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Matheus Spiess
Insights Assimétricos
Matheus Spiess
É economista e editor da Empiricus
2022-03-24T17:58:11-03:00
INSIGHTS ASSIMÉTRICOS

A guerra na Ucrânia está demorando mais do que se imaginava – e levando a uma revisão das projeções de inflação e crescimento econômico pelo mundo

Diante da continuidade do conflito, as próximas semanas devem ser definitivas para que saibamos o quão duradouros serão os efeitos sobre as commodities

22 de março de 2022
6:35 - atualizado às 17:58
Rússia mantém tropas na fronteira da Ucrânia e bolsas reagem hoje

Em poucos dias a invasão da Ucrânia pela Rússia completará um mês. A situação é bastante delicada e complexa, devendo ser sempre tratada com a devida seriedade, muito pelo fato de ser um dos eventos mais importantes do século 21 até aqui, com potencial de desdobramento sobre nossas vidas em diferentes sentidos.

Temos conversado sempre com especialistas em geopolítica, de modo a entendermos por completo os caminhos que poderemos tomar daqui em diante, até mesmo porque a guerra está levando mais tempo do que a Rússia pressupunha.

Desde 1946, 26% das guerras terminam em menos de um mês, outros 25% em menos de um ano e, dentre os que duram mais de um ano, 26% acabaram com um cessar-fogo. Em poucos dias a guerra na Ucrânia caminhará para o segundo grupo, sem muita perspectiva de para onde caminha.

Saída honrosa cada vez mais difícil para a Rússia

O problema é que, a cada dia que passa, uma saída honrosa para a Rússia de Vladimir Putin fica mais difícil, uma vez que os ucranianos podem até concordar com a neutralidade, mas se negam a aceitar o desmembramento de seus territórios, conforme demanda o Kremlin.

Para ilustrar, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse em entrevista recente que está pronto para negociar com Putin se houver apenas 1% de chance de pararmos esta guerra. Contudo, ele se recusou a reconhecer a independência de duas repúblicas separatistas no leste da Ucrânia, como a Rússia exigiu.

Paralelamente, quanto mais tempo a guerra durar, mais custoso será para o presidente russo, que tem que lidar com as sanções ocidentais. Aliás, por falar no Ocidente, o presidente americano Joe Biden vai a Bruxelas na quinta-feira (24) para uma reunião de emergência de dois dias com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A ideia do encontro será discutir a resposta do Ocidente aos ataques russos.

No fim do dia, sabe-se que as forças russas não conseguiram atingir o objetivo original do presidente Putin de tomar rapidamente Kiev junto com outras grandes cidades e depor o governo ucraniano.

Resistência da Ucrânia surpreendeu a Rússia

As tropas da Ucrânia surpreenderam o Kremlin com sua resistência, enquanto os maus planejamento e execução russos contribuíram para que a guerra parecesse um desgaste — os problemas logísticos foram notáveis.

Há quem diga que, para entender os próximos capítulos desta guerra, agora já com quase um mês, precisamos avaliar a cidade de Mariupol. A Rússia é acusada de crimes de guerra na cidade portuária do Sul depois de bombardear um teatro, uma maternidade e edifícios residenciais. Por conta dos atos, a Ucrânia rejeitou um prazo russo de hoje para entregar a cidade. Com isso, as próximas etapas podem ser piores.

A Rússia diz que está atingindo alvos militares, mas Mariupol segue um padrão de destruição implantado por Putin desde que chegou ao poder, na capital chechena de Grozny, na cidade síria de Aleppo, e agora na Ucrânia. Isso representa um dilema para Biden e outros líderes da Otan quando se encontrarem em Bruxelas.

Ou seja, apesar de estar sendo mais devagar do que se pressupunha, os russos estão avançando e se tornando cada vez mais implacáveis, se valendo de atitudes mais grotescas pouco a pouco. Abaixo, verifica-se a evolução da tomada dos territórios ucranianos, em vermelho, e a manutenção de controle pela resistência, em amarelo.

A situação militar em 22 de março de 2022 da invasão russa da Ucrânia em 2022. Fonte: BNO News

Escalada na Ucrânia testa apetite por mais sanções

A escalada de tom russa na Ucrânia testa o apetite por mais sanções, prejudicando a unidade transatlântica, dado que alguns estados europeus não estão dispostos a seguir os EUA e sancionar o setor energético russo por medo dos danos às suas próprias economias.

Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália já proibiram as importações de petróleo russo, afetando cerca de 13% das exportações da Rússia. Dessa forma, espera-se que a continuidade da agressão de Moscou possa trazer a União Europeia a bordo, um movimento que pode levar a uma mudança radical na forma como o continente compra sua energia — mudanças estruturais na arquitetura energética global estão por vir nos próximos anos.

Notadamente, todas essas sanções se traduzem em um novo choque de custos para a inflação no Brasil e no mundo. Para nós, brasileiros, o principal efeito no mapeamento dos efeitos diretos da guerra se refere à oferta de fertilizantes e ao aumento nos preços das commodities agrícolas e do petróleo.

Consequentemente, os preços dos ativos respondem à falta de avanço para um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia, sem falar dos ataques às instalações petrolíferas na Arábia Saudita.

Alternativas em andamento

Ao redor do mundo, para estabilizar o mercado de energia, vemos várias iniciativas que podem dar resultado positivo nos próximos meses, de modo a reduzir a dependência global das matérias-primas russas.

O Catar, por exemplo, disse que concordou em trabalhar no fornecimento de gás natural liquefeito à Alemanha, já que a maior economia da Europa busca reduzir sua dependência da energia russa. O ministro da Economia alemão disse, durante conversas em Doha ontem, que seu governo planeja acelerar dois terminais de importação de GNL na Alemanha.

Enquanto isso, no Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson está se voltando para a energia nuclear e eólica na tentativa de aumentar a segurança energética doméstica da Grã-Bretanha — já comentamos muito sobre energia nuclear no passado e ela deve ganhar cada vez mais relevância nesta nova década.

Sem perspectiva de recuos

Grosso modo, portanto, podemos concluir que a campanha inicial russa falhou (tentar tomar Kiev, Kharkiv e outras grandes cidades ucranianas nos primeiros dias da guerra) por conta da resistência ucraniana e por erros logísticos graves (as imagens de tanques russos presos na lama são uma metáfora adequada para a situação).

Assim, sem perspectivas de que um dos dois lados saia das atuais negociações com um recuo, devemos ter uma elevação de tom no conflito, em linha com o que tem acontecido em Mariupol — a Rússia devastou a cidade do sudeste com um cerco sufocante e bombardeios constantes (há relatos de que “não é mais uma cidade”).

Em outras palavras, a atual estratégia da Rússia, segundo o que consultei de especialistas, parece não estar funcionando tão bem. No final do dia, as forças armadas russas estão espalhadas, engajadas em combates locais de pequena escala e que não produzem os resultados esperados pelo Kremlin.

Os próximos passos

Dessa forma, resta entender quais serão as próximas respostas da Otan e de aliados para no próximo mês da guerra na Ucrânia, que promete marcar o início de um novo capítulo mais violento e sangrento.

Ao todo, o conflito pode se arrastar por semanas ou meses.

Novas alternativas ocidentais poderão contar com mais sanções e com uma no-fly zone (ou zona de exclusão aérea), apesar de este último ser bastante polêmico pela sua capacidade de escalar ainda mais as tensões entre Rússia e Ocidente.

O aguardar de novas resoluções ressoam em mais inflação para os países no curto prazo, provocando um início de revisões negativas às projeções de crescimento econômico. As próximas semanas poderão ser definitivas para que saibamos o quão duradouro serão tais efeitos sobre as commodities.

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