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Mesmo sendo uma empresa cerca de 50% maior em todas as métricas, as ações do PayPal estão de volta ao patamar pré-pandemia
Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. Até a última segunda-feira, as ações do gigante de pagamentos Paypal (que você pode acessar através de BDRs pelo ticker PYPL34), acumulavam uma queda de 63% das suas máximas, em dólares.
O que aconteceu com esta ação nos últimos 24 meses é um MBA completo em finanças e análise de ações.
Na coluna de hoje, quero te contar um resumo dessa história e comentar um pouco sobre o atual momento de Paypal.
Assim como tantas outras empresas digitais, o PayPal passou pelo seu equivalente do "5 anos em 1" assim que todos nos fechamos em nossas casas, isolados devido à covid-19.
Cerca de um quarto de todos os pagamentos eletrônicos nos EUA são processados pelo PayPal.
Ao final de 2019, portanto antes da pandemia, eles encerraram o ano com 305 milhões de usuários ativos; ao final de 2020, esse número subiu para 377 milhões, um salto enorme de 23%.
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Na esteira do aumento do número de usuários, o PayPal observou melhoras rápidas em todas as suas principais métricas:
O TPV, "total payment value", que mede o valor total transacionado nos canais do PayPal, saltou de US$ 711 bilhões para US$ 936 bilhões em 2020; em 2021, o número superou o impressionante patamar de US$ 1,2 trilhão.
O número de transações médio por usuário, turbinado por novos produtos como a negociação de criptomoedas, saltou de 40,6 transações por ano, para 45,4 transações por ano.
Todas essas métricas operacionais se refletiram nos resultados financeiros: em 2020, a receita saltou de US$ 17,7 bilhões para US$ 21,4 bilhões, com direito a mais de três pontos percentuais de expansão em margem a nível de fluxo de caixa.
Em poucos meses, o PayPal passou de uma boa empresa, para uma "boa empresa em rápido crescimento e expansão de margens".
Com os bons ventos, veio a apreciação das ações.
Quando as ações sobem, sobe também a pressão sobre a empresa para entregar resultados.
Como muitos outros executivos, o time do PayPal se empolgou: no auge da pandemia, eles chegaram a falar com investidores sobre um guidance de 750 milhões de contas ativas e um crescimento sustentável de 20% ao ano das receitas.
E então, algumas luzes de alerta foram acesas.
Primeiro, as ações caíram 6,23% após o resultado do 2T21. Na margem, os indicadores mostravam desaceleração.
Alguns meses depois, em outubro de 2021, vazam boatos na mídia de que o PayPal estaria em conversas para adquirir o Pinterest, por um valor aproximado de US$ 40 bilhões.
Imediatamente, as ações do PayPal entraram num espiral de queda livre.
Além de não encontrarem muita aderência entre os negócios de Pinterest e PayPal, os investidores se assustaram com o preço.
Como referência, enquanto escrevo essa coluna, o Pinterest vale US$ 17 bilhões, menos da metade do valor estimado veiculado pela notícia da época.
Mais do que a falta de aderência e o preço alto, alguns investidores notaram um fator mais importante nas entrelinhas: o PayPal estava de fato desacelerando, e parecia "desesperado" para comprar crescimento e sustentar suas ações.
Na época, debruçado sobre os prospectos da Paypal, um dos pontos que mais chamou a minha atenção (e de outros investidores), foi a estrutura de incentivos do management.
No consolidado, 75% da remuneração variável de curto prazo do management dependia apenas do crescimento das receitas; em longo prazo, 50% depende deste mesmo vetor.
O incentivo é claro: é preciso adicionar receita, custe o que custar.
Se o processo for dilutivo e não gerar valor absolutamente nenhum para os acionistas da companhia (como parecia ser o caso do M&A com a Pinterest), ainda assim o management receberia seu bônus, que depende da receita consolidada, e não uma métrica diluída, como lucro por ação ou geração de caixa por ação.
Outro fator explicativo para o bônus dos executivos seria o crescimento dos usuários ativos, o que gera um incentivo para gastar com marketing de performance, mesmo quando os resultados não forem satisfatórios.
Nos dois trimestres seguintes, as ações do PayPal caíram 10,46% (3T21) e impressionantes 24,5% após o último resultado de 2021.
No último resultado do ano passado, um grandes temas foi a desaceleração em novos usuários: o management disse ao mercado que boa parte das campanhas de marketing executadas nos meses anteriores seguiram estratégias de "cashback" e foram criadas cerca de 4,5 milhões de contas "fantasmas".
Em retrospecto, fica claro como as metas dos executivos do PayPal não estavam alinhadas aos interesses de seus acionistas de longo prazo.
Mesmo sendo uma empresa cerca de 50% maior em todas as suas métricas operacionais e financeiras, as ações do PayPal estão de volta aos patamares anteriores à pandemia.
O valor criado em termos operacionais foi destruído em termos reputacionais.
Investir em PayPal, neste momento, além de uma aposta no seu crescimento (que eu acredito ser ainda formidável), é uma aposta de que os seus executivos tenham aprendido a lição.
Neste momento, não mantenho uma recomendação para as ações em nenhuma das séries que escrevo na Empiricus, porém, negociado a apenas 24 vezes os lucros estimados para os próximos 12 meses, PYPL será com certeza uma ação que eu seguirei acompanhando de perto nos próximos meses.
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