Sangria do dólar: Argentina quer usar dinheiro emprestado do FMI para segurar o câmbio antes das eleições — mas fundo resiste
Governo quer usar 60% do desembolso do fundo para controlar o dólar, mas a organização estaria disposta a permitir o uso de apenas 20%

A Argentina está a poucos meses das eleições presidenciais e a pauta econômica está no centro dos debates. A escassez de dólar que assola o país fez a inflação superar os 100% em 12 meses — e agora o ministro da Economia, Sérgio Massa, busca uma solução com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Os vizinhos do Brasil têm uma dívida atualizada de US$ 44 bilhões (R$ 218 bilhões ou 21,208 trilhões de pesos) com o FMI, feita através de um programa de empréstimos. Nos últimos meses, o ministro vem tentando adiantar o recebimento de parte desse montante para conter a crise.
Como contrapartida, o país vem desvalorizando o peso (a moeda local) frente ao dólar, visando um aumento das exportações — fortemente afetadas após uma seca na lavoura. O cenário é bom para quem vende para fora, mas péssimo para quem precisa lidar com a perda do poder de compra.
Seja como for, o debate mudou de foco nos últimos dias. A questão não é se a Argentina irá utilizar parte desses empréstimos para conter a desvalorização do peso — mas de quanto desse dinheiro será usado para essa finalidade.
Argentina e FMI: dólar na mesa e peso no chão
Em sua última viagem a Washington — onde fica a sede do fundo —, o ministro da Economia reiterou que a seca no campo drenou o equivalente a US$ 20 bilhões das exportações argentinas e conseguiu um ajuste das metas de acúmulo de reservas, exigidas pelo programa Programa de Facilidade Estendida (EFF, na sigla em inglês).
Mas o que poderia de fato tirar o país da linha d'água seria o recebimento de parte dos empréstimos adiantados. “Eles [o FMI] estão oferecendo um valor baixo, entendendo que é ano eleitoral”, disseram fontes familiarizadas com o tema ao jornal argentino La Nacion.
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Na ponta do lápis
Mais precisamente, Sérgio Massa quer usar 60% do desembolso do Fundo para controlar o câmbio, medida anunciada esta semana pelo Banco Central da Argentina (BCRA, na sigla em espanhol).
Entretanto, a organização dirigida por Kristalina Georgieva estaria disposta a permitir o uso de apenas 20%. O ministro ainda trabalha com a possibilidade de o fundo adiantar mais de US$ 10 bilhões que seriam pagos entre junho e o fim do ano.
Como os acordos ocorrem em sigilo entre o país e o FMI, não se sabe ao certo quanto desse montante ficaria disponível para a Argentina. Em comunicado recente, o fundo afirmou que concordou em antecipar os pagamentos, sem informar valores.
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O tamanho da crise
As reservas argentinas em dólar nunca foram lá grandes coisas. Dados do BCRA mostram que o país teve um pico em 2019, atingindo US$ 77,481 bilhões em moeda estrangeira — graças a uma política de austeridade do governo Maurício Macri, que perdeu as eleições daquele ano para Alberto Fernández.
Desde então, o dólar foi sumindo dos cofres públicos e chegou ao nível crítico de US$ 33,481 bilhões este ano. Na prática, o número pode ser bem menor, já que a maior parte do dinheiro está em ativos de baixa liquidez.

A Argentina vem buscando alternativas para contornar essa crise — e uma das possíveis soluções veio do outro lado do planeta. O aumento do uso de yuan — ou renminbi, a moeda da China — se mostrou uma alternativa viável ao país.
O próprio BCRA também vem incentivando o uso de yuan para exportações e importações. Neste mês, a expectativa é de que as trocas com a moeda chinesa movimentem um volume de dinheiro entre US$ 790 milhões e US$ 1 bilhão.
Eleições na Argentina
Como se não bastasse o FMI no cangote dos argentinos, os hermanos ainda enfrentarão uma acirrada eleição em outubro deste ano.
Nem o atual presidente Alberto Fernández ou sua vice Cristina Kirchner devem concorrer no pleito. Um dos cotados para assumir o lado peronista pela coalizão Frente de Todos é o próprio Sérgio Massa. Seu sucesso político dependerá — e muito — do plano para salvar a economia.
Já com uma ascensão meteórica, Javier Milei, líder do partido La Libertad Avanza e integrante da coalizão Juntos por el Cambio (JxC), é um dos pré-candidatos com chances de sair à frente nas pesquisas eleitorais próximas ao pleito.
Os partidos terão até 13 de agosto para apresentar seus pré-candidatos no chamado Paso (Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias), o que explica o grande número de candidatos e poucas pesquisas de intenção de voto no país até o momento.
Os vencedores disputam a eleição oficial em 22 de outubro e, em caso de segundo turno, em 19 de novembro. Enquanto isso, as eleições para governador correm por lá e desenham uma vitória da Frente de Todos em boa parte do país. No entanto, a vitória do Juntos por el Cambio em algumas províncias preocupa.
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