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No ano da pandemia, lucro da empresa saltou 839%; CEO fala em continuidade da mudança de comportamento que beneficiou a companhia e conta como a empresa diversificou os negócios após crises
A necessidade de trabalhar em casa diante da pandemia da covid-19 fez o brasileiro redescobrir o computador, que nos últimos anos havia perdido espaço para os smartphones.
A onda do home office impulsionou os resultados da Positivo Tecnologia, principal fabricante brasileira de produtos eletrônicos — entre eles os procurados notebooks.
No ano da pandemia, o lucro da empresa saltou 839%, para R$ 196 milhões. Parte do ganho veio de uma questão tributária, mas ainda sem considerar esse efeito não recorrente o resultado teria aumentado 174% em relação a 2019.
A divulgação do balanço impulsionou as ações da Positivo (POSI3), que acumulam alta de 20% em março — em mais um momento emblemático da longa trajetória da companhia na bolsa, cheia de altos e baixos.
A grande dúvida é se os números se sustentam em um cenário pós-pandemia e se a mudança de hábito que beneficiou a empresa veio para ficar.
O CEO da Positivo, Hélio Rotenberg, não tem dúvida da resposta para ambas as questões. "Está claro para nós essa tendência de crescimento, mais do que algo pontual", disse o executivo, em entrevista ao Seu Dinheiro.
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O otimismo da Positivo se refere a frentes tradicionais, como a de notebooks, mas também a investimentos mais recentes — a base de clientes da "Casa Inteligente" saltou 1.485% no ano passado, para 250 mil usuários únicos.
Segundo Rotenberg, a demanda por notebooks deve continuar em alta porque o mercado está "muito deprimido": a fatia de computadores vendida no Brasil já correspondeu a 4% do que era comercializado no mundo, mas caiu pela metade nos últimos anos. "Esse mercado [de notebooks] ainda vai nos trazer bons resultados", diz.

No curto prazo, porém, a Positivo vai ter de lidar com alguns obstáculos, como a falta de insumos — problema de vários mercados após a pandemia ter desestruturado as cadeias de suprimentos. “A gente não está conseguindo abastecer toda a demanda. Mas acredito que a situação se normalize até o final do ano.”
Outro problema é a alta do dólar, que escalou 29% em 2020. A empresa tem grande parte dos custos atrelados a moeda americana e não vê alternativas a não ser repassar os ajustes ao consumidor. "É uma particularidade do mercado de tecnologia: os componentes são dolarizados", defende Rotenberg.
Segundo o executivo, o preços de telas LCD, por exemplo, disputadas inclusive por fabricantes de TVs, dobrou para US$ 52 em 2020. Rotenberg prevê que o preço médio de computadores tenha uma alta de 15% a 20% neste ano, depois de subir 25% no ano passado.
Apesar do bom momento, os analistas ainda acompanham com certo ceticismo a acelerada da Positivo na crise. A alta da moeda americana e o fim do auxílio emergencial foram os principais motivos para a XP, por exemplo, ainda manter recomendação neutra sobre as ações da companhia.
Outra razão para a cautela do analista é a piora nas perspectivas para a economia. Mas para Rotenberg, a demanda deverá seguir forte, mesmo que a retomada venha num ritmo mais lento. “Acredito que, passada a pandemia, a economia vai crescer”, diz o executivo.

Não é a primeira crise que Rotenberg vivencia como CEO da Positivo Tecnologia. O executivo está à frente da companhia desde a sua fundação, em 1989.
A empresa surgiu a partir de uma derivada do grupo de educação curitibano Positivo, quando Rotenberg sugeriu a um dos sócios da companhia a criação de uma linha de informática voltada à educação.
A iniciativa foi para além da sala de aula e nos anos 2000 cresceu apoiada na fase de alto consumo da classe média. No entanto, no início da década seguinte teria o desafio de continuar relevante em meio à crise e ao mercado de computadores pessoais em declínio por conta da popularização dos smartphones.
A empresa teve de encolher — de seis mil funcionários para atuais dois mil — e apostar em novos produtos, entre eles tablets e smartphones. Trocou de nome, de Positivo Informatica para Positivo Tecnologia, em uma decisão que sintetizaria a estratégia mais ampla da companhia. A governança também foi ampliada.
A mais recente incursão da Positivo é pela smart home, uma linha de produtos que inclui câmeras Wi-Fi, plugues de alimentação, lâmpadas inteligentes, controles universais, alarmes e sensores de segurança.
A "Casa Inteligente" faz parte de um guarda-chuva de iniciativas em que a empresa vê um maior potencial de crescimento. Hoje, essas "avenidas" representam 19% da receita do negócio, mas o plano da companhia é fazer a fatia chegar a 50%.
Segundo Rotenberg, por trás das novas iniciativas há um esforço em elevar o ticket médio da companhia (relação entre faturamento e vendas). "As 'avenidas de crescimento' trazem mais serviços embutidos e geram uma margem [de lucro] maior que a do computador", afirma.
A Positivo consolidou sua posição de liderança na fabricação de eletrônicos no Brasil com foco em consumidores de baixa renda. A companhia detém participação de 84% no mercado de computadores abaixo de R$ 1,2 mil.
"Mas hoje a Vaio, que atende a classes A/B, compete de igual pra igual com multinacionais", diz o CEO da Positivo. A empresa é responsável pela produção e distribuição da marca japonesa no Brasil desde 2015. No varejo, a Vaio cresceu 292% no quarto trimestre.

A Positivo também produz para instituições públicas, com produtos "sob medida" para vencer editais. O destaque recente é o processo envolvendo a compra de urnas eletrônicas.
Em julho de 2020, a empresa venceu o processo licitatório junto ao TSE para o fornecimento de até 180 mil equipamentos usados no voto e outros produtos e serviços previstos no edital.
A companhia espera faturar R$ 650 milhões com o negócio até 2022. "A licitação pública faz parte da nossa história", diz Rotenberg sobre a companhia que sempre vendeu PCs para escolas.
Segundo o executivo, está nos planos da Positivo entrar no ramo de tecnologia para terminais lotéricos e avançar sobre as maquinas de pagamento e adquirentes — o principal cliente hoje é a Cielo.
O segmento de servidores e soluções para infraestrutura de tecnologia da informação, cuja receita avançou 29% no ano passado, é outro foco da empresa.
Três anos atrás, a Positivo comprou 80% da Accept — hoje Positivo Servers&Solutions —, uma empresa especializada na produção e comercialização de produtos como servidores e soluções em computação de alta desempenho.
Para Rotenberg, a diversificação dos negócios deve evitar um "novo sofrimento", como aquele pelo qual a empresa passou a partir de 2013. “Na verdade, se a gente soubesse que o computador chegaria ao patamar atual, talvez não tivesse diversificado”, brinca. “Mas já que diversificamos, estamos numa posição muito boa.”
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