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Parte fundamental do estudo de uma ação é entender não só a cabeça de quem tem uma tese que vá em linha com a sua, mas também a de quem pensa o contrário
Quem acompanha o Market Makers sabe que nossa missão é ser o fio que conecta o investidor institucional ao investidor comum.
Entre as consequências geradas por essa missão, o feedback instantâneo de nossa qualificada audiência a cada novo episódio ou newsletter é o que alimenta a essência do que fazemos - gerar, compartilhar e acumular conhecimento.
O exemplo mais recente desse círculo virtuoso aconteceu no ep #09 que foi ao ar na última quinta-feira.
No último episódio, os dois convidados tinham uma visão bem clara pra cada um dos maiores bancos do Brasil.
A Sara prefere Bradesco por ser um banco mais exposto ao varejo e que pode capturar melhor uma possível retomada do consumo agora que a desaceleração da inflação deve corroer menos o bolso do brasileiro.
Já o Ciro prefere Itaúsa por acreditar na capacidade do banco Itaú de entregar crescimento com ROE (sigla em inglês para retorno sobre o patrimônio líquido) de dois dígitos altos ao longo dos próximos anos.
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Lembrando que até pouco tempo atrás, muitos falavam que o setor seria disruptado pelas fintechs.
O tempo passou, a taxa Selic subiu, a maioria das fintechs passaram a ter dificuldades em dar crédito e a narrativa de que os bancos iriam morrer ficou pra trás.
Agora, temos visto muita gente gostando do setor, mas longe de ser uma tese consensual.
Entre os feedbacks que recebemos, um gestor que acompanha o Market Makers de perto ouviu o episódio e disse que não acha o setor de bancos essa pechincha.
Apesar da capacidade dos bancos de se manterem rentáveis por mais tempo, as ações dos dois bancos devem trazer, no melhor dos cenários, um retorno mediano nos próximos anos.
Esse gestor, inclusive, citou um estudo que o time de análise do Santander soltou na última sexta (25), usando ele como justificativa para endossar a sua tese.
Em um relatório de 28 páginas, os analistas Henrique Navarro, Arnon Shirazi e Anahy Rios justificaram porque o Itaú e o Bradesco não estão tão interessantes assim.
O principal motivo apontado pelos analistas é o aumento de custo de capital (“Ke”) que precisa ser considerado no valuation dos bancos tendo em vista que eles acreditam em um cenário mais desafiador à frente, com possibilidade de recessão no Brasil, elevação do endividamento das famílias, aumento da inadimplência, falta de visibilidade macroeconômica, risco regulatório e taxa Selic alta por mais tempo.
Ou seja, mesmo que os ROEs de Bradesco e Itaú se mantenham em patamares elevados, o aumento do Ke já seria suficiente para o investidor exigir pagar um múltiplo menor — nesse caso o múltiplo preço/valor patrimonial —, dado o menor retorno acima do custo de capital.
Essas conversas me trouxeram duas reflexões: a primeira é a de que sua visão sobre bancos como investidor ou mero curioso pode ser a mesma da Sara, do Ciro ou do terceiro gestor.
São justamente essas divergências que alimentam os fluxos de informações, geram diferentes opiniões e formam a liquidez necessária para o funcionamento dos mercados tal como conhecemos.
E a segunda, por fim, é a de que uma parte fundamental do estudo de uma ação é entender não só a cabeça de quem tem uma tese que vá em linha com a sua, mas entender também a de quem pensa o contrário - e que portanto, pode estar na ponta oposta quando você for iniciar um investimento.
O FFT de hoje traz como recomendação a carta de julho da Desert Lion Capital, gestora de ações focada em small caps da África do Sul e adepta do value investing - filosofia de investimentos que compartilhamos no Market Makers.
Na carta, a gestora traz os 10 pilares do seu processo de investimento, desde como as ideias são geradas até a hora em que são vendidas da carteira. Abaixo, o pilar que eu mais gostei:
"Antes de considerar a compra e o tamanho da posição, nosso passo final é definir e considerar a anti-tese. [...] Embora nenhum de nós seja imune a preconceitos, existem muitas estratégias que podem ajudar a gerenciar e minimizar sua influência. Sou particularmente cauteloso com o viés de confirmação. Ao analisar uma empresa que inicialmente parece promissora, fica-se inconscientemente mais aberto à confirmação de evidências, podendo levar a pontos cegos e a uma avaliação excessivamente otimista. Para gerenciar esse risco, compilamos uma anti-tese, procurando evidências que não confirmem e buscando argumentos contrários de vários investidores e especialistas. [...] Invertemos, invertemos, invertemos, perguntando o que deve acontecer para que o investimento não dê certo." (Link da carta aqui).
Abraço,
Matheus Soares
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