Cuidado com a obsessão de enriquecer com a próxima tecnologia do futuro
O boom de empresas de tecnologia alimenta uma esperança quase ingênua de enriquecer “horrores” descobrindo como esses materiais moldarão o nosso futuro. Vou ser totalmente transparente com você: não gosto da ideia.

Olá, seja bem-vindo ao nosso papo de domingo sobre tecnologia e investimentos.
O futuro mexe com a gente.
Ou melhor, a sua imprevisibilidade mexe com a gente.
Recebo e-mails toda semana, com dúvidas mais ou menos assim:
- O que você acha de investir em urânio?
- E o grafeno?
- Estão olhando alguma coisa relacionada ao lítio?
Óbvio, não sou especialista em nenhum deles.
Mas sempre me chama a atenção o fascínio que alguns investidores nutrem por ideias como investir “no futuro do grafeno”, “no futuro do urânio”, e por aí vai.
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Uma esperança quase ingênua de enriquecer “horrores” descobrindo como esses materiais moldarão o nosso futuro.
Vou ser totalmente transparente com você: não gosto da ideia.
A seguir, te explico meus dois porquês.
1. Procurando a agulha num palheiro
Adoro ouvir Cazuza aos domingos.
Está aí um homem que habitava de corpo e alma o presente, pouco ou nada preocupado com seu futuro.
Como investidores, não podemos nos dar ao mesmo luxo, precisamos pensar no futuro.
Precisamos encontrar ideias que irão prosperar. Ideias que criarão valor para sociedade e para seus acionistas.
Mas não subestime o abismo que existe entre “encontrar a ideia” e ganhar dinheiro com ela.
Deixa eu dar um exemplo que utilizei num relatório recente aos meus leitores. Um resumo de como evoluiu a indústria automobilística.
Se você fosse um investidor, lá no começo do século XX, buscando uma grande tendência para chamar de sua, com certeza o mercado automobilístico estaria entre seus eleitos.
Você apostaria no “futuro do automóvel”, da mesma maneira que as pessoas que me escrevem desejam apostar no “futuro do grafeno”.
Hoje conhecemos a Ford, a GM e a Chrysler, as três gigantes que prosperaram no mercado americano.
O que a maioria de nós desconhece é que, no auge da competição, existiam mais de 100 montadoras apenas nos EUA.
Uma a uma, essas montadoras foram caindo.
Se você fosse um investidor, nos primórdios desse mercado, suas chances de escolher uma das três vencedoras - e ganhar muito dinheiro com o “futuro dos automóveis” - era de 3 em 100: o famoso 3%.
Não parece uma grande chance de sucesso...
2. Estar certo antes da hora é o equivalente a estar errado
Outro ponto relevante que me afasta desses mercados ainda sem viabilidade comercial é o timing.
Outro exemplo caricato e futurista: o amanhã é dos carros voadores.
Esse era um futuro que a década de 90 tinha certeza que se materializaria nos anos 2000.
Depois se tornou a promessa dos anos 2010. E agora será o dos anos 2020 (que estão apenas começando).
Há quem diga que teremos viabilidade comercial e regulatória em 2026, como a Volocopter - que tem um projeto incrível -, mas não é esse meu ponto.
O ponto é que você pode sim identificar uma “tecnologia do futuro”.
O que geralmente não será possível é estimar com precisão o quando essa tecnologia se tornará massificada. Quando será possível enriquecer com ela.
Como neste exemplo, e em muitos outros, pode demorar décadas até que você tenha um retorno sobre o seu investimento. Além disso, esse retorno pode nem se materializar.
O futuro é democrático
Nenhuma outra “grande tendência” criou tantos milionários nos últimos 20 anos como a internet.
Sim, ela passou por um longo período de incubação ao longo dos anos 80 e praticamente toda a primeira metade dos 90.
Desde então, a internet não para de se reinventar e já deixou há muito de ser uma novidade.
Isso não impede que novos modelos de negócios surjam; que o número de pessoas debruçadas sobre ela apenas aumenta; e que tenhamos hoje tecnologias construídas sobre a essa plataforma que eram impensáveis em seus primórdios.
O fato de escolher investir seu dinheiro em uma tendência massificada elimina boa parte do seu risco, e se você souber escolher, o fará preservando um grande potencial de enriquecimento.
Como dinheiro não tem carimbo, o que importa ao final do dia é o quanto de retorno você conseguiu, versus o risco assumido. E não o quão “sexy” foram as ideias que geraram esse retorno.
Por isso, como investidor e fissurado por tecnologia, deixo o grafeno e o urânio para os professores de física, e me concentro na transformação do setor financeiro, na computação em nuvem, na economia das APIs, no incansável mercado de softwares e na crescente digitalização do mercado imobiliário - a última das grandes plataformas.
Sobre eles, eu começo a falar nos próximos domingos.
Até lá!
Contato
Se você gostou dessa coluna, pode acompanhar o meu trabalho também através do Tela Azul, um podcast semanal e gratuito sobre tecnologia e investimentos, que eu toco com meus amigos André Franco e Vinicius Bazan.
Antes que essa edição fique velha, confira nossas 10 previsões (ousadas) para o mercado de tecnologia e investimentos em 2021.
Você pode nos ouvir no Spotify, e entrar em contato com dúvidas e ideias no e-mail telaazul@empiricus.com.br.
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