Você pode reclamar do plano de saúde mais caro ou lucrar com isso; estas ações na B3 podem se beneficiar dos reajustes de preços
Na visão de analistas, esse ano será marcado pela recuperação de resultados e margens do setor, mas uma ação é a favorita para surfar essa retomada; confira

Reajustes de preços comumente são seguidos por reclamações — afinal, ninguém gosta de pagar mais caro por algo que já consome. Mas, no caso do aumento dos valores dos planos de saúde, é justamente essa medida que pode ajudar a salvar as ações do setor na bolsa em 2024.
O segmento de saúde foi um dos setores afetados na B3 ao longo dos últimos três anos devido ao aumento da sinistralidade. O termo parece assustador, mas não significa nada além de uma maior utilização dos planos de saúde por parte dos beneficiários.
Na visão de analistas, porém, 2024 será um ano de recuperação de resultados e margens. Entre hospitais, laboratórios e planos de saúde, existem hoje dez empresas com ações listadas na B3. Mas uma delas apareceu como a favorita dos analistas com quem eu conversei.
Acompanhe esta reportagem para entender o que mexe com o setor de saúde na bolsa — e, claro, a companhia que deve ser destaque na bolsa, de acordo com os especialistas.
O que aconteceu com o setor de saúde — e o que esperar para 2024
Pode até parecer contraintuitivo, mas enquanto a pandemia do coronavírus estava no auge, o número de pacientes em hospitais desabou. Na realidade, foi só no fim da crise sanitária da covid-19 que as pessoas realmente voltaram a ir aos prontos-socorros.
A redução da taxa de utilização de hospitais em 2020 permitiu com que os planos ficassem mais competitivos e entrassem em uma guerra de preços em 2021 e 2022.
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Acontece que isso logo virou o cenário perfeito para problemas. Com o fim da pandemia, as pessoas voltaram a fazer os procedimentos que haviam adiado e a sinistralidade chegou às alturas: na época, muitas operadoras chegaram a superar a marca de 100% — neste indicador, também conhecido na sigla em inglês MRL, quanto maior o percentual, pior.
“As empresas entraram no ano de 2023 com uma margem muito pressionada”, ressalta Rafael Passos, da XP Investimentos.
O desafio das empresas de saúde, portanto, foi recompor os valores das mensalidades dos planos sem desagradar demais os usuários.
De fato, no ano passado, o setor começou a dar sinais de recuperação e melhora na rentabilidade, com novos reajustes positivos — de mais de 20% — nos preços de planos de saúde e aumento do ticket médio das operadoras.
“As operadoras preferiram deixar de brigar por preço e tentar buscar rentabilidade”, afirma Fernando Ferrer, analista da Empiricus. Nesse sentido, os reajustes do início deste ano foram um bom sinal — pelo menos para o mercado. Ao mesmo tempo, a expectativa é de uma menor pressão do lado dos custos.
Vem aí mais reajustes nos planos — e isso é bom para os acionistas
Na visão do Bank of America (BofA), o setor de saúde deve apresentar menor taxa de sinistralidade médica (MLR) no comparativo em 2024 após os aumentos recentes nas mensalidades.
Segundo os analistas, a taxa de sinistralidade médica do setor permanece elevada em 87%, contra uma média histórica de 82%.
Por isso, o banco prevê outro ciclo de aumentos agressivos de preços de planos de saúde em 2024, com reajustes superiores a 15%.
“Esperamos uma melhoria significativa da sinistralidade principalmente no segundo semestre, o que deverá levar a uma melhoria no ciclo de capital de giro do setor (hospitais, laboratórios e distribuidoras).”
Para o Santander, a rentabilidade deve continuar como o foco principal das empresas, apoiando um ambiente competitivo mais racional.
Já para a Genial Investimentos, as companhias de saúde devem consolidar a recuperação em 2024 e levar as margens financeiras de volta a um patamar saudável.
Hapvida (HAPV3): Hora de brilhar?
Na visão dos analistas do Bank of America, as taxas de juros mais baixas devem ajudar nos resultados financeiros das empresas de saúde, especialmente no caso das companhias mais alavancadas, como Hapvida (HAPV3), Oncoclínicas (ONCO3), Dasa (DASA3) e Rede D’Or (RDOR3).
O BofA fixou um preço-alvo de R$ 6,50 para HAPV3 nos próximos 12 meses, implicando em um potencial de alta de 68,4%.
Para os analistas, a Hapvida deve atingir o nível histórico de 68% na MLR no segundo semestre de 2024, considerando os reajustes de preços de planos de saúde e a maior eficiência com a integração dos sistemas da NotreDame Intermédica.
“A retomada do crescimento orgânico no 2S24 deverá ser um dos pilares para fortalecer a tese de crescimento da companhia, reflexo de um alívio no reajuste dos preços dos planos de saúde”, afirmam os analistas.
Nas contas do BofA, a melhoria operacional da Hapvida deve impulsionar a geração de caixa neste ano e ajudar a reduzir a alavancagem da companhia, atualmente em um múltiplo de 1,6 vez a relação dívida líquida/Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
A Empiricus também elenca as ações da Hapvida como uma das principais apostas no setor de saúde — especialmente devido à verticalização da empresa e à potencial entrega de sinergias operacionais com a NotreDame Intermédica após a fusão.
“Grande parte da operação dela é própria, o que aumenta o controle de custo. Além disso, a Hapvida tem conseguido repassar os preços e reduzir a sinistralidade. A empresa ainda possui um preço muito competitivo, então acaba sendo a porta de entrada para muitos beneficiários que não querem ficar no SUS”, avalia o analista Fernando Ferrer.
O Santander prevê que a Hapvida pode ganhar participação de mercado em um mercado fraco, proporcionando uma base de associados estável em 2024.
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Os riscos da Hapvida (HAPV3)
Já a Genial possui uma visão mais conservadora para os papéis, com recomendação de “manter” para HAPV3 e preferência pela SulAmérica — atualmente sob o guarda-chuva da Rede D’Or (RDOR3) — no segmento de operadoras de planos de saúde.
“A gente ainda está com um pé atrás na Hapvida em relação a rentabilidade e crescimento, porque eles sempre giraram muito a carteira de beneficiários, o que acabou exponenciando o crescimento das suas receitas. Então, com a diminuição disso, fica mais difícil rentabilizar os negócios”, afirma Guilherme Vianna, analista de ações da Genial.
O número de beneficiários da Hapvida ainda levanta preocupações entre analistas. Isso porque uma curva de crescimento orgânico dos beneficiários mais lenta do que o esperado pode provocar um avanço menor das receitas.
Além disso, o analista da Genial ressalta os riscos causados pela investigação da companhia pelo Ministério Público do Estado de São Paulo por descumprir decisões judiciais favoráveis aos beneficiários do plano de saúde, dificultando o acesso a tratamentos de doenças, principalmente graves, como casos de câncer.
“O mercado de saúde funciona com base em reputação, e existe um risco reputacional grande entre os beneficiários da Hapvida caso essas acusações sejam confirmadas”, diz Vianna. “Não sabemos como essa ação vai andar e não temos ideia em relação ao risco financeiro desse processo.”
De fato, as ações da Hapvida iniciaram o ano no vermelho e ampliaram a queda para 9% em 2024 após a notícia sobre o suposto descumprimento de liminares.
Outras apostas para o setor de saúde neste ano
Os analistas do Bank of America destacam a preferência pelas ações da Oncoclínicas (ONCO3) no setor de saúde, com preço-alvo de R$ 16 (valorização potencial de 39,9%), e Fleury (FLRY3), com target de R$ 21 por papel (alta potencial de 29,7%).
“As duas empresas com maior potencial de crescimento em nossa cobertura são ONCO3 e HAPV3. No entanto, reconhecemos que ambos os nomes apresentam riscos operacionais pela frente. Ajustado ao risco, também gostamos do Fleury.”
E por falar em Oncoclínicas (ONCO3) e Fleury (FLRY3), essas são as duas maiores apostas da XP Investimentos para este ano.
No caso do ecossistema de oncologia, a XP acredita que a empresa está “um pouco mais protegida desse momento mais turbulento do setor”.
“A gente tem uma boa perspectiva de valorização para as ações da Oncoclínicas e acha que a empresa tem todas as pecinhas no lugar para entregar um bom ano e trazer retorno para os investidores.”
Entre os laboratórios, os analistas do BofA avaliam que o Fleury “vem demonstrando consistência de resultados no último ano com expansão de volumes e margens” e irá começar a colher as sinergias da fusão com a Hermes Pardini.
O analista da Genial tem visão semelhante e projeta que o Fleury ainda se beneficie no longo prazo do que chama de “desospitalização” no Brasil.
“A tese vê a criação de um ecossistema integrado de saúde com diferentes especialidades de medicina. Com isso, o beneficiário pode estar dentro sempre dessa roda do Fleury.”
Os riscos para o setor de saúde
Apesar da visão positiva dos analistas para o segmento de saúde em 2024, ainda existem riscos — não só do setor, como também macroeconômicos.
Entre eles, estão uma possível piora dos níveis de desemprego neste ano, além de um ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic) mais lento do que o esperado.
Afinal, muitas companhias do setor de saúde estão endividadas — e dependem de um alívio nos juros para facilitar o processo de desalavancagem.
Na visão do BofA, as discussões sobre a nova regulamentação são o principal obstáculo setorial para as empresas de saúde para 2024.
Além disso, os analistas ressaltam a retomada de uma concorrência de preços mais agressiva por parte das operadoras.
“Algumas operadoras podem querer retornar ao crescimento orgânico e iniciar uma nova guerra de preços, enfraquecendo mais uma vez as margens do setor.”
O banco ainda destaca a redução da necessidade de novos leitos, o que limita o potencial de expansão orgânica de players hospitalares.
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