emergir como clientes relevantes para a Vale. Entre a mina e um data center, o metal passa por fundições, refinarias e fabricantes de fios, cabos, transformadores e equipamentos elétricos.
Ou seja, os potenciais compradores da mineradora incluem empresas responsáveis pelas primeiras etapas dessa cadeia, que atendem concessionárias de energia, fabricantes de equipamentos, montadoras e companhias de tecnologia.
Cabe lembrar que os investimentos das big techs em infraestrutura digital começaram a rivalizar com os maiores projetos da engenharia moderna, financiados por governos. Gigantes como Microsoft, Alphabet, Meta e Amazon projetaram despesas de capital (capex) combinadas superiores a US$ 700 bilhões, montante que equivale a mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
Segundo uma reportagem do Wall Street Journal, o volume de recursos destinado à expansão da infraestrutura de inteligência artificial já supera, em proporção da economia norte-americana, iniciativas históricas como o programa Apollo, que levou o homem à Lua, e a construção do sistema interestadual de rodovias dos Estados Unidos.
Desta vez, no entanto, o dinheiro vem majoritariamente da inciativa privada.
Os mercados nos quais a Vale pode avançar
Além dos citados, a lista de mercados potenciais é extensa. Nos Estados Unidos, a construção de data centers, a modernização da rede elétrica e os investimentos na produção local de equipamentos aumentam a necessidade de cobre.
Na Europa, a expansão das energias renováveis, a eletrificação da indústria e a busca por cadeias de suprimento menos concentradas abrem espaço para fornecedores de minerais críticos.
Japão e Coreia do Sul, por sua vez, possuem indústrias relevantes de automóveis, baterias e eletrônicos, enquanto Índia, Sudeste Asiático e Oriente Médio ampliam os investimentos em infraestrutura, energia e industrialização.
A história não começou com a Vale Base Metals
A tentativa de diversificação é anterior à criação da VBM. Em 2006, a Vale comprou a canadense Inco, na maior aquisição já realizada por uma empresa brasileira à época, e ganhou posições relevantes em níquel, cobre, cobalto e metais preciosos.
O negócio transformou a companhia em uma das maiores produtoras globais de níquel, mas os ativos enfrentaram, durante anos, custos elevados, baixa produtividade, interrupções e dificuldades para entregar o retorno esperado.
A virada societária começou a ganhar forma em 2023, quando os metais de transição se tornaram protagonistas globais. O cobre virou peça central dessa corrida, uma vez que é essencial para praticamente qualquer tecnologia que dependa do uso intensivo de eletricidade.
A mineradora então criou a VBM como holding da unidade de negócios que, até então, aparecia nos balanços sob o nome de Metais para Transição Energética.
A nova empresa nasceu com estrutura separada e conselho de administração próprio, em uma reorganização destinada a dar mais autonomia à operação, atrair parceiros e evidenciar o valor de ativos até então ofuscados pelo peso do minério de ferro nas contas consolidadas da Vale.

Depois disso, a saudita Manara Minerals fechou um investimento de US$ 2,5 bilhões por uma participação de 10% na VBM. A transação atribuiu ao negócio um enterprise value — valor que considera capital e dívida — de aproximadamente US$ 26 bilhões.
Além de levantar recursos, a venda de uma fatia minoritária estabeleceu uma referência de valor para o mercado e alimentou especulações sobre uma possível abertura de capital da VBM.
“Para destravar valor, a Vale vendeu uma participação na unidade. Desde então, os preços desses minerais continuaram subindo e, como acionistas, chegamos a considerar a possibilidade de a companhia realizar um IPO do negócio. Não me parece que essa discussão esteja quente hoje”, afirma Glatt, da GTI Administração de Recursos. A gestora tem participação minoritária na Vale.
Naquele momento, entretanto, a VBM ainda precisava provar que conseguiria transformar o valor indicado pela transação em produção, lucro e geração de caixa. Os resultados iniciais deixaram dúvidas.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado do segmento caiu de US$ 1,96 bilhão em 2023 para US$ 1,45 bilhão em 2024. O maior problema estava no níquel, que viu o Ebitda cair quase 90%, pressionado pela queda dos preços, pela redução das vendas e questões contábeis.
O cobre, porém, seguiu na direção oposta. O Ebitda do metal cresceu de US$ 1,1 bilhão em 2023 para US$ 1,52 bilhão em 2024, impulsionado principalmente pelo avanço de Salobo, no Pará.
Foi o primeiro sinal mais claro de que, dentro da própria Vale Base Metals, o cobre assumiria o protagonismo.
“Até três anos atrás, a VBM entregava um resultado muito ruim, com uma série de questões operacionais. Agora ela está melhorando. A companhia reduziu o guidance de custos, aumentou volumes e começou a mostrar eficiência”, diz Hungria.
O segmento de metais de transição enfrentava dificuldades para manter as operações estáveis e elevar a produtividade, especialmente no negócio de níquel. Manutenções, atrasos na expansão de minas e volumes abaixo da capacidade pressionavam os custos e reduziam a rentabilidade.
Nos últimos anos, a Vale aumentou a produção, melhorou o desempenho dos ativos e passou a distribuir os custos fixos por um volume maior de metal.

Além do cobre e do níquel
Embora cobre e níquel concentrem a estratégia da Vale Base Metals, a mineradora também começou a olhar para novas possibilidades de diversificação, como o lítio e as terras raras, conjunto de elementos essencial ao desenvolvimento de infraestrutura de IA.
O interesse, contudo, ainda não representa uma decisão de investimento: a companhia avalia se existem projetos capazes de oferecer retorno suficiente para justificar a entrada nesse mercado.
“A Vale está sinalizando que enxerga preços para o lítio que poderiam justificar investimentos. e encontrar condições adequadas nas minas, na logística e uma demanda mais forte, pode avançar”, afirma Glatt, sócio cofundador da GTI Administração de Recursos.
Ele conta que, na mineração, a existência de uma reserva não garante, por si só, a viabilidade de um projeto. É preciso considerar a qualidade e o tamanho da jazida, a complexidade para separar e processar os minerais, a infraestrutura disponível e o custo necessário para levar o produto até os compradores.
“Geralmente, quando você faz mineração, encontra vários metais. Mas a demanda de cada um é muito diferente e nem sempre é possível viabilizar projetos com taxas de retorno atrativas em determinada região”, diz Glatt.
Por isso, o lítio ainda aparece mais como uma possibilidade do que como uma nova frente consolidada da VBM.
“É difícil cravar que isso vai acontecer, mas, nos preços e na demanda que a companhia enxerga, ela faria mais projetos de lítio”, acrescenta.
Por enquanto, a prioridade permanece no cobre, que reúne projetos mais avançados e ocupa o centro dos planos de crescimento da Vale para a próxima década.
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