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Comércio global no escuro: o novo capítulo da novela tarifária de Trump

Estamos novamente às portas de mais um capítulo imprevisível da diplomacia de Trump, marcada por ameaças de última hora e recuos

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (EUA).
Donald Trump - Imagem: Official White House/Shealah Craighead

Com os mercados globais abrindo a semana em tom levemente negativo, os investidores acompanham de perto a aproximação de uma data-chave no tabuleiro comercial internacional. O prazo final para a definição das chamadas tarifas recíprocas dos EUA se encerra nesta quarta-feira, 9 de julho — e, como já se tornou tradição, Donald Trump voltou a recorrer à velha fórmula de endurecer o discurso na reta final, direcionando ataques retóricos aos países que ainda não apresentaram contrapartida.

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A combinação entre essa postura mais agressiva e a liquidez esvaziada típica do verão no hemisfério norte cria o cenário ideal para uma elevação pontual da volatilidade.

Improviso tático ou estratégia bem definida?

Com escassez de sinais concretos e uma comunicação ruidosa vinda da Casa Branca, os investidores navegam às cegas, à espera do próximo movimento do presidente norte-americano. E é bom alinhar as expectativas: dificilmente veremos uma avalanche de acordos comerciais até o encerramento deste novo prazo indicado por Trump.

A reconfiguração do sistema comercial internacional ainda está longe de ser concluída. Por ora, apenas dois acordos foram formalmente firmados: um com o Reino Unido, ainda pendente de ajustes técnicos, e outro com o Vietnã, cujo peso é bastante limitado. No caso da China, o que houve foi uma espécie de armistício comercial temporário, concentrado em questões ligadas às terras raras.

Com essa lista modesta e um grau elevado de complexidade diplomática, tudo indica que Trump deverá, mais uma vez, postergar a implementação das tarifas. A expectativa é de que a maioria dos países acabe enquadrada em alíquotas-padrão de 10% a 20% — um desenho que parece mais um improviso tático do que uma estratégia comercial bem definida.

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O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já preparou o terreno para mais um adiamento: as tarifas originalmente previstas para abril agora estão programadas para entrar em vigor em 1º de agosto.

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Antes disso, Trump deve enviar até quarta-feira cartas a parceiros comerciais ainda sem acordo — no velho estilo “pegar ou largar”.

Em vez de clareza, o que se tem é mais um capítulo da política externa conduzida a gestos de força — cujo impacto real, como de costume, permanece cercado por incertezas.

O padrão Trump

O mercado reconhece o padrão: estamos novamente às portas de mais um capítulo imprevisível da diplomacia de Trump, marcada por ameaças de última hora e recuos. Apesar do tom triunfalista — com Bessent prometendo uma avalanche de acordos antes do novo prazo —, os fatos contam outra história. 

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Enquanto isso, as conversas com os grandes blocos e países seguem travadas. O cenário, portanto, é menos sobre resolução e mais sobre adiamento.

Por trás da retórica inflamada, o governo norte-americano está apenas empurrando a crise para frente — uma prática já bastante comum na atual gestão. Como as tarifas só entrarão em vigor a partir de 1º de agosto, ainda há três semanas de respiro para negociações.

O Brasil, que até então pairava discretamente fora do radar, foi subitamente arrastado para o olho do furacão. E não por questões comerciais — já que possuímos um déficit comercial com os EUA e nossas pautas de exportação são complementares —, mas por discurso.

A proximidade do governo Lula com o Brics foi lida como um sinal de “alinhamento antiocidental”, rótulo que a administração Trump não hesitou em carimbar. O preço: uma possível sobretaxa (não confirmada) de 10 p.p. sobre as importações.

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A decisão é, no mínimo, estranha — até para os padrões erráticos da política externa trumpista. Afinal, o Brics está mais para um clube disfuncional do que para uma aliança estratégica: seus membros mal se suportam, divergem em quase tudo e, na prática, pouco colaboram entre si.

A cúpula recém-realizada no Brasil é a prova viva desse esvaziamento: sem Xi Jinping, sem Vladimir Putin e sem qualquer sinal de protagonismo real.

Trump enxerga no Brics um inimigo, mas, ao mirar contra o grupo, acaba acertando em cheio um alvo que já nasceu sem substância. A retórica geopolítica é ruidosa; o impacto prático, duvidoso. Saberemos mais em breve…

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