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Após um rali bastante intenso, especialmente nos metais preciosos, a dinâmica passou a ser dominada por excesso de fluxo e alavancagem, resultando em uma correção rápida e contundente
Os mercados globais iniciaram a semana em um ambiente que, à primeira vista, parecia caracterizar um claro regime de aversão a risco, marcado por vendas disseminadas em ações, commodities e criptoativos.
O movimento refletiu um processo de desalavancagem que teve início nos metais preciosos ao final da semana passada e, em pouco tempo, se propagou para outras classes de ativos.
Nesse contexto, ouro e prata recuaram dos níveis historicamente elevados em que estavam, enquanto petróleo e cobre também registraram quedas expressivas, reforçando a leitura de um ajuste sincronizado de preços.
Por alguns momentos, esse cenário chegou a desorganizar, ao menos no curto prazo, a lógica tradicional dos chamados ativos defensivos. Após um rali bastante intenso, especialmente nos metais preciosos, a dinâmica passou a ser dominada por excesso de fluxo e alavancagem — combinação que, como costuma ocorrer, resultou em uma correção rápida e contundente.
Em poucos pregões, observamos movimentos relevantes, amplificados pela realização de lucros, por uma leitura mais hawkish da política monetária, pelo fortalecimento do dólar e por vendas forçadas.
No fundo, o que se viu foi um processo clássico e relativamente natural de desalavancagem: vendas compulsórias elevam a volatilidade, apertam as condições financeiras, drenam liquidez e podem contaminar outras classes de ativos, aumentando o risco de uma onda mais ampla de aversão ao risco.
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Não por acaso, já na própria segunda-feira parte desse movimento começou a ser revertida, indicando que o ajuste foi mais técnico do que estrutural.
Isso não significa que novas correções estejam descartadas. Ajustes fazem parte do processo de investimento em ativos de risco, sobretudo após movimentos tão expressivos quanto os observados ao longo de janeiro. O investidor mais maduro precisa compreender essa dinâmica e separar correções pontuais de mudanças efetivas de tendência.
Nesse episódio específico, um dos principais gatilhos para a realização parcial foi a indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para substituir Jerome Powell na presidência do Federal Reserve (Fed, banco central americano), o que reacendeu discussões sobre a condução da política monetária.
Esse movimento coincidiu com a divulgação de um índice de preços ao produtor (PPI) acima do esperado e com a pausa recente no ciclo de cortes de juros, contribuindo para o fortalecimento do dólar.
A nomeação de Warsh encerrou meses de especulação e foi recebida pelos mercados com um alívio cauteloso.
Embora ele seja marginalmente mais associado a uma postura hawkish do que outros candidatos — herança de sua passagem anterior pelo Fed e de seu histórico compromisso com o controle da inflação —, Warsh tem sinalizado abertura para cortes graduais de juros.
Seu argumento central é que os ganhos de produtividade associados à inteligência artificial podem permitir um crescimento econômico mais robusto sem a contrapartida de pressões inflacionárias excessivas. Além disso, o mercado o percebe como um nome menos propenso a aventuras políticas, o que reforça a leitura de preservação da independência do banco central.
No limite, é possível afirmar que Warsh se mostra crítico à expansão excessiva do balanço do Federal Reserve desde 2008, por meio do quantitative easing.
O desafio adiante pode ser justamente encontrar um novo ponto de equilíbrio: balanços menos inchados — uma postura mais contracionista do ponto de vista patrimonial — convivendo, eventualmente, com juros mais baixos, em uma condução mais sofisticada e coerente da política monetária.
Ainda assim, a avaliação predominante é de que Warsh não altera de forma material o cenário-base para a economia americana. Permanecem válidas as expectativas de dois cortes de juros ao longo do ano, sempre condicionados à evolução dos dados, em um ambiente de crescimento ainda saudável, mercado de trabalho mais equilibrado e taxas próximas do nível neutro.
Nesse sentido, os movimentos observados nos mercados após o anúncio — fortalecimento do dólar, queda nos preços dos metais preciosos e leve alta dos juros de longo prazo — parecem refletir muito mais uma acomodação do recente movimento associado ao chamado debasement trade (tese de desvalorização das moedas fiduciárias) do que uma mudança estrutural de tendência.
Isso reforça a leitura de que Warsh foi percebido como o nome “mais seguro” entre os possíveis, capaz de reduzir incertezas sem provocar rupturas relevantes na condução da política monetária.
Em outras palavras, não enxergo a correção observada na reta final de janeiro como algo estruturalmente problemático.
Trata-se, sobretudo, de um movimento no qual investidores aproveitaram para realizar posições que haviam acumulado excessos ao longo do mês, em especial aquelas diretamente ligadas ao debasement trade, que impulsionou ativos reais e estimulou uma rotação geográfica de recursos, beneficiando de forma significativa mercados emergentes, como o Brasil.
Aliás, no mercado doméstico, janeiro foi excepcional, em grande parte impulsionado pelo forte fluxo estrangeiro. Os números oficiais devem ser divulgados ao longo desta semana, mas, pelas estimativas disponíveis até aqui, a entrada líquida de capital externo superou R$ 25 bilhões — praticamente todo o volume aportado pelo investidor estrangeiro na bolsa brasileira ao longo de 2025.
Esse movimento sustentou volumes mais elevados de negociação e contribuiu para um ambiente claramente mais favorável aos ativos locais. O mês se encerrou com valorização próxima de 13% no principal índice de ações do país. No câmbio, o desempenho também foi expressivo: no acumulado de janeiro, o dólar recuou mais de 4% frente ao real.
Não me parece adequado interpretar esse movimento como algo pontual ou esgotado. A leitura é de que a tendência observada em 2025 tende a se estender ao menos ao longo deste ano, uma vez que os vetores que sustentam o debasement trade seguem presentes.
Entre eles, destacam-se a incerteza fiscal — especialmente nas economias desenvolvidas —, os ruídos institucionais dentro dos Estados Unidos, as rupturas de alianças históricas no arranjo geopolítico global e o próprio ciclo de flexibilização monetária.
Vale notar que, mesmo sendo percebido como marginalmente menos dovish do que outros concorrentes na disputa pela sucessão de Jerome Powell, Warsh ainda deverá conduzir cortes de juros, inclusive ao longo deste ano.
Nesse contexto, o movimento de pânico observado nos metais preciosos desde sexta-feira, após o anúncio de Warsh como futuro presidente do Federal Reserve, deve ser interpretado como uma correção saudável das condições de sobrecompra de curto prazo.
Ao retirar excessos e normalizar o comportamento dos preços, esse ajuste tende a dar mais sustentabilidade à tendência de médio prazo, abrindo espaço para a retomada do movimento anterior e, consequentemente, voltando a favorecer ativos de risco fora do eixo desenvolvido — incluindo, de forma relevante, os ativos brasileiros.
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