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Felipe Miranda: Notas sobre a Venezuela

Crise na Venezuela e captura de Maduro expõem a fragilidade da ordem mundial pós-1945, com EUA e China disputando influência na América Latina

Maduro
Nicolás Maduro - Imagem: Wikimedia Commons

É sempre capcioso escrever sobre eventos históricos enquanto eles estão acontecendo. Sem o benefício da retrospectiva, falamos apenas do que pode ser. Aquilo que efetivamente é ou será ainda há de ser escrito.

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O véu que repousa sobre o futuro e o esconde é especialmente espesso em situações de guerra — “the fog of war”, no mais do que clássico de Carl von Clausewitz.

Introduzindo a famosa frase de conteúdo nacional à pauta de exportações, “na Venezuela, até o passado é incerto.” As dúvidas são de toda a sorte.

Houve colaboração local, alianças e traições para a captura de Maduro? Elas implicam compromissos com um governo de transição? Se Delcy Rodrigues, que era parte do regime anterior, continuar à frente do país, terá legitimidade? Como fica a situação de Edmundo Gonzalez, recém-autoproclamado presidente eleito do país?

Essas seriam apenas algumas perguntas iniciais, certamente não-exaustivas da complexidade do quadro à nossa frente.

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Futuro da Venezuela

O recado é que escrevemos sob incerteza, tentando, no máximo possível, evitar previsões sobre um futuro inexoravelmente impermeável. Ainda assim, algumas considerações já podem ser feitas.

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A primeira delas é que, se havia ainda algum vestígio sobrevivente da Ordem Mundial em vigor a partir de 1945, ele acaba de sucumbir. O estabelecimento de garantias de respeito às fronteiras territoriais do pós-guerra foi, para usar as palavras Yuval Harari, uma das maiores conquistas civilizacionais.

Somente perante uma invasão de seu território, em uma ofensiva de legítima defesa, ou mediante aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), um país poderia realizar incursão militar em outra nação. Finalmente, tribos, sociedades e estados-nacionais tinham definidas regras e instituições claras em favor de sua soberania.

Quando a China viola de maneira sub-reptícia regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou desrespeita propriedade intelectual, apontamos com certa benevolência a narrativa de que uma sociedade confuciana não estaria sob as mesmas diretrizes e os mesmos valores dos herdeiros do Iluminismo ou da democracia liberal.

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Quando a Rússia invade duas vezes a Ucrânia, ferindo os limites da demarcação territorial pregressa, a questão é vista como uma violação pontual, restrita a um autocrata com passagem pela KGB e ligações pouco republicanas com a oligarquia local.

Agora, quando a maior democracia liberal atropela a governança que ela mesma ajudou a construir, é porque a tal “Nova Ordem Mundial” ficou velha demais para continuar em curso. Se há destruição do ordenamento anterior, o que fica no lugar?

Cresce a incerteza e, com ela, a necessidade de diversificação e os prêmios de risco geopolíticos.

Não à toa, os metais preciosos se apreciam com vigor nesta segunda-feira — o ouro sobe mais de 2%, a prata avança quase 5%. As ações de defesa europeias atingem seu maior patamar em dois meses.

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Entre a direita e a esquerda

Também não parece ser coincidência o paralelo escrito por Niall Ferguson, relacionando questões atuais com aquelas de 120 anos atrás. Nas palavras do prestigioso historiador, “na direita, temos a figura odiosa de Nick Fuentes”, para quem “Hitler was fucking cool”.

“Não menos absurdo (à esquerda) é o discurso recente de Zohran Mamdani, de que precisamos substituir a frieza do áspero individualismo pelo caloroso coletivismo.”

Ferguson arremata: “aqui está sua escolha diante do absurdo extremista do espectro político: fascismo ou socialismo.” Essa foi a escolha que muitos fizeram na década de 1920. Deu no que deu.

O segundo ponto importante é que há uma clara mudança do governo norte-americano em relação à postura adotada para a América Latina nas últimas décadas. De uma espécie de negligência ou até desinteresse, agora caminhamos para algo de maior atenção e intervencionismo.

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Ainda em agosto de 2024, escrevi sobre um “corolário Trump à doutrina Monroe”, como se os EUA recuperassem a filosofia do Destino Manifesto para impor a América para os americanos, considerando qualquer interferência externa um ato de guerra, que permitiria resposta do grande porrete do norte.

Se não estamos mais sob a égide do Fim da História de Fukuyama, ou seja, se a democracia liberal, representada de forma mais icônica pelos EUA, não é mais o grande líder indisputável, e se estamos num contexto de Segunda Guerra Fria ou num G2 (mundo bipolar entre EUA e China), caminhamos em prol da disputa por zonas de influência novamente.

Sob essas lentes estritamente pragmáticas, a divisão do mundo implicaria: ou a América Latina fica para os EUA, ou para a China.

Petróleo venezuelano

Hoje, a produção de petróleo na Venezuela é pouco relevante em termos globais, ainda que possa ser expressiva para a arrecadação tributária do país, dada a situação combalida de sua economia. Se podemos confiar nos números disponíveis, a Venezuela produz hoje cerca de 1 milhão de barris por dia. Esse número já foi 3 milhões de barris.

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Apesar da baixa produção, as reservas venezuelanas são as maiores do mundo, com 303 bilhões de barris, ainda que seja um petróleo mais pesado — isso se compara, por exemplo, aos 250 bilhões da Arábia Saudita.

A ideia de que companhias norte-americanas possam vir a explorar o óleo venezuelano impulsiona suas ações nesta segunda-feira, com destaque para Chevron, que ainda mantém uma operação no país — suas ações subiam 8% pela manhã.

Empresas norte-americanas de serviços para a produção de petróleo, como Schlumberger e Halliburton, podem ser segundas derivadas do processo.

Talvez até mais importante do que permitir um lucro às petroleiras dos EUA seja evitar que o petróleo da Venezuela continue vendido a preços descontados para China, o verdadeiro foco da Segunda Guerra Fria.

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Se a questão demográfica, o esgotamento do modelo focado em investimentos e exportações, a defasagem no mercado de chips e a subpenetração em indústria aeroespacial são fraquezas chinesas frente aos EUA, seu acesso à energia barata está entre seus grandes diferenciais positivos.

Impactos regionais e oportunidades

Ainda que a Venezuela seja de pequeno impacto sobre os mercados globais, os eventos recentes oferecem desdobramentos sobre toda a região e a geopolítica global. Para os países da América Latina, a postura norte-americana e a captura de Maduro oferecem riscos e oportunidades.

Como impacto direto e imediato, os bonds venezuelanos se apreciam de forma pronunciada. Os títulos de Cuba também podem ser carregados, sob a ideia de que aumentou a probabilidade de serem os próximos da fila. Até mesmo a Colômbia pode estar nessa esteira.

Para a Guiana e as empresas exploradoras de petróleo no país, a notícia é positiva, pois há uma diminuição do risco político, dadas as ameaças recentes de Caracas de guerra contra o vizinho.

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Para a esquerda latino-americana, o golpe é duro.

O regime de Chavez e Maduro há décadas financia movimentos mais à esquerda na região, com especial impacto sobre Peru e Colômbia. No caso brasileiro, a complacência com que o governo Lula tratou as mazelas da ditadura de Maduro cobra seu preço agora.

A direita já recupera vídeos de Lula em 2013 defendendo o legado Chavez-Maduro e toda a proximidade com o eixo das ditaduras (China, Rússia, Irã, além dos satélites Nicarágua, Cuba, Venezuela e Coreia do Norte) certamente será explorada nas eleições de 2026.

Se o Direito Internacional canônico perde prestígio e invasões de territórios estrangeiros passam a ser possibilidades materiais, além dos casos já citados, Panamá, Groenlândia, Kiev e Taiwan passam a conviver com uma espada de Dâmocles sobre suas cabeças.

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A neutralidade diplomática do Brasil pode ser um ativo valioso na segunda metade da década de 2020. Não é exatamente uma má ideia estar no meio do Planalto Central brasileiro num momento como esse. Basta saber se faremos as escolhas certas para explorar esse ativo.

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