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Do frescor jovial à complexidade dos Gran Reservas, sommeliers explicam como a casta mais famosa da Espanha se reinventa em cada taça

A Tempranillo é daquelas uvas que se reconhece sem precisar dizer o nome. Presente em quase toda a Espanha, muda de sotaque conforme o lugar, mas mantém a essência que atravessa estilos e terroirs. Em Rioja, por exemplo, conserva a elegância; já em Ribera del Duero, ganha corpo e intensidade; em outras áreas, aparece com mais leveza e frescor.
De região para região, a casta reflete diferenças de clima, altitude e solo, revelando como fatores locais moldam o estilo final dos vinhos. Para produtores e enólogos, essa capacidade de adaptação ajuda a explicar por que a variedade segue como o símbolo da viniviticultura do país: é versátil e responde bem, portanto, a diferentes abordagens de cultivo e vinificação.
Guiados por sommeliers, percorremos a trajetória da Tempranillo e indicamos rótulos para explorar esta que é casta mais emblemática da Espanha.
No vinhedo, o próprio comportamento da uva já indica sobre como ela se expressa. Leandro Mattiuz, do Elevado Conselheiro, São Paulo, lembra que o ciclo curto da Tempranillo, inclusive, é o que dá o seu nome, literalmente cedo, em espanhol. Essa colheita precoce ajuda a explicar o seu perfil, descrito pelo sommelier como “moderado, de taninos firmes, porém macios, e uma variação aromática que vai da fruta vermelha fresca à fruta negra madura, conforme o estilo e o local de produção.”
Essa característica da uva aparece na taça com uma personalidade bem definida. Para Fernando Moreira, sommelier da Santo Vino, a maturação precoce, a pele fina e a facilidade de adaptação explicam por que a Tempranillo consegue ser tão expressiva, mas sem perder o equilíbrio. O que a coloca entre as tintas mais interessantes da Europa, aliás, é precisamente sua capacidade de assumir diferentes estilos sem perder a essência.
“O que a distingue entre as tintas europeias é justamente sua versatilidade, pois consegue produzir desde vinhos frutados e joviais até rótulos estruturados, profundos e longevos, mantendo sempre um caráter elegante e equilibrado.”
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Mattiuz reforça que boa parte dessa versatilidade, inclusive, vem da forma como a uva reflete o lugar onde nasce e da sua afinidade com o carvalho americano, responsável por marcar o estilo clássico espanhol com notas de baunilha, coco e especiarias doces.

A relação da Tempranillo com a Península Ibérica é antiga. Segundo Mattiuz, sua origem provavelmente está na região que corresponde hoje a Rioja ou Navarra, com registros desde o período romano. Foi ao longo da Idade Média, porém, que espalhou-se pelos monastérios e se consolidou como base dos vinhos de Rioja.
O sommelier também conta que dois períodos mudaram o rumo da uva. “No século 20, com a chegada de técnicas de Bordeaux à região após a filoxera francesa, ela se tornou protagonista em vinhos de longa guarda. Já em Ribera del Duero, um estilo mais robusto e concentrado emergiu no século 20, influenciado tecnicamente pela vinícola Vega Sicilia e posteriormente pelo boom de vinhos modernos nas décadas de 1980 e 1990.”
Para Moreira, a uva tornou-se um símbolo espanhol porque encontrou no clima do país um ambiente perfeito para desenvolver seu caráter, especialmente nas amplitudes térmicas e na continentalidade que favorecem sua maturação precoce.
O sommelier cita também sua integração ao estilo clássico de regiões como Rioja e Ribera del Duero. “Nessas áreas, o uso do carvalho e os longos períodos de envelhecimento destacaram suas qualidades naturais e deram origem a vinhos que se tornaram referências mundiais.”
A Tempranillo mostra perfis distintos conforme o lugar onde é cultivada. Fernando Moreira explica que Rioja costuma oferecer mais elegância, fruta vermelha e taninos redondos, enquanto Ribera del Duero apresenta fruta negra e estrutura. Em Toro, surgem vinhos densos e quentes; em Navarra e na Catalunha, rótulos modernos e frutados; e em La Mancha, versões jovens e acessíveis.
Mattiuz reforça essa diferença entre Rioja e Ribera, apontando que o terroir de Rioja dá corpo médio, acidez moderada e notas de cereja e ervas, enquanto Ribera, por conta da altitude e da amplitude térmica, resulta em vinhos mais concentrados e intensos.
Além da Espanha, Portugal aparece como um dos lugares onde a uva ganha nova identidade. Lá, sob os nomes Aragonês ou Tinta Roriz, integra cortes com Touriga Nacional no Douro, contribuindo com corpo e elegância. Fora da Europa, conta Moreira, países como Argentina e Chile costumam apresentar um estilo mais frutado e direto, enquanto Estados Unidos e Austrália apostam em versões modernas, de fruta intensa e madeira evidente.

Fatores como altitude, amplitude térmica e tipo de solo influenciam diretamente o perfil da Tempranillo. Moreira explica que maiores altitudes ajudam a manter acidez e frescor, enquanto solos de calcário, argila ou xisto moldam textura, mineralidade e volume de boca.
“O clima é determinante para a maturação e o perfil aromático, enquanto a idade das vinhas aumenta a concentração e a complexidade. Por fim, a exposição solar determina a intensidade da fruta e a estrutura do vinho”, completa o sommelier.
Os aromas e sabores da Tempranillo são diversos e evoluem ao longo do tempo. Moreira destaca frutas como cereja, ameixa e framboesa nos rótulos jovens, que com o passar dos anos ganham toques de baunilha, especiarias, tabaco e couro devido ao envelhecimento em carvalho. Mattiuz acrescenta que podem surgir notas de figo, ervas secas e chá preto, especialmente em vinhos mais maduros. O corpo varia entre médio e encorpado, quase sempre com taninos finos e acidez equilibrada.
Comparada a uvas mais potentes, a Tempranillo aposta menos na força e mais na harmonia. “O que a torna única é seu equilíbrio natural, combinando fruta, taninos e acidez sem extremos. Ela possui uma textura mais macia que a Tannat ou a Cabernet quando jovens e um perfil aromático menos agressivo que a Syrah”, diz Moreira, acrescentando que sua afinidade com madeira a faz adquirir complexidade sem perder a identidade.
A relação da Tempranillo com o carvalho, aliás, é essencial para entender seu estilo. Mattiuz explica que o carvalho americano traz notas clássicas de baunilha, coco e especiarias doces, enquanto o francês adiciona elegância e sutileza, com toques de cedro e cravo.
“Os estilos tradicionais dependem da madeira para adicionar complexidade, cremosidade e longevidade, sendo que o aporte suave de oxigênio arredonda os taninos e acentua notas de couro e tabaco com o tempo”, detalha.
Mesmo com toda sua história, o estilo dos vinhos de Tempranillo, assim como outras tintas, segue se renovando. “Atualmente, ganham relevância estilos mais frescos e menos extraídos, com uso reduzido de madeira, bem como vinhos de parcela que destacam micro terroirs e vinhas antigas”, conta Moreira, que ainda cita releituras modernas, que combinam, em suas palavras, fruta vibrante, taninos finos e maior precisão aromática.
Mattiuz também aponta alguns novos focos: “Vinhedos antigos de produção limitada, uma retomada do uso de ânforas e tonéis grandes para obter mais textura e pureza, e a valorização dos Riojasde Pueblo, que expressam microterroirs específicos em vez de blends regionais.
Para Fernando Moreira, três vinhos da Rioja ajudam a mostrar a versatilidade da Tempranillo. “Para entender a diversidade da uva, recomendo o La Rioja Alta Gran Reserva 904 por sua elegância clássica, estilo tradicional e equilíbrio impecável.” O rótulo é produzido pela La Rioja Alta e segue o modelo tradicional da região, com longa passagem por madeira.

Fernando também indica outro clássico local. “O R. López de Heredia Viña Tondonia Reserva, uma referência histórica e exemplo máximo de evolução em madeira e garrafa.” Feito pela R. López de Heredia, o Tondonia representa o estilo mais envelhecido e oxidativo da Rioja.

A terceira indicação do sommelier é o Castillo Ygay. Segundo ele, o rótulo se destaca “pela profundidade, longevidade e precisão aristocrática”. A produção é da Marqués de Murrieta, também na Rioja, e figura entre os mais conhecidos da região.

Em Ribera del Duero, Fernando aponta dois nomes de perfis distintos. “O Vega Sicilia Único destaca-se pela intensidade, estrutura e longevidade incomparáveis.” O vinho é elaborado pela Vega Sicilia, referência local.

Ele ainda sugere o Dominio de Pingus, que “oferece uma interpretação moderna, concentrada e focada em viticultura de precisão”.

Para comparar com outro país, Fernando aposta em Portugal. “Para ver como a uva assume personalidade distinta em outro país e terroir, indico o Quinta do Crasto Tinta Roriz, de Douro.”

Além dos citados por Moreira, Leandro Mattiuz destaca outras duas vinícolas. “Em Rioja, recomendo o Luis Cañas, que oferece excelente custo-benefício”.

Em Ribera del Duero, a recomendação são os vinhos da Bodega Arzuaga, “vizinho que entrega níveis altíssimos de complexidade e profundidade por um preço menor”. Por lá, boa pedida é o premiado Arzuaga.

Também conversamos com Ricardo Mansano, chef do restaurante Andres una Experiencia, que finaliza a lista com mais dois rótulos: Rioja Bordón Crianza 2019 e El Abuelo Reserva 2020.

“O primeiro combina Tempranillo e Garnacha, amadurece nove meses em madeira e entrega um perfil encorpado e potente, com notas de baunilha e morango maduro. Já o segundo reúne Monastrell, Garnacha e Tempranillo, com 12 meses em barrica, resultando em um vinho super encorpado, marcado por aromas de geleia de morango, café e caramelo, perfeito para pratos de sabor profundo, como carnes braseadas ou cordeiro.”

La Rioja Alta Gran Reserva 904
Preço: R$ 1.697, na Soul Wines
R. López de Heredia Viña Tondonia Reserva
Preço: R$ 551,38, na Mistral
Marqués de Murrieta Castillo Ygay Gran Reserva Especial
Preço: R$ 2.449,90, no Le Petit Sommelier
Vega Sicilia Unico Reserva Especial
Preço: 10.657,57, na Mistral
Dominio de Pingus
Preço sob consulta
Quinta do Crasto Tinta Roriz
Preço: R$ 799,90, no Caçador de Vinhos
Luis Cañas Crianza
Preço: R$ 227,91, na Vinsel
Arzuaga Reserva 2020
Preço: R$ 924, na Decanter
Rioja Bordón Crianza 2019
Preço: R$ 139, na Domaine du Vin
El Abuelo Reserva 2020
Preço: R$ 249,90, no Vino Mundi
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