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Se perguntarmos para qualquer economista da Faria Lima, ouviremos, sem titubear, que a taxa de juros real neutra no Brasil oscilou entre 2% e 12% nos últimos vinte anos
“There is a certain rate of interest on loans
which is neutral in respect to commodity prices,
and tends neither to raise nor to lower them.
This is necessarily the same as the rate of interest
which would be determined by supply and demand
if no use were made of money and all lending were effected
in the form of real capital goods.”
(Knut Wicksell-Interest and Prices, 1898).
Você quer ligar a TV para assistir ao futebol na noite desta quarta-feira, já vai começar.
Você precisa ajudar seu filho mais velho com a lição de matemática, ele só te avisou agora.
E você gostaria também de preparar o risoto de limão siciliano preferido da sua esposa, enquanto ela coloca sua filha mais nova para dormir.
Pois bem, qual é a taxa de juros neutra que permite que você concilie todos esses objetivos, sem acelerar seu estresse, nem desacelerar o hedonismo merecido de uma hard day's night?
Os equilíbrios mais tênues que buscamos em nosso dia a dia não derivam de cálculos premeditados, mas sim de um mergulho cego em direção às profundezas da experiência.
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Partindo da convicção de insucesso, de repente você percebe que deu certo, mais uma vez.
Coloca a cabeça no travesseiro com seu time na sul-americana, seu guri entendendo as operações de radiciação e a família inteira de barriga cheia.
Antes de pegar no sono, você tenta recapitular as últimas horas, na ânsia de decifrar como é que tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo.
Mas não consegue, e nem precisa. A realidade é onisciente e onipresente.
A taxa de juros neutra estava ali, mas ninguém deu conta dela. A mão invisível de Adam Smith se manifesta de diversas formas, ligando o controle remoto, pegando o lápis e acendendo o fogão.
É mais elegante que seja assim, o juiz não deve aparecer mais do que os jogadores em campo.
No entanto, para o Banco Central que se leva a sério demais, todas as taxas precisam ser devidamente calculadas e explicitadas.
Se perguntarmos para qualquer economista da Faria Lima, ouviremos, sem titubear, que a taxa de juros real neutra no Brasil oscilou entre 2% e 12% nos últimos vinte anos.
Ou seja, ninguém sabe qual é o número; não há consenso sequer sobre como calculá-lo.
Hodrick-Prescott? Breakeven inflation? Regra de Taylor com Filtro de Kalman?
Ninguém tem a mais puta ideia, e a variância dos resultados é gigantesca.
Ainda assim, na última ata do Copom, o Bacen calculou que a taxa de juros real neutra, que até pouco tempo era de 4,0%, agora pulou para 4,5%.
Eu mesmo desconfiava de 4,3758%, mas a turma lá deve ter arredondado para cima.
Como era de se esperar, o mercado se ressentiu dessa novidade metodológica, talvez por também estar levando o Banco Central a sério demais.
Como o próprio RCN nos lembrou durante os conflitos com o Lula no começo do ano, o Bacen não tem controle sobre as taxas de juros que realmente importam. Elas são encontradas implicitamente, pari passu, de maneira descentralizada e computacionalmente irredutível.
Não há como saber exatamente qual é a taxa de juros neutra do Brasil hoje; só sabemos que ela provavelmente será diferente ao final de 2024, e diferente de novo ao fim de 2025.
A noite de amanhã já será diversa da noite de hoje.
Mas fique tranquilo, depois pensamos nisso; uma coisa de cada vez.
Por enquanto, dever cumprido; boa noite e bons sonhos.
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