Fintechs invisíveis e o “banco paralelo” do PCC: como criminosos se aproveitaram da Faria Lima para desviar bilhões
Da Faria Lima às contas digitais, a Polícia Federal e a Receita miram centenas de empresas e pessoas físicas em um esquema de lavagem de dinheiro, estelionato e fraude fiscal

Faria Lima, manhã de quinta-feira (28). Da noite para o dia, o coração do mercado financeiro brasileiro se tornou o epicentro de uma ação histórica da Receita Federal contra o crime organizado e o PCC, batizada de Operação Carbono Oculto.
A Polícia Federal investiga R$ 23 bilhões em lavagem de dinheiro. Já o Fisco avalia que o esquema criminoso tenha sonegado R$ 1,4 bilhão em tributos federais, enquanto os tributos estaduais sonegados beiram os R$ 7,6 bilhões.
Ao todo, 350 alvos estão na mira da investigação: empresas, pessoas físicas… boa parte do mercado financeiro. Para ter ideia, só a região da avenida Faria Lima concentra 42 dos investigados.
E o coração da operação? Fintechs, corretoras e gestoras de investimento.
Os investigados são suspeitos de crimes que vão de fraude fiscal, lavagem de dinheiro e estelionato a adulteração de combustíveis e crimes ambientais, todos usados para sustentar um fluxo bilionário de recursos ilícitos.
“Todos nós sabemos também que no cerne de todas as operações aparecem as fintechs", disse o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, em entrevista coletiva sobre a operação.
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Mas a grande questão é: como as fintechs e fundos de investimento foram usados para movimentar cifras bilionárias e permanecer invisíveis?
Fintechs e a anatomia do crime
A escolha das fintechs — instituições de pagamentos que usam tecnologia para oferecer serviços financeiros de forma digital — não foi ao acaso.
Segundo as autoridades, o crime organizado explorou brechas na regulação dessas instituições digitais, que permitiam movimentar recursos em grande escala sem que os órgãos de controle conseguissem rastrear os fluxos.
Uma onda de fake news envolvendo transações com Pix no início deste ano — talvez você também tenha ouvido dizer que o governo queria taxar o seu Pix — também ajudou a abrir caminho para o esquema. Eu explico os detalhes abaixo.
E, de repente, as fintechs se transformaram em um “banco paralelo invisível” para o PCC.
Uma instituição de pagamentos, sozinha, movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, segundo a Receita.
Para aumentar a complexidade, ela controlava outras fintechs menores, criando uma dupla camada de ocultação. O dinheiro entrava, saía… e desaparecia, sem deixar rastros.
“A fintech era um poderoso núcleo financeiro da organização criminosa, porém invisível para ações de controle e fiscalização”, disse a autoridade.
O BK Bank, principal instituição de pagamentos investigada, registrou R$ 17,7 bilhões em movimentações suspeitas, segundo informações do Estadão Conteúdo.
Procurado pelo Seu Dinheiro, o BK Bank disse que “foi surpreendido com sua inclusão na operação deflagrada na data de hoje”.
“A instituição de pagamentos é devidamente autorizada, regulada e fiscalizada pelo Banco Central do Brasil e conduz todas as suas atividades com total transparência, observando rigorosos padrões de compliance. O BK Bank reitera seu compromisso com a legalidade e coloca-se à inteira disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar plenamente com as investigações”, escreveu a instituição, em nota.
Por que as fintechs foram escolhidas pelo PCC?
O motivo é simples: brechas na regulação dificultavam o rastreio do dinheiro.
O PCC explorou as chamadas contas-bolsão, abertas em nome da própria fintech em bancos tradicionais, que tornavam quase impossível rastrear qualquer centavo.
Imagine uma conta única, onde o dinheiro de todos os clientes circula, sem separar quem é quem. Era assim que os criminosos operavam.
Por lá, passava dinheiro de distribuidoras de combustível, postos e até de fundos de investimento.
“Era dessa forma que as operações de compensação financeira entre as distribuidoras e os postos de combustíveis eram realizadas, assim como compensações financeiras entre as empresas e os fundos de investimentos administrados pela própria organização criminosa”, escreveu a Receita.
Pagamentos de funcionários e despesas pessoais também passavam por essas contas. Entre 2022 e 2023, mais de 10 mil depósitos em espécie somaram R$ 61 milhões, segundo as autoridades.
A brecha que abriu caminho para o esquema criminoso
Uma fiscalização mais intensa poderia ter fechado essas lacunas. Mas as medidas do governo para aumentar a regulação sobre instituições digitais, anunciadas no começo de 2025, duraram apenas 15 dias.
Em janeiro, uma instrução normativa havia aumentado a fiscalização sobre bancos digitais e transferências Pix acima de R$ 5 mil, além de melhorar a coleta de dados pela e-Financeira, permitindo que a Receita rastreasse mais declarantes e valores.
No entanto, a medida foi revogada poucos dias depois, após uma onda de fake news sobre a “taxação do Pix”.
O resultado? Dezenas de bilhões de reais ficaram fora do radar da Receita.
Segundo a Receita, a revogação manteve uma brecha crucial, permitindo que cerca de R$ 47 bilhões movimentados pela fintech central do esquema criminoso ficassem “fora do radar”.
“As operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras, com essas fake news: o crime organizado. Mostram que, independentemente das intenções, as pessoas que espalharam aquelas fake news, aquelas mentiras, no início do ano, ajudaram o crime organizado", disse o secretário da Receita, Robinson Barreirinhas.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que enviará uma nova normativa para que as fintechs sejam enquadradas na mesma legislação que os bancos tradicionais.
"As fintechs, a partir de amanhã, terão que cumprir rigorosamente as mesmas obrigações que os grandes bancos", disse Haddad.
Gestoras, fundos de investimentos e a "blindagem" do dinheiro
O esquema não parava nas fintechs. Entraram em cena também os fundos de investimento.
O dinheiro criminoso era reinvestido em gestoras. Transformado em ativos. Imóveis, empresas, caminhões, até um terminal portuário. Tudo via fundos que pareciam legítimos, mas eram controlados pelo grupo — e extremamente “blindados” contra investigações.
A Receita detectou pelo menos 40 fundos, com cerca de R$ 30 bilhões em patrimônio. Muitos eram fundos fechados, com um único cotista, geralmente outro fundo. O rastro desaparecia e era quase impossível identificar os beneficiários.
Uma das instituições investigadas é a Reag Investimentos (REAG3), uma das maiores gestoras de recursos independentes do país. Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag hoje possui cerca de R$ 299 bilhões sob gestão.
As autoridades também afirmam que algumas administradoras dos fundos estavam cientes e colaboraram com o esquema, deixando de cumprir obrigações legais.
Os nomes dos envolvidos não foram divulgados.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
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