Felipe Miranda: Os últimos passos de um homem — ou, compre na fraqueza
A reação do mercado à possível candidatura de Flávio Bolsonaro reacende memórias do Joesley Day, mas há oportunidade

Os paralelos entre o evento de sexta-feira e o Joesley Day são inevitáveis. Uma grande reação negativa súbita, catalisada por um evento de ordem política, potencialmente capaz de tirar o Brasil do caminho das reformas estruturantes e de uma trajetória fiscal menos perdulária. De alguma forma, ambas situações suscitavam dúvidas e incertezas sobre o comando do poder Executivo.
O Brasil é uma revoada de cisnes negros. Ou, na expressão consagrada de um grande banqueiro: é muito cisne pra pouco lago.
Embora a comparação entre os eventos engendre sentimentos e expressões negativas a priori, há um outro espectro do paralelo, mais construtivo. Em maio de 2017, escrevi essa mesma newsletter respondendo às indagações sobre o que fazer com as posições em ativos de risco no Brasil naquele momento, em reação à divulgação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer. A prescrição defendia “não fazer nada”.
O Brasil voltaria vivo do flerte com o precipício mais uma vez e os ativos acabariam se recuperando, ainda que a incerteza institucional à época fosse enorme, sem que soubéssemos quem seria o presidente da República semanas depois.
Os boatos eram de toda sorte. Temer renunciaria. Seriam potencialmente convocadas novas eleições, o próximo da linha sucessória assumiria, teríamos um consenso formado em torno de Tasso Jereissati, Nelson Jobim ou algum outro moderado capaz de devolver alguma institucionalidade ao processo.
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Com efeito, aqueles que se mantiveram comprados viram seu capital recuperado e apreciado no tempo.
O rali iniciado com a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer foi estendido até janeiro de 2020, para ser interrompido somente pela pandemia.
O Ibovespa saiu da mínima de 39 mil pontos da era Dilma para os 120 mil pontos, continuamos uma trajetória de reformas até o começo do governo Bolsonaro, os juros caíram, o real se apreciou e Joesley… bem… como o país nunca foi para amadores… deixa pra lá.
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A candidatura de Flávio Bolsonaro e uma oportunidade aos investidores
Dessa vez, me permito ir um passo além da sugestão de “sentar na mão” e não vender seus ativos de risco brasileiros.
Entendo a reação de sexta-feira como uma oportunidade de compra clássica.
A reação negativa dos mercados me parece desproporcional à real incerteza associada ao evento.
De outra forma, não vislumbro significativa mudança da distribuição de probabilidade para a eleição de 2026 a partir da indicação de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência neste momento.
O movimento soa muito mais uma tentativa de recuperar algum protagonismo narrativo e material da família Bolsonaro como liderança na direita, esvaziado com o fracasso das iniciativas de Eduardo no entorno do tarifaço e com a prisão do patriarca, e de ganhar alavancagem negocial, envolvendo, possivelmente, uma vice-candidatura na chapa presidencial (o que enfrenta resistência de partidos mais ao centro, preocupados com a alta rejeição ao sobrenome), a anistia para os envolvidos no 8 de janeiro e/ou adoçamento para a pena de Jair Bolsonaro.
Não significa, necessariamente, que a candidatura seja um blefe. Ela é real no sentido de que, se ganhar tração e apoio popular, será levada ao fim e ao cabo. No entanto, essa probabilidade parece baixa.
A reação dos mercados na sexta-feira, o DataFolha do final de semana, a reação do establishment nos veículos de imprensa e nas mídias sociais, além da conhecida simpatia do STF ao sobrenome Bolsonaro, são exemplos sintomáticos da rejeição ao anúncio.
O “sistema" não agasalha Flávio.
Entre a chantagem e o perdão
O próprio suposto candidato já assume ter um preço para não levar sua candidatura até o final.
Da outra vez que a família tentou chantagear o país (“a liberdade para o meu pai em troca do fim das tarifas nos EUA”) não deu certo. E é bastante improvável um resultado diferente agora.
A opinião pública percebe a chantagem e simplesmente pula fora. Poucas coisas tiram mais apoio popular do que a generalizada percepção de que os interesses particulares e familiares estão à frente das motivações republicanas.
Se a família quer mesmo a liberdade de seu patriarca, as chances maiores se concentram em eleger um presidente capaz de lhe conceder indulto; não com a chantagem de “uma candidatura por uma anistia que contemple o ex-presidente”.
Se insistir no candidato da família tentando preservar seu legado e sua liderança na direita, o bolsonarismo pode acabar sem os dois e com o patriarca sem o perdão presidencial.
O cenário eleitoral que se forma
Ao lançar Flávio, menos competitivo e sem adesão popular fora do bolsonarismo raiz (lembre-se: segundo pesquisa da Quaest, apenas 13% da população se diz bolsonarista, enquanto 22% afirma pertencer à direita não bolsonarista), terá como antagonistas o centrão, a imprensa, o “sistema” e o voto útil.
Nesse contexto, Tarcísio de Freitas tenta uma reeleição em São Paulo e Ratinho Junior sai como candidato da centro-direita, com apoio de Gilberto Kassab e de tudo que isso representa, ancorado nos excelentes dados conquistados como governador do Paraná e com a ajuda da popularidade do pai no Nordeste.
Num eventual segundo turno, capturaria mais votos ao centro e herdaria naturalmente os votos bolsonaristas, avessos a Lula, preterido até contra o Macaco Simão, segundo Eduardo.
Flávio tem apenas os votos bolsonaristas, sem avançar sobre o centro por conta da elevada rejeição ao sobrenome.
O voto útil nas eleições de 2026
Então, entra em cena o voto útil. Se a eleição de 2026 é uma espécie de plebiscito em torno do nome de Lula ou, em outras palavras, se o objetivo primordial dos eleitores da centro-direita e da direita é desbancar o incumbente, ao ver uma candidatura de Ratinho Jr muito mais competitiva contra Lula do que aquela de Flávio Bolsonaro, muitos podem optar pelo candidato do PSD já no primeiro turno.
Não é desprezível a chance de um segundo turno sem a presença do bolsonarismo, o que aceleraria seu ostracismo.
Curiosamente, dada a reação da sociedade e os riscos associados para o clã, a candidatura de Flávio Bolsonaro pode significar, na verdade, a convergência tácita em torno de Tarcísio.
A recuperação da bolsa e dos ativos brasileiros
Antes de terminarmos, uma ponderação: a esperada recuperação dos ativos brasileiros pode não acontecer a curtíssimo prazo.
Os próximos dias ainda devem ser permeados por muito ruído e volatilidade.
Aliás, essa deve ser a tônica de todo ano de 2026. O investidor precisa estar preparado para isso.
O ponto aqui é que volatilidade não é risco e havemos de separar o ruído do verdadeiro sinal. Risco aqui deve ser entendido como perda permanente do capital.
Nesse contexto estrito, o evento de sexta parece superestimado. A verdadeira definição eleitoral só deve acontecer entre março e abril.
Até lá, estaremos protegidos pelo fluxo de recursos em favor dos mercados emergentes, agora com maior atenção norte-americana à América Latina, formalizada na sexta-feira no National Security Strategy, pela queda das taxas de juro nos EUA e também no Brasil e pelo fluxo cavalar advindo dos dividendos (Localiza é o nome do dia!).
O rio corre para o mar.
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