Economia no azul, brasileiro no vermelho: por que os dados não batem com o bolso da população?
No Touros e Ursos desta semana, André Loes, economista-chefe da Vivest, fala sobre porque essa conta não fecha e o peso desse descolamento nas eleições de 2026
No papel, a economia brasileira parece caminhar bem: taxa de crescimento acima das expectativas, desemprego baixo e uma inflação controlada para os nossos padrões. Na prática, no entanto, a percepção da população parece ir na direção oposta: o endividamento é recorde e o dinheiro é curto para pagar o básico.
No podcast Touros e Ursos, o economista-chefe da Vivest, André Loes, fala sobre essa distância entre os dados e o bolso dos brasileiros. Para ele, o que mais pesa na percepção da população atualmente é a inflação.
Embora a alta dos preços tenha arrefecidos nos últimos meses, a elevação de preços registrada anos atrás não regrediu. O contrário: os preços estabilizaram em patamares bastante elevados após os choques vividos na pandemia de Covid-19, e agravados com a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Segundo Loes, o conceito-chave para entender o mau humor nacional é a capacidade real de compra das famílias.
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"Está acontecendo em vários lugares do mundo e no Brasil também, que é: a renda sobe, mas como o nível de preço estabilizou no alto para coisas muito relevantes, como a comida, a percepção é de que está tudo caro. É algo que as pessoas comentam no dia a dia”, disse Loes.
Para ele, a situação piora diante do endividamento da população, que chegou a 80% das famílias do país. “Embora a inadimplência não tenha aumentado, o endividamento está na máxima histórica.”
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Se o brasileiro já sente que "está tudo caro", o cenário geopolítico recente adicionou uma pitada extra de pimenta nessa equação.
O ataque ao Irã e a escalada de tensões no Oriente Médio mudaram completamente o otimismo que existia no início do ano sobre uma queda robusta da taxa de juros. Loes observa que o petróleo, agora flutuando entre US$ 90 e US$ 100, aumenta o risco inflacionário e força o Banco Central a ser mais cauteloso.
A consequência prática é que, na próxima reunião de política monetária, a aposta de um corte de juros substancial deu lugar a uma provável redução de apenas 0,25 ponto percentual.
Esse movimento é um balde de água fria para quem esperava um alívio rápido no custo das dívidas, especialmente porque as expectativas de inflação para 2026 já voltaram a subir, superando o teto da meta.
Embora o foco atual seja o consumo da população e os juros, o economista não deixou de apontar a questão fiscal do país como algo estrutural, que precisa ser tratado como prioridade do governo.
“É um problema que se manifesta em todos os governos no Brasil pós estabilização da inflação. É um regime de taxar mais para gastar mais. É o jeito que o Brasil trabalha desde o final dos anos 1990, e isso ficou um pouco mais forte ao longo dos anos 2000”, afirmou Loes.
Para ele, enquanto não resolver o gasto público, a inflação e os juros continuarão sendo um problema recorrente do país.
Touros e Ursos da semana
Para fechar a conversa, o podcast traz o quadro que dá nome ao programa: os Touros e Ursos. Nesta semana, os Ursos (destaques negativos) foram a Oncoclínicas, que enfrenta uma situação financeira frágil e o cancelamento de um acordo com Fleury e Porto Seguro; e as expectativas de inflação, que subiram para 4,71% em 2026, acima do teto da meta de 4,5%.
Já entre os Touros (destaques positivos) brilharam o Ibovespa, que flerta com a marca histórica dos 200 mil pontos; e o câmbio, pela resiliência do real frente ao cenário externo, com o dólar caindo abaixo de R$ 5, um patamar que não era visto há dois anos.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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