O que ainda esperar do Copom, com o aumento da Selic para 3,5% contratado?
Entendo como sendo mais provável um comunicado marginalmente mais hawkish, mas não tão agressivo como os anteriores; veja a análise

Começamos o mês de maio de olho na decisão de política monetária do Banco Central do Brasil. A autoridade começa a se reunir hoje, terça-feira (4), para publicar na quarta (5) após o mercado sua decisão.
A deliberação do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) em si já está dada, contratada desde a última reunião. Entende-se que haverá mais uma elevação de 75 pontos-base na Selic Meta, levando-a para o patamar de 3,50% ao ano.
O movimento de um tom mais hawkish (contracionista) para a taxa de juros vem desde o final do ano passado, quando já eram apresentados os primeiros sinais de que a autoridade monetária abandonaria o forward guidance (orientação futura). Resumidamente, esta última se compromete com taxa de juros baixa por mais tempo, de maneira similar ao que os Banco Centrais de países desenvolvidos estão fazendo neste exato momento.
[captacao]
Agora, porém, neste início de mês, o mercado local não se debruça propriamente na decisão, mas, sim, no comunicado que acompanha a mesma. Só temos duas possibilidades:
- i) mais um parecer hawkish, no qual o BC se compromete com mais elevação da taxa de juros;
- ii) uma abordagem mais dovish (expansionista ou flexível), aliviando o tom mais agressivo imposto até aqui em 2021.
Cenários possíveis
Um Copom Hawkish visa ancorar melhor a inflação, que parece estar saindo um pouco do eixo nos últimos dados coletados. Existe um temor de que seja um aumento estrutural dos preços, ao invés de temporário, com risco da famosa indexação brasileira levar adiante a pressão sobre os valores verificada agora.
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Logo, um comunicado conservador vai ajudar a alinhar as expectativas de inflação, estabilizar ainda mais o dólar e tirar parte da tensão da ponta mais longa da curva de juros.
Por outro lado, um juro mais alto prejudica a retomada da economia, que ainda está batalhando para se levantar, bem como consegue deteriorar as perspectivas fiscais, uma vez que o serviço da dívida ficaria mais caro. A solução poderia ser neutra para o mercado de ações, uma vez que a maior parte dos investidores já espera este desfecho.
Em um Copom Dovish, por sua vez, o BC pode recuar no discurso apresentado recentemente, indicando que parte da correção dos juros já foi executada satisfatoriamente nas duas últimas altas. O ambiente econômico ainda muito debilitado e o fiscal ferido seriam fatores que ajudariam a autoridade monetária a justificar seu movimento, enquanto aponta para a inflação verificada até aqui como sendo temporária.
Como consequência, a ponta mais longa da curva poderia voltar a se estressar mais um pouco - grosso modo, menos juros hoje significa mais juros amanhã -, bem como o câmbio, que perderia horizonte de mais diferencial de juros.
Para as ações o choque de curto prazo até pode se verificar como positivo, mas estruturalmente entendo como sendo negativo. Positivo porque se inflação voltar as ações devem ganhar nominalmente, mas negativo porque abriria espaço para mais uma crise de credibilidade da instituição, que tem mudado muito de discurso ultimamente.
Entendo como sendo mais provável um comunicado marginalmente mais hawkish, mas não tão agressivo como os anteriores. Deveremos ter algo como uma elevação de 75 bps agora e mais uma contratação de outros 25 ou 50 pontos-base para a próxima reunião, enquanto a autoridade se mostra preocupada com a inflação e com a retomada da economia.
A solução ajudaria a não haver mais uma inversão de discurso da entidade, uma vez que já viemos de um cavalo de pau e tanto quando o forward guidance foi abandonado em uma reunião e na outra já estávamos subindo os juros. Uma subida marginal em próximos encontros, sem se esquecer de se mostrar "data dependent" (dependente de dados econômicos novos), ajuda a ancorar a inflação, estabilizar o câmbio e não prejudica muito as perspectivas para o pagamento do serviço da dívida do governo, que já se encontra em péssima situação fiscal.
O alívio na ponta mais longa da curva poderia ser verificado e, consequentemente, o mercado de ações teria espaço para reagir bem sem frustrar as projeções dos agentes.
Sell in May?
Note que existe um caráter especulativo muito forte aqui e tais ponderações não devem servir de base para a tomada de decisão em um investimento, mas, sim, para ajudar a verificar gatilhos sistêmicos de modo a entendermos o posicionamento de nossos portfólios de investimento em ambientes complexos e dinâmicos como os mercados atuais.
Curiosamente, o imbróglio de política monetária se dá justamente em maio, que carrega consigo a superstição da frase gringa "sell in may and go away" (venda em maio e vá embora).
A ideia do racional seria pelo fato de uma verificável underperformance de equity (ações) no período de seis meses entre maio e outubro do ano, derivado inicialmente do começo das férias do hemisfério norte.
Em outras palavras, maio marcaria o início de um período sazonalmente menos atrativo para ações em detrimento de outros investimentos. Alguns estudos, ao invés de seis meses, registram apenas quatro. Tanto faz, a ideia é a mesma.
Vale dizer que a abordagem faz mais sentido no exterior do que para solo brasileiro - por sinal, maior significância estatística para a hipótese se verifica mesmo na Europa, não nos EUA, que mais recentemente tem apresentado performance oposta ao que a frase "sell in may" pode sugerir.
Logo, eu não teria tanto medo do mês de maio.
Ainda mais porque o Brasil se encontra muito atrativo para os estrangeiros. Estamos baratos em dólar, o mundo entra em um ciclo de retomada econômica (bom para emergentes), commodities estão como foco dos investidores novamente e nossa bolsa tem predominância do setor financeiro tradicional, que deve ganhar com uma alta de juros, ainda que marginalmente. Um eventual maior direcionamento nos próximos meses para uma retomada da agenda de produtividade pode servir de gatilho para nosso mercado.
Parece termos mudado um pouco a pauta depois do caos perpetrado pelos debates ao redor do Orçamento de 2021. Agora, já conversamos sobre reforma tributária, reforma administrativa e privatização de estatais como Eletrobras e Correios. Não será fácil, mas sinais já aparecem no horizonte.
Por sinal, sobre o primeiro ponto, o parecer da reforma tributária será lido na Comissão Mista do Congresso hoje, às 15h, pelo relator Aguinaldo Ribeiro. Ainda que Lira divida a reforma para facilitar aprovação, o norteamento é positivo.
Maio pode se tornar um ponto de entrada bom para os próximos 12 meses e a decisão do Copom pode coroar o início deste movimento. Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Não podemos ser ingênuos também. O caminho não será linear e muito menos simples. Muita água ainda está para rolar, mas pelo menos já temos um caminho pelo qual seguir.
Para insights como este e para saber como aplicar o racional acima destacado, Felipe Miranda, estrategista-chefe da Empiricus, escreve periodicamente em sua série best-seller, "Palavra do Estrategista", suas melhores ideias de investimento. Se o leitor que me acompanhou aqui tiver interesse em conhecer mais ideias como esta, o conteúdo pode ser uma excelente pedida.
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