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A desvalorização cambial na Argentina, somada ao preço ainda alto da gasolina no Brasil, eleva o fluxo de motoristas na fronteira dos países
Passa das 22h30 em Puerto Iguazú, a pacata cidade da Argentina que faz fronteira com Brasil e Paraguai. É sexta-feira, e o movimento nas ruas é maior do que se imaginaria para uma localidade de meros 100 mil habitantes: bares e restaurantes estão quase cheios.
Mas, se você realmente busca agito, esqueça a boemia — a casa mais disputada da cidade não serve bebidas. Carros enfileiram-se na avenida Misiones, quarteirão após quarteirão; tudo por uma chance de entrar no posto de gasolina Shell, o único que funciona 24h por dia.
A busca por combustível reúne os moradores locais e os habitantes de Foz do Iguaçu, o lado brasileiro da tríplice fronteira. Dia após dia, as filas se repetem nos quatro postos do município argentino, num espelho fiel da situação econômica dos dois países.
Em meio a uma inflação acumulada de 71% nos últimos 12 meses — o índice oficial saltou 7,4% apenas em julho —, a Argentina passa por uma situação caótica: a população tenta gastar seu dinheiro o quanto antes, de modo a evitar uma corrosão maior do poder de compra.
Ou seja: há uma corrida aos caixas eletrônicos, aos postos de gasolina e aos mercados — chama a atenção o número de pequenos comércios abertos noite adentro. A desvalorização de 30% do peso argentino em relação ao dólar numa janela de apenas um ano também pressiona a economia local.
O Brasil não tem números tão chocantes de inflação, mas também vive seus dramas particulares: no momento mais crítico da alta global do petróleo, o litro da gasolina chegou a ser vendido acima dos R$ 8,00 em muitas regiões do país.
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E, por mais que os preços nas bombas brasileiras tenham recuado nos últimos meses, fato é que os postos da Argentina ainda têm preços atraentes, dada a forte desvalorização da moeda local.
Pelo câmbio oficial, um real equivale a pouco mais de 27 pesos; há um ano, a relação era de um para 18. Fazendo as contas, encher o tanque na Argentina ainda vale a pena para o motorista brasileiro, por mais que a tarefa envolva horas de espera e possíveis armadilhas.
Afinal, as dificuldades econômicas enfrentadas pelos nossos vizinhos, somadas à demanda por combustível pelos brasileiros, criam um ambiente cheio de distorções — e pessoas dispostas a explorá-las. Há um jeitinho argentino para quem não quer passar a madrugada numa fila.
A reportagem do Seu Dinheiro esteve em Puerto Iguazú na semana passada e conta os detalhes dessa situação bastante peculiar.

“Eu vou à Argentina encher o carro a cada dois dias”, me disse um motorista de aplicativo. A bordo de um Renault Kwid, ele pediu para não ser identificado nesta matéria — a corrida, de pouco mais de 10 quilômetros, custou perto de R$ 24,00.
Num relato que foi confirmado por outros moradores de Foz, ele afirmou que é comum esperar mais de duas horas para abastecer num posto do outro lado da fronteira, isso sem contar o tempo gasto na imigração — e que nem todo mundo é atendido da mesma maneira.
E isso porque os motoristas brasileiros são bem-vindos, mas só até a página dois: é comum que os estrangeiros tenham que pagar um valor ligeiramente maior que o oficial para usar as bombas na cidade.
Há outros mecanismos que limitam o acesso dos não-argentinos à gasolina local: alguns postos fixam horários específicos para atender os brasileiros; outros limitam a quantidade de combustível vendida aos forasteiros.
Mas vale a pena enfrentar tantos obstáculos para abastecer o carro? A economia é grande o suficiente para compensar o tempo e o desgaste envolvidos no processo?
Vamos aos números: a cidade argentina conta com poucos postos de combustível; o litro de gasolina custava algo na faixa de 150 a 165 pesos argentinos na sexta-feira, 26 de agosto — o posto Shell citado no começo do texto é o mais caro.
Considerando o câmbio de um real para 27 pesos, chegamos a um valor entre R$ 5,50 e R$ 6 por litro nos postos argentinos. Na ponta do lápis, não parece ser um preço tão competitivo assim em relação ao visto em Foz do Iguaçu.
Veja abaixo como se comportou o litro da gasolina nos postos da cidade paranaense ao longo das últimas semanas, de acordo com levantamento feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP):

Só que a conta não é tão simples assim: é preciso levar alguns outros fatores em consideração. Em primeiro lugar, há a taxa de câmbio em si — a cotação oficial do peso argentino não tem muita serventia no dia a dia.
No comércio, nos bares e nos restaurantes de Puerto Iguazú, é adotada uma taxa informal de conversão entre pesos e reais; para os brasileiros, é muito mais vantajoso trocar o dinheiro nesse mercado informal do que recorrer a uma casa de câmbio.
Voltemos à taxa oficial, de um real para 27 pesos. A reportagem do Seu Dinheiro chegou a encontrar um restaurante que pagava 50 pesos por cada real; em geral, os comércios fazem uma conversão de, no mínimo, 1:40.
É mais um retrato da situação econômica delicada da Argentina: com a moeda local perdendo valor de maneira acelerada, a população prefere ter qualquer outra divisa mais forte — reais, dólares ou euros — a ter pesos na carteira. E, para tal, aceita pagar caro.
Portanto, se adotarmos esse câmbio extra-oficial para os preços praticados nos postos, de 150 pesos, chegamos a um valor de R$ 3,00 pelo litro de gasolina. Ou seja: abastecer na Argentina ainda é negócio, mesmo que seja cobrado um valor mais alto para os brasileiros.
E ainda há um segundo atrativo: a gasolina argentina é pura, enquanto o combustível vendido no Brasil é uma mistura contendo 27% de etanol anidro em sua composição. Portanto, além de mais barata, a alternativa rende mais.
Considerando tudo isso, o motorista de aplicativo que conversou com a nossa reportagem não hesita ao cruzar a fronteira para abastecer, por mais que dirija um modelo econômico — o Kwid faz mais de 15 km/l de gasolina em tráfego urbano, de acordo com a Renault.
“Mas eu só vou nos postos, não quero mais saber dos capetas”, disse ele.
''Capeta'' é o apelido dado aos argentinos que revendem combustível aos brasileiros; ao menos, no grupo de WhatsApp que compartilha os contatos desses vendedores clandestinos — o motorista que falou conosco é um dos membros dessa comunidade.
Funciona mais ou menos assim: os residentes de Puerto Iguazú abastecem ao preço de tabela, sem maiores complicações; eles, então, esvaziam seus tanques em galões, vendendo-os diretamente aos vizinhos da fronteira — uma espécie de mercado paralelo da gasolina.
De um lado, os valiosos reais; do outro, o cobiçado combustível — e, na fronteira entre Brasil e Argentina, os dois lados se encontram para a troca. O preço cobrado é mais caro que o dos postos, mas o tempo perdido é quase zero.
Só que, ao optar pela informalidade, os dois lados da negociação estão sujeitos a uma série de fatores que fogem ao controle das autoridades. E essa imprevisibilidade é a razão pela qual o motorista não recorre mais aos revendedores.
Ele contou à reportagem que, ao abastecer com um “capeta”, seu carro começou a engasgar em poucos minutos — o combustível tinha sido diluído em algum solvente, o que lhe causou um prejuízo de quase mil reais em reparos.

Poucos dias após a visita da reportagem do Seu Dinheiro a Puerto Iguazú, o presidente Jair Bolsonaro esteve na região da tríplice fronteira: no dia 31 de agosto, ele inspecionou as obras da nova ponte que ligará Foz do Iguaçu a Ciudad del Este, no Paraguai.
À imprensa, Bolsonaro ressaltou a redução nos preços dos combustíveis vista nas últimas semanas; segundo ele, os brasileiros antes iam ao Paraguai para abastecer seus carros; agora, ocorre o movimento contrário, com um fluxo de paraguaios aos postos de Foz.
A queda na gasolina tem sido um dos carros-chefe de Bolsonaro em sua campanha para a reeleição: com o forte alívio visto nas bombas de combustível, a inflação tem passado por um alívio relevante no país.
O discurso de fortalecimento da economia ainda engloba outras frentes: a redução no desemprego, as projeções de maior crescimento do PIB e o aumento do Auxílio Brasil, de R$ 400 para R$ 600, são outras apostas do atual presidente a menos de um mês da eleição.
As falas de Bolsonaro dão grande peso às medidas adotadas pelo governo, como a redução de impostos federais sobre os combustíveis. No entanto, fato é que boa parte do alívio no preço da gasolina se deve à queda das cotações do petróleo no exterior.
A política de preços da Petrobras, como se sabe, está atrelada às flutuações da commodity — e, nos últimos meses, o petróleo saiu das máximas e voltou a ser negociado abaixo dos US$ 100 por barril.
Nesse contexto, a estatal teve espaço para cortar o preço da gasolina vendida às distribuidoras, criando um ciclo de alívio para a economia como um todo. Tanto é que a inflação medida pelo IPCA ficou negativa em 0,68% em julho, apoiada no recuo dos preços de combustíveis e energia.
Vale lembrar, no entanto, que a deflação mostrada pelo IPCA de julho não atinge todos os setores da economia de maneira unânime. Enquanto os gastos com transportes diminuíram, outras áreas importantes do dia a dia do brasileiro continuam com preços salgados.
É o caso do subgrupo de alimentação e bebidas, que teve alta de 1,3% em julho, e de despesas pessoais, com salto de 1,13%. Ou seja: o alívio nas bombas de combustível traz o IPCA para baixo, mas os efeitos da inflação ainda são sentidos no país.
E é nesse sentido que a busca por combustível barato ainda movimenta o dia a dia de Puerto Iguazú: com o custo de vida ainda muito elevado no Brasil, qualquer economia se mostra atrativa — ainda mais para trabalhadores informais, como o motorista de aplicativo que falou com o Seu Dinheiro.
Numa conta de padaria, os R$ 24,00 obtidos com a corrida que atendeu a reportagem equivalem a 4,63 litros de gasolina no Brasil, mas podem render 8 litros na Argentina — e o combustível por lá é mais puro que o daqui, lembre-se.
Até que o peso argentino volte a se valorizar, ou até que o custo geral do Brasil volte a cair, as filas em Puerto Iguazú devem continuar extensas.
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