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Após quase uma década desde que começou a investir na empresa, o mercado passou a especular sobre o que o Goldman pretende fazer com a participação na companhia
Os acionistas da Oncoclínicas (ONCO3) se depararam com uma novidade no quadro de investidores da companhia nesta semana: uma cisão na participação do Goldman Sachs.
Até então, a composição acionária da Oncoclínicas mostrava que o Goldman Sachs detinha pouco mais de 36% do capital da empresa.
Com a reorganização societária, a dupla de fundos de investimentos do banco norte-americano que investe em ações ONCO3 passou a deter em torno de 20% do capital social da rede de tratamentos oncológicos.
Já a gestora de private equity Centaurus Capital — que já era acionista da empresa havia quase dez anos por uma participação indireta, mas se mostrava representada dentro da participação do Goldman — ficou com uma fatia de 16% do negócio.
Isso porque, até a conclusão da reorganização, a participação indireta da Centaurus na Oncoclínicas era detida por intermédio de um veículo de investimento no exterior, gerido por afiliada do Goldman que tomava as decisões de gestão e investimento relativas à fatia.
A cisão da participação voltou a levantar a possibilidade de que o banco norte-americano estaria se preparando para uma operação envolvendo a participação na Oncoclínicas, que detém desde 2015.
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Na avaliação de fontes de mercado, essa seria a última etapa necessária para que o Goldman Sachs — ou mesmo a Centaurus — enfim vendesse sua fatia na Oncoclínicas.
À primeira vista, parece uma salada de informações — com três fundos envolvidos na operação. Mas vamos traduzir essa bagunça.
O Goldman decidiu realizar uma reorganização e separar os ativos de dois de seus fundos, Josephina I e Josephina II. É por meio deles que o bancão norte-americano detém a participação na Oncoclínicas.
Com a reorganização, cada um dos fundos incorporou uma parcela cindida do patrimônio do outro. Assim, eles passam a deter, em conjunto, em torno de 135,2 milhões de ações ONCO3. Elas equivalem a 20,76% do capital social da empresa.
Além disso, um terceiro nome, o Fundo Centaurus, entrou na jogada. Com a operação, o veículo de investimento detido indiretamente pela gestora Centaurus Capital incorporará uma fatia do Josephina II, passando a deter 16% da Oncoclínicas.
| Fundo cindido | Fundo incorporador | Quantidade de ações cindidas | Ações ONCO3 detidas após conclusão | % do capital social da Oncoclínicas após conclusão |
|---|---|---|---|---|
| Josephina I | Josephina II | 191.378 ações | 102.914.808 papéis | 15,79% |
| Josephina II | Josephina I | 101.550.456 ações | 32.384.735 papéis | 4,97% |
| Josephina II | Fundo Centaurus | 104.583.970 ações | 104.583.970 papéis | 16,05% |
Segundo o comunicado enviado à CVM, a alteração na posição acionária do fundo Centaurus teve como único objetivo a “segregação dos interesses econômicos dos então investidores indiretos do Josephina I, do Josephina II para melhor organização”.
O fundo afirma que não pretende alterar a composição do controle ou a estrutura administrativa da Oncoclínicas e nem celebrou qualquer contrato ou acordo que regule o exercício de direito de voto ou a compra e venda de ativos.
Há algum tempo, o mercado especula sobre o que o Goldman Sachs vai fazer com a fatia que detém na Oncoclínicas — e, na avaliação de um gestor de ações, a reestruturação da participação pode indicar uma inclinação maior para uma venda das participações.
Com as participações reorganizadas, agora a porta estaria “um pouco mais aberta” para que o Goldman Sachs (e a Centaurus, se assim desejasse) comece a se movimentar para se desfazer destas fatias.
Afinal, não é comum que os grandes bancos e fundos de investimentos privados mantenham posições relevantes como essa por tanto tempo.
O Goldman começou a construir posição na Oncoclínicas em 2015, quando ela ainda tinha capital fechado. Segundo a Bloomberg, o banco investiu mais de R$ 1,7 bilhão para consolidar o controle da empresa antes do IPO, se tornando o maior acionista individual.
Em agosto de 2021, com a oferta inicial de ações da Oncoclínicas na B3, a instituição financeira aproveitou para embolsar parte do dinheiro pela sua fatia, já que o IPO contou também com distribuição secundária (quando os sócios — neste caso, os fundos Josephina I e II — vendem um pedaço da companhia).
De lá para cá, a Oncoclínicas passou por dois aumentos de capital, em 2023 e 2024, em busca de redução no nível de alavancagem. Na segunda oferta secundária de ações (follow-on), o Goldman cedeu seu direito de preferência ao Banco Master, resultando em uma diluição da participação para 36,81%.
“Quando a empresa diz que está atingindo os dez anos de investimento, ela está dando o recado de que está na hora de vender. Não é normal para um private equity ficar tanto tempo no negócio”, disse um gestor.
De acordo com comunicado do Santander para clientes, a Centaurus “tem por estatuto somente co-investir junto com outro fundo durante um prazo máximo de 10 anos”.
“Esse prazo deve vencer agora, então eles fizeram essa reorganização societária para separar as participações de GS e Centaurus”, afirmou o banco.
Segundo um gestor, outro ponto poderia ter acelerado o processo de decisão do banco para eventualmente zerar a posição na Oncoclínicas: a entrada de um novo sócio na empresa, o Banco Master — que recentemente atraiu os holofotes do mercado por polêmicas noticiadas em uma reportagem da revista Piauí.
O maior potencial impacto de uma eventual saída do Goldman Sachs ou da Centaurus do quadro de acionistas da Oncoclínicas seria o incremento de uma forte pressão vendedora sobre as ações ONCO3 — que já se encontram fortemente depreciadas na bolsa brasileira.
Entre picos e vales, os papéis amargaram perdas da ordem de 75% desde a estreia na bolsa. O abismo se aprofundou ao longo deste ano, com uma desvalorização acumulada de 65% desde janeiro.
A participação dos fundos do banco, Josephina I e II, é avaliada em aproximadamente R$ 607,49 milhões, considerando as cotações do último fechamento, enquanto a fatia da Centaurus chega a R$ 469,58 milhões. Juntas, essas posições superam a marca de R$ 1,07 bilhão em valor.
A saída dessas posições resultaria em uma onda vendedora tão intensa que o mercado não teria nem mesmo a capacidade de absorver o choque negociando no mercado essas ações, segundo fontes da bolsa.
Há como tentar mitigar esse risco, com uma saída gradual da posição, vendendo parcelas das participações em blocos de leilões na B3. Porém, nesse caso, seria necessário oferecer um desconto muito robusto — para uma ação já fortemente depreciada — para conseguir demanda por esses papéis.
Mas na avaliação de um gestor, mesmo com uma estratégia de saída via mercado, a Oncoclínicas sofreria na bolsa.
“Essas posições valem hoje mais de R$ 1 bilhão. A partir do momento em que o Goldman anuncie a venda de um pedaço dessa participação, todo mundo deve acompanhar, porque o mercado pode achar que ele vai vender tudo. É uma situação muito difícil para a empresa”, disse.
Procurado, o Goldman Sachs não quis fazer comentários além do comunicado encaminhado à CVM.
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