‘Fritado’ por Cristina Kirchner, ministro da Economia da Argentina renuncia; país toma medidas para conter a saída de dólares
Martín Guzmán pediu demissão em meio à crise política que contrapôs o presidente Alberto Fernández e o grupo liderado pela vice-presidente Cristina Kirchner

O ministro da Economia da Argentina, Martín Guzmán, renunciou ao cargo neste sábado, 2, em meio à crise política que contrapôs o presidente do país, Alberto Fernández, e o grupo liderado pela vice-presidente Cristina Kirchner. O governo ainda não anunciou um novo nome para comandar a pasta.
Após Guzmán anunciar renúncia ao cargo, o secretário de Fazenda do governo, Raúl Enrique Rigo, também informou que deixará a equipe econômica. Número 2 da pasta desde 2019, Rigo defendia a política capitaneada pelo chefe e criticada pela vice-presidente Cristina Kirchner.
Em mais de duas décadas de carreira, Rigo teve passagens por diversas áreas do serviço público e atuou como Subsecretário do Orçamento Nacional entre 2002 e 2017. O economista também foi assessor presidencial em diferentes governos.
Carta publicada no Twitter
Em carta endereçada a Fernández publicada no Twitter, Martín Guzmán não especificou os motivos que levaram à decisão, mas defendeu a política econômica adotada desde que tomou posse, em 2019. Em particular, o economista de 39 anos enfatizou os desafios na reestruturação da dívida externa, que vinha sendo duramente criticada por Kirchner.
"Jogamos muito duro, com ações concretas, a grande maioria invisíveis ao público devido às características do problema a ser resolvido, e não com retórica inconsequente", escreveu.
Guzmán buscou apresentar uma retrospectiva da sua gestão à frente do ministério, a começar pela recessão deflagrada pela pandemia de coronavírus.
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Segundo ele, as autoridades argentinas trabalharam para mitigar o "golpe tremendo" causado pela covid-19. "Quando mais necessitava do Estado para conseguir proteger o tecido social e produtivo da nação, nos encontramos com um Estado profundamente debilitado", pontuou.
O foco da carta, no entanto, se concentrou na questão do endividamento. Em 2020, Buenos Aires fechou um acordo para reestruturar US$ 65 bilhões em dívida soberana com três grupos de credores estrangeiros. Em seguida, o governo voltou o foco para o passivo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), emitido durante a gestão do ex-presidente Mauricio Macri, que enfrentou uma crise de forte desvalorização do peso argentino.
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Em março deste ano, o país latino-americano acertou um acordo para pagar cerca de US$ 44 bilhões ao FMI entre 2026 e 2034. Como contrapartida, a gestão de Guzmán se comprometeu a reduzir o déficit fiscal de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 para 0,9% em 2024.
O pacto, entretanto, dividiu o governo de Fernández. A vice-presidente Kirchner fez diversas críticas públicas às promessas de redução dos gastos públicos. A ex-presidente também demonstrou insatisfação com a política energética e a diminuição dos subsídios a combustíveis.
Inflação
A Argentina enfrenta uma das mais elevadas taxas de inflação no mundo, com o índice de preços ao consumidor em alta de mais de 60% na comparação anual de maio.
O cenário intensifica o movimento de fuga de dólares do país, cujas reservas internacionais estão em níveis ínfimos. Desde o início do ano, o dólar avançou mais de 20% ante o peso argentino, cotado a 125,453 pesos na sexta-feira, dia 1º.
Argentina veta parcelamento de compras no exterior para conter a saída de dólares
O Banco Central da República da Argentina (BCRA) decidiu proibir o parcelamento de compras realizadas no exterior, em mais um esforço para conter a saída de dólares do país e mitigar a recente desvalorização do peso argentino.
Em comunicado, a autoridade monetária informou que, a partir da próxima segunda-feira, dia 4, operadoras de cartão de crédito e provedoras de serviços financeiros poderão autorizar compras fora do país apenas à vista. A medida deve conter o consumo estrangeiro, já que a nação latino-americana enfrenta uma série de dificuldades econômicas.
Desde o início do ano, o dólar avançou mais de 20% ante o peso argentino, cotado a 125,453 pesos nesta sexta-feira, 1. Buenos Aires dispõe de reservas limitadas de moedas internacionais, em um cenário de inflação elevada e aperto monetário. No final do mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou o desembolso imediato de cerca de US$ 4 bilhões ao país.
*Com Estadão Conteúdo.
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