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Escalada no Oriente Médio pressiona insumos, eleva custos do agro e pode marcar início de novo ciclo de commodities, que abre oportunidade de ganhos para quem quer se expor ao segmento
A escalada da guerra entre EUA e Irã já incendiou as cotações de petróleo, e agora flerta com o próximo front: as commodities agrícolas. Com o risco de interrupção em cadeias logísticas e o encarecimento de insumos, o setor surge como a nova fronteira de um rali com contornos estruturais — e o investidor pode estar de cara com a oportunidade de bons retornos.
“Não é só uma ou outra commodity que está subindo, todas estão. A última que falta reagir são as agrícolas”, afirma Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
Na leitura dele, esse movimento não se explica apenas pela guerra no Irã, mas por uma mudança mais estrutural de cenário.
Ele avalia que o mundo pode estar à beira de um novo ciclo de alta das commodities, sustentado por fatores que vão além do curto prazo.
Tradicionalmente, commodities e dólar caminham em direções opostas: a moeda norte-americana mais forte costuma pressionar os preços das matérias-primas — e o inverso também é verdadeiro.
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Spiess aposta em um cenário de enfraquecimento do dólar no horizonte estrutural, o que abriria espaço para uma valorização mais consistente das commodities.
“Episodicamente, o dólar pode se fortalecer, como vimos em março. Mas, estruturalmente, podemos estar perto de um novo ciclo em que o dólar volte para a média histórica”, afirma.
Por trás dessa visão está uma combinação de fatores macroeconômicos. Spiess cita o aumento da dívida dos Estados Unidos, o risco fiscal elevado e um movimento global de diversificação cambial.
Há também uma questão de posicionamento: na leitura dele, o dólar ficou “caro demais” desde a crise de 2008, enquanto commodities ficaram relativamente baratas.
Segundo Spiess, pode haver um movimento de busca estrutural por mais exposição em commodities.
O resultado, segundo o analista, é um ambiente propício para um novo ciclo de alta — com potencial de beneficiar países exportadores, como o Brasil.
O conflito, que já pressiona o petróleo e deve chegar às commodities agrícolas, também atinge um elo menos visível, mas igualmente estratégico: o mercado de fertilizantes, essencial para a produção de alimentos.
Nesta terça-feira (24), a Rússia anunciou a suspensão das exportações de fertilizantes por um mês, priorizando o abastecimento interno.
A medida se soma a um cenário de rotas marítimas alteradas, redução da produção no Golfo Pérsico e dificuldades no escoamento via Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do comércio global desses insumos antes do conflito.
No Brasil, o efeito tende a ser direto: aproximadamente 40% dos fertilizantes usados no agronegócio passam pela região.
E o impacto nos preços já começou. A ureia, por exemplo, acumula alta de cerca de 50% desde o início da guerra, impulsionada também pelo encarecimento do gás natural — insumo essencial para sua produção.
Segundo Spiess, o efeito deve se espalhar rapidamente pela economia real. “Se o fertilizante ficar mais caro, os alimentos vão ficar mais caros. Então, há um medo inflacionário generalizado no Ocidente”, afirma.
Na avaliação dele, esse risco preocupa governos, inclusive nos envolvidos na guerra, como os Estados Unidos.
“Os governantes não querem isso para si, porque inflação acaba gerando impopularidade”, pontua.
Ele relembra que o próprio presidente norte-americano, Donald Trump, que neste ano passa por uma eleição de meio de mandato, deve se preocupar com a possível aceleração da inflação no país.
“Ele não pode se dar ao luxo de ver a popularidade cair ainda mais. Então, tem motivo para que o conflito acabe antes [da eleição]”, afirma Spiess.
As preocupações não se limitam aos preços do petróleo, do fertilizante ou das commodities agrícolas. Segundo Spiess, há um risco estrutural mais grave se o conflito avançar sobre a infraestrutura da região.
“O Irã tem muito petróleo, mas não tem comida nem água em abundância. Grande parte do abastecimento passa pelo Estreito de Ormuz. Se isso for comprometido, você pode ter uma crise alimentar humanitária”, afirma.
Outro ponto crítico são as usinas de dessalinização existentes nas proximidades do Irã, essenciais para o abastecimento de água em diversos países do Oriente Médio.
Segundo Spiess, essas instalações não possuem proteção e um eventual ataque teria consequências imediatas.
“Se você ‘queimar’ essas estações, cidades inteiras, como a capital saudita, serão inviabilizadas”, alerta.
Apesar de, em tese, serem protegidas pelo direito internacional, ele pondera que esse tipo de regra vem perdendo força.
“Temos visto um enfraquecimento do direito internacional. As pessoas estão indo pela lei do mais forte. Então, o Irã, em um movimento de desespero, pode acabar atacando essas instalações”, afirma.
Spiess defende uma estratégia menos exposta à volatilidade direta das commodities e mais ancorada na geração de caixa.
A preferência, segundo o analista, é por empresas do setor, que conseguem capturar os ganhos do ciclo de alta com maior previsibilidade.
“Eu prefiro me expor a isso com fluxo de caixa em petróleo, por meio de ações do setor”, afirma.
Nessa leitura, o Brasil aparece bem posicionado. “O Brasil tem muito disso e pode se beneficiar. Se essa tese for verdadeira — e gente grande lá fora defende isso —, pode ser muito bom para os ativos brasileiros de maneira geral”, diz.
Entre as alternativas, o analista cita o ETF CMDB11, que permite acessar o tema de forma simples e diversificada.
“Você compra como se fosse uma ação e ganha exposição a empresas brasileiras de commodities”, explica.
Segundo Spiess, o produto reúne algumas vantagens: exposição ao fluxo de caixa gerado pelas commodities, forte presença em petróleo e gás (cerca de 40% da carteira), diversificação, baixo custo e boa liquidez — com prazos de resgate de cerca de dois dias.
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