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Uma queda na demanda pela moeda americana poderia gerar um cenário de hiperinflação nos EUA e contagiar as demais economias emergentes
O dólar deixará de ser a moeda mais utilizada para transações internacionais. Ao menos é isso que prevê Frank Giustra, co-presidente do International Crisis Group (ICG), em um novo documento publicado pelo grupo nesta quarta-feira (03).
Esta é a quarta parte de uma sequência de matérias sobre a hegemonia do dólar norte-americano como principal moeda para transações do planeta. Aqui você pode ler as partes três, dois e um.
Para embasar o argumento, o ICG volta à época do tratado de Bretton Woods, pós Segunda Guerra Mundial, que definia que o dólar teria o lastro em ouro e outros países teriam reservas em moeda norte-americana — consolidando, assim, o poder dos EUA como potência global.
Essa hegemonia durou praticamente até o ano de 1971, quando o então presidente Richard Nixon determinou que a emissão de dólar não estaria mais ligada à quantidade de ouro no Tesouro americano.
Desde então, as trocas de mercadorias, commodities e produtos seriam em dólar. Essa “majestade” durou até a suspensão da Rússia do Swift, o sistema de pagamentos internacional — e aí tudo começou a ir pelo ralo.
A impossibilidade de realizar transações com outros países aproximou a Rússia da China, que se tornou o principal parceiro comercial do país em guerra com a Ucrânia.
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Esse é considerado o “marco zero” do fim da hegemonia do dólar. Isso porque outros países em desenvolvimento e membros dos BRICS — grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (o S vem de South Africa) — dependem de commodities vindas da Rússia, como petróleo, fertilizantes e outros, destaca o documento do ICG.
Somado a isso, havia um ressentimento global desses países da “periferia do capitalismo” contra o dólar. A experiência de trocas usando a moeda chinesa, o renminbi — ou yuan, como é popularmente conhecida — foi vista com bons olhos.
Na visão de Giustra, a “desdolarização” não é mais uma questão de “se” irá acontecer — mas de “quando”.
Entretanto, a retirada da “coroa” do dólar não virá sem consequências.
“Qualquer queda repentina na demanda pela moeda americana pode ter consequências desastrosas para os EUA. Isso poderia desencadear uma crise do dólar americano, levando a uma inflação muito alta — ou mesmo hiperinflação — e iniciar um ciclo de dívida e impressão de dinheiro que poderia destruir o tecido social da sociedade”, diz o relatório.
A hiperinflação dos EUA poderia contagiar a economia de outros países. Por outro lado, a dívida soberana de emergentes poderia voltar a patamares mais aceitáveis, já que o dólar mais caro dificulta o pagamento dos credores.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi uma das vozes mais ativas contra a hegemonia do dólar recentemente. Em visita à China, ele reforçou a necessidade de uma moeda comum para trocas comerciais dos BRICS.
A Argentina é um dos países que vem buscando alternativas para escassez de dólares. Já em abril, as importações argentinas em yuan devem subir para US$ 1,04 bilhão após uma série de acordos bilaterais.
No próximo mês, as trocas com a moeda chinesa devem permanecer na faixa entre US$ 790 milhões e US$ 1 bilhão.
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