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Não espere moleza na Super Quarta pré-feriado; o mundo deve continuar a viver a tensão de uma realidade de mais inflação e juros mais altos
Ainda precisamos sobreviver a mais um desafio antes de encerrarmos o primeiro semestre de 2022. A Super Quarta, dia em que contamos com o resultado das reuniões de política monetária do Brasil e dos EUA, está marcada para amanhã, dia 15 de junho.
Naturalmente, como temos conversado, a inflação e o processo de aperto monetário (contração de liquidez por parte dos Bancos Centrais) têm sido os principais temas de 2022 e devem continuar sendo.
Como da última vez, teremos dois jogos a serem disputados amanhã.
O primeiro é o fruto da reunião em si; isto é, as deliberações práticas resultantes dos dois encontros. Já o segundo se trata do comunicado que acompanhará cada decisão. Enquanto o primeiro já está relativamente bem precificado, o segundo é a grande dúvida do mercado.
Na semana passada, o Brasil e os EUA reportaram seus respectivos índices de preços ao consumidor. No caso brasileiro, diferentemente do que aconteceu com os americanos, a inflação recuou, mas ainda está em dois dígitos.
Vai levar um tempo para que consigamos trazer de volta este índice para a meta do Conselho Monetário Nacional.
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Uma coisa boa, porém, é que já estamos bem adiantados no processo de ajuste monetário a ser conduzido, o que nos permite sermos até mais comedidos em termos de reação ao que pode acontecer.
A seguir, separei um gráfico com a inflação brasileira de preços livres e administrados. Note como, apesar do recente recuo, muito por conta dos preços de energia, que entraram na bandeira tarifária verde recentemente, ainda estamos com patamares muito elevados de inflação — o dado cheio acumula alta de 11,73% em 12 meses.
Assim sendo, para combater este processo inflacionário, o Comitê de Política Monetária deverá elevar em mais 50 pontos-base a taxa básica de juros, colocando a Selic em 13,25% ao ano. Este ajuste foi bem precificado pelo mercado desde o último encontro do Bacen.
A dúvida fica por conta do comunicado que acompanha a decisão.
Aí é onde está o pulo do gato.
A minha interpretação é que o BC tem toda a abertura para contratar mais uma alta para a próxima reunião marcada para os dias 2 e 3 de agosto.
Ele pode fazer isso desacelerando o tom, como fez da última vez, indicando mais um ajuste de menor magnitude, o que resultaria em uma alta da Selic de 25 pontos-base para 13,50% em agosto.
Ou ainda poderia deixar a janela aberta, considerando a incerteza do cenário doméstico (questão fiscal, eleitoral e dos combustíveis) e internacional (desaceleração global, risco de recessão, lockdown na China, quebra na cadeia de suprimentos, crise energética na Europa e guerra na Ucrânia).
Neste caso, poderíamos ter mais um ajuste de mesma magnitude, encerrando o ciclo com Selic terminal de 13,75% ao ano.
Este é meu cenário base: um ajuste de 50 bps em junho e outro de 25 ou 50 bps em agosto.
Eventuais choques para cima poderão estressar ainda mais o mercado — a taxa de desocupação, apesar de alta, já está voltando para o single digit (estima-se que quando a taxa de desocupação está entre 9% e 10%, o mercado de trabalho já não é mais desinflacionário).
Em outras palavras, a situação brasileira não é das mais simples, mas pelo menos estamos no final do ciclo de aperto. Depois de alcançarmos o topo, poderemos ver discussões sobre queda dos juros, o que poderá ajudar o ambiente no qual ativos brasileiros estão inseridos.
Nos EUA, por outro lado, o debate sobre o aperto monetário só está começando.
No indicador de inflação apresentado na semana passada, os investidores se surpreenderam com preços que voltaram a acelerar na comparação anual para seu nível mais alto desde 1981, subindo 8,6% em relação ao ano anterior.
Agora, há uma preocupação de que os EUA possam ver uma repetição da década de 1970, quando a taxa de inflação atingiu a média de 7,1% por uma década inteira, devastando as finanças domésticas e a economia.
As razões para o aumento dos preços são bem conhecidas: interrupções na cadeia de suprimentos por conta da pandemia de Covid-19 levaram à escassez de mercadorias.
Além disso, a invasão da Ucrânia pela Rússia atingiu o fornecimento de commodities essenciais, enquanto, ao mesmo tempo, o governo canalizava trilhões de dólares em ajuda diretamente para consumidores e empresas.
Com isso, uma parte dos investidores voltou a esperar aumento de 75 pontos-base na reunião de quarta-feira, diferentemente da expectativa quase unânime do que foi contratado anteriormente em 50 pontos-base.
A dúvida é o quanto tempo durará esse doloroso surto de inflação alta e qual, se houver, será seu impacto duradouro.
A discussão deverá ficar por conta do tom de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, na entrevista coletiva depois da apresentação da decisão na quarta-feira.
Diante do contexto de maior pressão inflacionária, o dirigente da autoridade monetária deverá engrossar o tom, sinalizando apertos adicionais para os próximos meses. As correções nos últimos dias nas Bolsas globais refletem justamente a precificação deste movimento.
O Fed precisa jogar a economia americana para a recessão se quiser controlar a inflação.
Por isso, meu cenário base é de um ajuste de 50 pontos base nesta reunião (não acredito em alta de 75 pontos-base), levando a taxa de referência para a faixa entre 1,25% e 1,50% ao ano.
Adicionalmente, novos ajustes de mesma intensidade deverão ser contratados para as próximas reuniões. Surpresas negativas poderão pressionar ainda mais os mercados.
O mundo deverá continuar a viver a tensão de uma realidade de mais inflação e juros mais altos. Uma desaceleração e, eventualmente, uma recessão são partes naturais deste ciclo que se encerra agora.
Não espere moleza na semana de Corpus Christi.
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