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Não se trata de uma situação trivial e dificilmente haverá um desfecho pacífico, mas um cenário catastrófico é improvável
Não se fala sobre outra coisa. A crise na fronteira entre Rússia e Ucrânia, que na verdade já existe desde 2014, se aprofundou consideravelmente nas últimas semanas, em especial mais recentemente, quando o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, alertou que uma invasão russa poderia ocorrer “a qualquer momento”.
Uma ligação durante o fim de semana entre o presidente Joe Biden e Vladimir Putin não produziu nenhum avanço significativo sobre a situação. Os EUA não estão cedendo às exigências russas e, com isso, entendem que uma invasão pode ser iminente.
Foi o suficiente para que muitos investidores ao redor do mundo colocassem seus chapéus de especialistas em geopolítica avançada para opinar sobre os diferentes cenários que se apresentam para a situação. Não é trivial; aliás, muito pelo contrário, o tema é extremamente complexo e delicado. Neste sentido, não podemos ser levianos ao tratarmos dele.
Tenho me debruçado junto de meus colegas sobre os posicionamentos dos verdadeiros estudiosos do tema, de modo a formarmos um entendimento coeso, coerente e robusto o suficiente para suportar eventuais elucubrações relacionadas aos desdobramentos sobre os mercados financeiros globais. É tal parecer que quero expor neste texto.
Antes de prosseguirmos, vale recapitular um pouco o que está acontecendo.
O governo russo vem acumulando mais de 130 mil soldados ao longo dos últimos dias na fronteira ucraniana, mesmo que ainda negue que esteja planejando algo.
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Não se trata de uma simplista ambição expansionista, até mesmo porque a Rússia já é o maior país do mundo em extensão territorial. Neste caso, listei a seguir alguns motivos que provocam a movimentação agressiva de Putin frente ao vizinho, desafiando a estabilidade internacional.
i) Reafirmar a influência russa perdida com o colapso da União Soviética;
A Ucrânia foi membro da União Soviética até 1991 e, desde então, tem sido uma democracia soberana dotada de uma política externa que oscila entre posições pró-russas e pró-europeias. A seguir, um mapa do The Washington Post ilustrando o tamanho da antiga URSS.
ii) Impedir que os governos ocidentais, particularmente os EUA, aumentem sua influência pró-democracia e pró-valores ocidentais na Europa Oriental, com o compromisso de que a Ucrânia nunca se juntará à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan);
A Rússia enxerga a Ucrânia como um importante pivô da influência da Otan na região. Lembre-se de que maior influência sobre a região do Leste Europeu pode se traduzir em maior influência sobre a Eurásia.
Diluir um maior alinhamento da Ucrânia à União Europeia e à Otan, ao mesmo tempo que expande o território russo em uma região tão estratégica, é extremamente interessante para Putin.
A seguir, note como a Otan vem avançando sobre as proximidades do território russo desde a queda da União Soviética.
iii) De todas as ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia é a mais culturalmente ligada à Rússia, e Putin até afirmou que a Rússia e a Ucrânia são “uma só nação”;
Como podemos ver a seguir, a Rússia teria controle étnico relevante de boa parte da Ucrânia — de acordo com um censo de 2001 (o mais recente), mais de 50% da população da Crimeia e de Donetsk identificou o russo como sua língua nativa. O número deve ter crescido com os incidentes dos últimos dez anos.
Naturalmente, há laços históricos, culturais e econômicos com o país, que estava sob o domínio russo durante o governo soviético (historicamente, aliás, Kiev foi a primeira capital dos russos).
iv) Por fim, temos o interesse de domínio sobre o poderio econômico e, principalmente, energético da região.
A Rússia é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural. Com isso, os investidores estão preocupados que o conflito com a Ucrânia possa danificar a infraestrutura de energia na região e que as sanções à Rússia por nações ocidentais possam afetar as exportações do país, até mesmo porque a Ucrânia é rota para alimentar a Europa com gás.
Dessa forma, há preocupações de que Putin possa usar as exportações de petróleo e gás para pressionar a Europa, que depende da Rússia para seus suprimentos de energia (a Rússia fornece cerca de 40% do fornecimento de gás natural da UE via gasoduto). A situação é especialmente delicada, dada a tensão já existente nos mercados de petróleo.
Avançando para as últimas semanas, os avisos de que a Rússia poderia iniciar uma ação militar na Ucrânia “a qualquer momento” chamaram a atenção para como os mercados poderiam reagir, especialmente nos preços da energia. São três os cenários mais plausíveis com os quais os especialistas têm trabalhado:
Se a invasão se concretizasse, os europeus de repente estariam vivendo em um mundo no qual a Rússia teria o direito de intervir em qualquer lugar próximo sempre que sentisse que interesses importantes estavam em jogo. É por isso que os líderes ocidentais têm tentado freneticamente elaborar uma solução diplomática para o problema.
Em resposta, os EUA continuam a ameaçar com sanções econômicas caso Moscou avance com uma invasão, embora não envie tropas em caso de conflito.
Os piores dos casos seriam cortar a Rússia do sistema internacional de pagamentos SWIFT e o impedimento completo do Nord Stream 2 — um gasoduto que sai direto da Rússia em direção à Alemanha e dobra a capacidade do pipeline Nord Stream 1 já em uso, enfraquece relativamente a Ucrânia (o gás antes tinha que passar pela Ucrânia e pela Polônia para chegar à Europa Ocidental, o que encarecia o custo do gás).
Vendo tais desdobramentos, Kiev alertou que Moscou já havia iniciado uma "guerra híbrida", que inclui ataques cibernéticos, pressão econômica e falsas ameaças.
No setor de energia, por exemplo, os preços do gás europeu subiram até 14% na segunda-feira devido a preocupações de que um conflito possa abalar a oferta, enquanto o petróleo bruto continuou a subir, superando os US$ 95 pela primeira vez desde 2014, devendo buscar em breve os US$ 100 por barril.
Entretanto, gás, petróleo e pressões inflacionárias são os desdobramentos mais fáceis de verificarmos. Há também as consequências sobre os mercados agrícolas, já que a Rússia e Ucrânia correspondem a 29% de todo o mercado global de trigo, e no segmento de minerais, uma vez que a Rússia exporta muito alumínio, paládio e níquel para grande parte do mundo — eventuais sanções poderiam afetar o mundo inteiro, que depende de tais materiais russos.
Para o Brasil, além desse quadro, que já poderia ser problemático, temos a questão do potássio, do qual a Rússia é grande exportadora e que serve de base para a fabricação de fertilizantes.
Restrições no mercado internacional de potássio pressionariam outras commodities, principalmente as alimentícias (fertilizantes mais caros), afetando nosso país.
Naturalmente, haveria uma migração para os tradicionais portos seguros, como metais preciosos, a exemplo do ouro, que já voltou a ser demandado nos últimos dias por investidores europeus. Adicionalmente, vemos aqui um mundo no qual as commodities continuarão em bom momento de preço, com grande espaço para valorização.
Gosto do investimento em commodities, em especial as energéticas (petróleo e gás), com destaque para a compra de fluxo de caixa nas matérias-primas; isto é, comprar empresas que se beneficiam da alta dos preços e que estão baratas para os padrões atuais. Neste contexto, tais companhias poderiam até mesmo se beneficiar da rotação setorial em meio à maior inflação.
Aliás, em um contexto de continuidade dos preços altos, nossos títulos indexados à inflação (os famosos IPCA+) continuam bastante apetitosos para o momento atual. Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
A situação da Ucrânia não é trivial e dificilmente terá um desfecho pacífico. Ainda assim, dificilmente estamos falando aqui de um horizonte catastrófico. Há espaço para que a deterioração da percepção atual seja normalizada até o final do ano.
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