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BTG SUMMIT

Crescimento da economia brasileira não é o que parece: “cuidado com esses números”, alerta Mansueto Almeida, do BTG

Ao contrário: em um ano de juros muito altos, avanço machuca bastante o varejo e a indústria de transformação, disse economista-chefe do BTG.

Mansueto Almeida, Secretário do Tesouro Nacional
Imagem: Raul Junior/BTG

A economia brasileira não entrou em parafuso nos últimos anos. Pelo contrário: tem crescido, ano após ano, acima das expectativas do mercado. Em 2023, por exemplo, o PIB avançou 3,2%, acima da projeção de 2,9%. Em 2024, parte do mercado chegou a estimar expansão de 1,5%, mas o país surpreendeu novamente, com alta de 3,4%.

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Boas notícias que, na visão de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, podem mascarar um problema estrutural nas contas públicas.

Em evento nesta quarta-feira, ele fez um alerta: é preciso cuidado com esses números.

"Primeiro, o crescimento do Brasil no ano passado foi puxado pela indústria extrativa, como produção e exportação de petróleo, e pela agricultura. Isso é uma boa notícia, porque são setores muito competitivos. Mas não foi resultado de política econômica recente", afirmou no BTG Summit 2026.

Segundo ele, o avanço decorre de fatores estruturais que vêm se consolidando há anos — e não de decisões conjunturais.

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"Ao contrário: em um ano de juros muito altos, isso machuca bastante o varejo e a indústria de transformação", disse.

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Hoje, o Brasil opera com taxa básica de juros em 15%. Mesmo que recue para algo próximo de 12% até o fim do ano, ainda será um patamar elevado. Com inflação em 3,9%, o juro real gira em torno de 8%.

"Isso não é uma situação de equilíbrio", resume.

Por que os juros são tão altos?

Se a inflação está mais comportada, por que os juros continuam altos? Esta é uma pergunta que membros do governo, como o presidente Lula ou vice-presidente Geraldo Alckmin não cansam de fazer. Mas a resposta pode estar no próprio governo: gastos.

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"É fácil responder essa pergunta. Porque o crescimento do gasto público no Brasil é excessivo."

Ele lembra que, nos últimos quatro anos, o gasto federal acumulou crescimento real próximo de 20%. "Isso é muita coisa, especialmente em uma economia com desemprego em queda."

A taxa de desemprego está em 5,1%, praticamente pleno emprego. Ainda assim, o governo segue estimulando a demanda. "E o resultado é mais inflação. A única forma de trazer a inflação para baixo, nesse contexto, é trabalhar com a maior taxa de juros real do mundo."

Bolsa sobe, mas é mérito do Brasil?

A bolsa brasileira acumula forte valorização em dólar neste ano — algo próximo de 25% — e janeiro registrou fluxo estrangeiro recorde de R$ 26,31 bilhões, acima de todo o volume de 2025.

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Para Mansueto, o movimento tem mais relação com o cenário externo do que com fundamentos domésticos.

Ele cita que bolsas como as da Colômbia, Peru e Chile também subiram. "Muito do que aconteceu no Brasil no fim do ano passado e início deste ano é movimento que vem de fora", afirmou o economista.

Segundo ele, parte da rotação foi provocada pelas incertezas em torno da política econômica do presidente dos EUA, Donald Trump.

"Os Estados Unidos são, há anos, o grande absorvedor de liquidez global. Quando surge alguma incerteza, mesmo pequena, há rotação de carteira. E qualquer fração de capital que sai de lá vira muito dinheiro para emergentes."

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Ainda assim, ele alerta: os problemas estruturais brasileiros continuam os mesmos.

Fiscal melhora, mas via imposto

Mansueto reconhece que houve melhora nos números fiscais. Em 2023, o déficit primário foi de 2,4% do PIB (R$ 240 bilhões). Agora, pode terminar próximo de 0,4% do PIB (cerca de R$ 50 bilhões).

Mas isso ocorreu, segundo ele, via aumento de arrecadação. "O governo foi atrás de mais receita. Parte justificável, parte não. Ao mesmo tempo que quer incentivar crédito, aumenta IOF."

O economista lembra que a carga tributária brasileira já gira em torno de 34% do PIB. "Para resolver o problema fiscal, precisamos conter o crescimento da despesa. Não será aumentando impostos que vamos resolver."

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Seja quem for o próximo presidente

Com o cenário eleitoral ainda indefinido, Mansueto diz que a agenda fiscal será inevitável para qualquer governo.

Mais cedo, pesquisa mensal da Atlas/Bloomberg apontou que a diferença entre o presidente e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) caiu ao menor nível no primeiro turno.

"Quem quer que seja o próximo presidente terá que controlar o crescimento do gasto público. Caso contrário, entraremos em um cenário muito mais desafiador."

"Não me venham com essa história de que é impossível fazer ajuste fiscal no Brasil. É possível, desde que haja vontade política. O país não precisa de mais tributos para crescer — e não resolveremos nossos problemas aumentando a carga tributária."

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Ao assumir o governo em maio de 2016, Mansueto conta que adotou uma estratégia de forte ajuste fiscal, ancorada na promessa de conter o avanço das despesas públicas e restaurar a confiança dos investidores.

A principal medida foi a criação de uma regra que limitava o crescimento real do gasto público federal a zero, estabelecida por meio da chamada PEC do Teto. Ao mesmo tempo, houve um aperto no financiamento a estados e municípios.

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