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Mudança no comando da estatal cai mal entre os bancos, que veem riscos para a política de preços e o processo de redução da dívida
Pode ser que toda unanimidade seja burra, como disse o escritor Nelson Rodrigues, mas a esmagadora maioria dos analistas que acompanham Petrobras (PETR4) não gostou nada da decisão do presidente Jair Bolsonaro de trocar o comando da estatal.
A ideia de que interferências na principal estatal do país tenham ficado no passado caiu por terra depois que Bolsonaro decidiu indicar o general Joaquim Silva e Luna para o lugar de Roberto Castello Branco, cujo trabalho vinha recebendo muitos elogios.
A troca reacendeu receios de que a política de preços dos combustíveis, que seguem as cotações internacionais, e outras medidas de desalavancagem financeira podem ser solapadas em nome da popularidade de Bolsonaro.
A consequência disso é que as ações da Petrobras estão apanhando nesta segunda-feira (22). Por volta das 11h22, as ações preferenciais caíam 20,31%, a R$ 21,78, enquanto as ordinárias (PETR3) recuavam 20,66%, a R$ 21,50. Acompanhe a cobertura de mercados do Seu Dinheiro.
Confira aqui o que a opinião dos analistas sobre este episódio:
Os analistas Vicente Falanga e Gustavo Sadka afirmam que o rebaixamento da recomendação de neutra para venda, depois do corte realizado em 7 de fevereiro, reflete a “longa lista” de perguntas não respondidas, que ganha força caso a mudança no comando da Petrobras seja confirmada.
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Entre os pontos críticos estão o futuro da política de preços do diesel e se os recentes reajustes positivos serão revertidos. Eles também querem saber se a companhia manterá a venda das refinarias, se os planos de investimento no pré-sal continuarão ou se os recursos serão destinados a projetos “com propósitos sociais” e se a nova política de dividendos será mantida.
Especificamente sobre a questão do diesel, os analistas do Bradesco BBI disseram que se houver mudanças que interfiram na paridade dos preços internacionais, elas podem resultar em um impacto de US$ 900 milhões no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) para cada diferença de 10% entre as cotações locais e internacionais.
Além da recomendação, o Bradesco BBI cortou o preço-alvo de R$ 34,00 para R$ 24,00.
A tese de investimentos da Empiricus estava embasada em quatro pilares principais: melhora operacional, venda de ativos, desalavancagem financeira e transparência. E sob o comando de Castello Branco, tudo apontava para uma melhora em todos esses aspectos da empresa, que caminhava para uma maior rentabilidade para os acionistas.
Mas a troca de presidência pode trazer imenso risco para esses pilares da Petrobras, segundo os analistas Max Bohm e Guilherme Ebaid.
“Entendemos que esta é uma postura com a qual não podemos compactuar e que pode, infelizmente, ter como consequência uma deterioração operacional da companhia”, diz trecho do relatório.
Assim a casa de análise recomenda a venda das ações de sua carteira. “Por ora, colocaremos os 12% de peso da Petrobras em caixa e buscaremos novas oportunidades para alocação deste capital”, afirmam os analistas.
Diante das incertezas criadas pela decisão de Bolsonaro, os analistas Regis Cardoso e Marcelo Gumiero decidiram rebaixar a recomendação para os recibos de ações (ADRs) negociados em Nova York de neutro para venda e cortar o preço-alvo pela metade, para US$ 8,00.
Para eles, a interferência do governo federal “vai se traduzir em um maior prêmio de risco para as ações da Petrobras” e coloca em xeque a atual política de preços e os níveis de investimentos da companhia, diante da possibilidade de mudanças no plano de negócios.
Para os analistas Gabriel Francisco e Maira Maldonado, o episódio é uma sinalização negativa da perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobras, e implica riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços.
Eles rebaixaram a recomendação das ações da Petrobras de neutro para venda e o preço-alvo foi revisado para R$ 24,00 tanto para PETR4 quanto para PETR3, dos R$ 32,00 por ação estabelecidos anteriormente.
Eles destacaram ainda que as incertezas com relação à política de preços implicam em uma menor correlação das ações com preços do petróleo no futuro, dados os riscos de que não sejam totalmente repassados aos preços dos combustíveis.
“Em nossa opinião, existem muitas incertezas para justificar uma tese de investimento na Petrobras, e acreditamos que as ações deverão daqui em diante negociar com um desconto mais alto em relação ao histórico e a outras petroleiras globais”, diz trecho do relatório.
Um dos poucos que não estão falando para os investidores venderem as ações da Petrobras é o BTG Pactual. Mas isso não quer dizer que o banco não tenha rebaixado sua recomendação – foi de compra para neutro, com o preço-alvo de R$ 29,00.
Os analistas Thiago Duarte, Pedro Soares, Daniel Guardiola e Ricardo Cavalieri reconhecem que a intervenção aumentou as incertezas sobre a companhia, mas eles destacam que o momento do petróleo é muito positivo, com as commodities em patamares muito elevados. E eles afirmam que os papéis estão em patamares muito baratos e que estão sendo negociados com uma rentabilidade do fluxo de caixa livre ao acionista (o FCFE yield, que sinaliza o potencial de retorno aos acionistas) de 21% para o período de 2021 e 2022.
“Nosso caso base ainda é que as mudanças não serão muito dramáticas e estaremos prontos para mudar esse cenário se as circunstâncias melhorarem nos próximos meses, mas sentimos uma posição delicada caso os preços domésticos de combustível precisem continuar subindo para acompanhar o petróleo”, diz trecho do relatório.
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