A Tesla, de Elon Musk, está provocando uma revolução em uma indústria maior que a de carros elétricos — e ninguém está falando sobre isso!
Empresas que conseguirem entrar na casa dos consumidores com seus produtos terão a oportunidade de organizar o mercado de geração alternativa e autônoma de energia

Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. Geralmente, costumo evitar assuntos que tangenciam as ações da Tesla ou notícias correlatas sobre Elon Musk.
Nego todos os pedidos de entrevista para comentar, por exemplo, a novela envolvendo as ações do Twitter.
O motivo é simples: como a mídia é obcecada por ele, as fontes sobre o tema são abundantes. No geral, tenho pouco ou nada a acrescentar.
Na semana passada, porém, mostrando uma vocação natural em privilegiar a fofoca em detrimento da inovação, nenhum veículo de grande circulação publicou sobre o que, na minha opinião, é uma das maiores inovações da Tesla nos últimos anos.
Essas inovações pouco noticiadas, além de serem uma avenida de crescimento de longo prazo, são um chacoalhão em toda a indústria de geração de energia ao redor do mundo, uma indústria imensa e cada vez mais próxima da disrupção tecnológica.
Uma geradora de energia virtual
Há alguns meses, antes de os preços da gasolina explodirem, quem assustava o nosso bolso de consumidor eram as faturas da energia elétrica.
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A famosa "bandeira vermelha" fez explodir o valor das nossas contas e nos presenteou com infinitos anúncios de rádio e televisão convocando todos a passarem menos tempo no chuveiro.
O baixo nível dos principais reservatórios do país, antes da temporada de chuvas que tivemos em 2022 e que normalizou o quadro hídrico nacional, colocava em risco a nossa capacidade de geração, com muitos especialistas falando abertamente sobre o risco de racionamento.
No Brasil, cerca ⅔ da nossa capacidade de geração de energia vem das usinas hidrelétricas. A maior delas, Itaipu, é uma obra de infraestrutura colossal inaugurada em 1984, mas cujas obras se estenderam por mais de 9 anos.
Das hidrelétricas aos parques eólicos, usinas geradoras de energia são projetos de infraestrutura grandiosos, com impactos ambientais importantes, além de demandarem todo um planejamento regulatório.
No curto prazo, a única resposta que os mercados são capazes de prover a qualquer choque no ecossistema de geração vem através dos preços: no Brasil, vimos isso com a bandeira vermelha. Na Europa, com as sanções à Rússia, os preços do gás dispararam, respondendo também a um descasamento entre oferta e demanda.
A única maneira de reduzir o risco do sistêmico é diversificando as fontes de geração, o que é muito mais fácil dizer do que fazer.
Geração distribuída
Hoje, tanto no Brasil como ao redor do mundo, não é incomum que consumidores de maior poder aquisitivo equipem suas casas com painéis solares.
Como ainda não temos tecnologias de baterias que permitam armazenamento de longo prazo, é comum que mesmo uma residência equipada com painéis mantenha também a sua integração com a rede pública de distribuição.
Agora, o grau dessa integração varia em termos de incentivos e tecnologia.
Por exemplo, é comum que residências sustentáveis, em determinada época do ano, produzam mais energia do que irão utilizar.
Na ausência de uma capacidade de armazenamento de longo prazo, por que essas residências não poderiam, elas mesmas, injetar esse excedente de volta no sistema, funcionando como pequenas unidades de geração?
Essa é uma pergunta respondida do ponto de vista tecnológico, porém que ainda desperta discussões em diversos lugares do mundo, especialmente sobre o ponto de vista regulatório.
O experimento da Tesla
Há muitos anos, a Tesla comercializa sua própria bateria de lítio para uso residencial, a Tesla Powerwall.
Desde o ano passado, eles trabalham no "recrutamento" de clientes que moram na Califórnia, para sua primeira "VPP", que é a sigla em inglês para geradora de energia virtual.
Ao concordar com os termos da VPP, um cliente que possua a suíte de produtos da Tesla passa a injetar energia no sistema de distribuição da Califórnia, sempre que houver a necessidade para isso (em geral, quando os preços sobem).
A VPP, que teve seu primeiro experimento na semana passada, remunera os donos da Powerwall com US$ 2 por cada kWh de energia injetado no sistema.
Com coordenação, esse primeiro experimento contou com 2,3 mil residências e uma capacidade de geração injetada no sistema de 16,5 MW. Essa energia, na média, é suficiente para abastecer praticamente 15 mil residências durante 1 mês!
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Este é apenas o primeiro passo da Tesla
Com o sucesso "VPP" da Tesla, é provável que uma parcela cada vez maior dos seus clientes se interessem em entrar no programa.
Esse interesse cria uma oportunidade de mercado enorme para a Tesla. Afinal, a maioria das pessoas não irá comprometer tempo e sanidade mental para operar como trader do mercado de energia local.
Serão a Tesla e outras empresas que conseguirem entrar na casa dos consumidores com seus produtos que organizarão esse mercado, fornecendo ainda mais incentivos para a migração dos consumidores para formas de geração alternativa e autônoma.
Em entrevistas passadas, Elon Musk chegou a mencionar que a oportunidade da Tesla em geração de energia distribuída pode ser até maior do que o seu negócio de veículos elétricos.
Como escrevi na semana passada, há um interesse nacional nos EUA, o maior mercado do mundo, por desenvolver e financiar novas linhas de produtos no segmento de energia sustentável.
A Tesla é apenas mais um exemplo que reforça a necessidade do investidor de tecnologia em calibrar seu portfólio com nomes expostos ao setor. Na semana passada, mencionei as ações da First Solar como uma das minhas favoritas.
Até semana que vem,
Richard Camargo
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