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Richard Camargo
Estrada do Futuro
Richard Camargo
Formado em Economia pela Universidade de São Paulo, Richard trabalhou por 5 anos na área tecnológica até chegar na Empiricus.
2022-04-13T14:32:58-03:00
ESTRADA DO FUTURO

Você deveria investir nos robôs que querem te substituir?

Os robôs colocam em risco a minha própria profissão; mas se o aspecto humano é um pouco assustador, a oportunidade de investimentos parece simplesmente imensa

14 de abril de 2022
7:13 - atualizado às 14:32
A mão de um robô toca a mão de um ser humano
Entusiastas e críticos dos robôs estão igualmente corretos. - Imagem: Shutterstock

Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. Nas últimas semanas, tenho passado muito tempo debruçado sobre "robôs" dos mais diversos tipos.

Dos algoritmos que automatizam tarefas repetitivas, como processos cotidianos de um departamento financeiro (um "contas a pagar" da vida) aos robôs mecânicos que cada vez mais substituem os humanos em tarefas simples, porém repetitivas e cansativas, como carregar e descarregar caminhões e fritar batatas.

A guerra na Ucrânia trouxe de vez a desglobalização para a pauta de governos e empresas. Nesse caminho, de repatriar cadeias logísticas e produtivas para o Ocidente, os robôs terão um papel imprescindível.

Arrisco dizer até mais: a velocidade com que veremos (e se veremos) EUA e Europa trazerem de volta para si a produção de bens e serviços hoje terceirizados para países asiáticos (como China e Vietnã) é completamente dependente do desenvolvimento dos robôs.

O que os robôs são capazes de fazer hoje e você não sabia?

A missão de um robô qualquer é executar uma tarefa repetitiva com maior precisão e velocidade do que um humano.

Um entusiasta dirá que os robôs liberam o tempo das pessoas para se dedicarem a tarefas mais interessantes e produtivas do que, por exemplo, apertar os mesmos botões ou lançar milhares de notas fiscais.

Os críticos dirão que os robôs apenas destroem empregos, afinal, eles não ficam cansados, não ficam doentes e não exigem direitos trabalhistas.

Entusiastas e críticos dos robôs estão igualmente corretos!

Como exemplo, posso citar a empresa de tecnologia UiPath, listada na Nasdaq sob o ticker "PATH" e na B3 através do BDR "P2AT34".

A UiPath é uma empresa de softwares, que vende a clientes corporativos uma ferramenta de criação de BOTs.

Sua ideia é justamente automatizar trabalhos de escritórios repetitivos; o exemplo anterior do contas a pagar que eu mencionei é perfeito, mas serve também campos como atendimento ao cliente e muitas rotinas corporativas como preencher sistemas, validar e-mails, fazer check-list de contratos padronizados…

O mais interessante é como a UiPath vende o seu produto.

Os clientes corporativos podem contratar dois tipos de "bots" diferentes: o que eles chamam de "autônomos" ou "assistidos".

Numa abordagem assistida, o "bot" automatiza apenas parte do trabalho, enquanto uma pessoa segue o tempo todo validando o trabalho do bot, e muitas vezes enviando trabalho para ele. 

Um "bot" como esse custa às empresas entre 1,2 mil e 3 mil dólares por ano, e cumpre a promessa dos entusiastas: ele libera o funcionário para tarefas mais interessantes e produtivas.

Já um "bot" autônomo é capaz de substituir o trabalho de uma pessoa, ou às vezes de várias pessoas que executam a mesma tarefa, e custa em torno de 8 mil dólares ao ano. 

De acordo com o site oficial do "Social Security Administration" nos EUA, o salário médio do americano, em 2019, era em torno de 55 mil dólares.

Por maior que seja a variância (muitos americanos ganham mais de 100 mil dólares e outros muitos ganham menos que 20 mil dólares), eles tem algo em comum: são mais caros que um robô da UiPath.

Um "bot" autônomo cada vez mais cumpre a promessa dos críticos: enquanto alguns funcionários terão tempo livre para atividades mais produtivas, outros perderão sim seus empregos.

'Robôs' as a service

Citei a UiPath e seus algoritmos, mas quando falamos em "robôs", o imaginário popular automaticamente nos remete à ficção científica, aos robôs mecânicos capazes de executar tarefas pesadas.

Na semana passada, a Bloomberg publicou artigo interessantíssimo intitulado "Como os robôs por assinatura permitem às empresas automatizar a um custo baixo''. 

Espero que eles não briguem comigo, mas coloco abaixo o trecho mais interessante, traduzido.

As ênfases em negrito foram adicionadas por mim.

"(...) uma tendência nascente é a oferta de robôs como serviço - semelhante aos modelos de assinatura oferecidos pelos fabricantes de software, em que os clientes pagam taxas de uso mensais ou anuais em vez de comprar os produtos - está abrindo oportunidades até mesmo para pequenas empresas.

Esse modelo financeiro foi o que levou a Thomson a adotar a automação. A empresa tem robôs em 27 de suas 89 máquinas de moldagem e planeja adicionar mais. Ela não pode comprar os robôs, que podem custar 125.000 dólares cada, diz o CEO Steve Dyer. Em vez disso, a Thomson paga pelas máquinas instaladas por hora, a um custo inferior ao da contratação de um funcionário humano — se for possível encontrar um, diz ele. “Nós simplesmente não temos as margens para gerar o tipo de capital necessário para sair e fazer esses investimentos amplos e abrangentes”, diz ele. “Estou pagando de 10 dólares a 12 dólares por hora por um robô que está substituindo uma posição que eu estava pagando de 15 a 18 mais benefícios adicionais” (...)."

Na mesma matéria, a Bloomberg lista dados e gráficos comprovando a crescente entrada de robôs na força de trabalho.

Daí, extrapolo para dois exemplos, num universo vasto:

  • (i) Em 2025, a Mercedes Benz terá seus carros autônomos rodando pelo mundo inteiro, com sistemas de pilotagem autônoma desenvolvidos pela Nvidia: o que será dos motoristas de táxi e aplicativos?
  • (ii) Compare um centro de distribuição de empresas brasileiras em Cajamar ou Guarulhos com os centros de distribuição da Amazon: quantas pessoas você vê nesse vídeo?

Excitante ou amedrontador?

Algumas pessoas ficarão animadas com tudo o que eu escrevi acima; outras ficarão genuinamente amedrontadas.

Como investidor, tenho minha posição: acredito que há uma marcha inexorável da tecnologia e uma tendência clara ao aumento dos robôs nas mais diversas áreas.

Em alguns anos, profissões que hoje julgamos tão comuns deixarão de existir.

A minha própria profissão, de analista de investimento, é uma das que estão em risco: um algoritmo ("bot") é capaz de consumir mais informações financeiras em um único dia do que eu sou capaz de fazê-lo em 1 ano.

Caso isso aconteça, eu estarei livre para "buscar outras atividades mais produtivas", seja lá o que isso significa.

Se o aspecto humano é um pouco assustador, a oportunidade de investimentos parece simplesmente imensa. Se eu tiver que perder meu emprego para um robô, certamente será menos doloroso se ele me fizer rico no meio do caminho.

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