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2021-03-02T20:00:12-03:00
Jasmine Olga
Jasmine Olga
É repórter do Seu Dinheiro. Cursa jornalismo na Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
FECHAMENTO

Ibovespa reage na reta final e sobe mais de 1% com novidades sobre PEC Emergencial; dólar também sobe refletindo cautela

A bolsa chegou a cair mais de 2%, enquanto o Banco Central precisou injetar mais de US$ 2 bilhões para tentar segurar o câmbio

2 de março de 2021
18:38 - atualizado às 20:00
reação
Imagem: Shutterstock

As coisas envelhecem muito rápido no Brasil de 2021, principalmente no mercado financeiro. O que era verdade incontestável apenas minutos atrás pode ir por água abaixo com apenas um sopro. 

Ontem, no meu texto de fechamento de mercados, eu afirmei categoricamente que “de tão frequentes, as reviravoltas no mercado financeiro com base em ruídos que surgem na capital federal quase nem surpreendem mais”. Bom, está aí uma frase que envelheceu mal. 

Nesta terça-feira (02) os ruídos e ventos vindos de Brasília mais uma vez mudaram a história de um pregão que já parecia definido, surpreendendo positivamente e descolando do exterior, que hoje teve um dia de realização dos lucros recentes. 

Depois de cair mais de 2,7%, com a repercussão negativa do aumento da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro líquido (CSLL) dos bancos, o Ibovespa reagiu e terminou o dia em uma alta firme de 1,09%, aos 111.539 pontos.

Dessa vez, a B3 foi na contramão do mercado internacional. Em Wall Street, as principais bolsas americanas fecharam o dia em queda, com um movimento de realização de lucros. O Nasdaq foi o índice com o maior recuo, caindo 1,69%, seguido pelo S&P 500, que teve queda de 0,78% e o Dow Jones, de 0,46%. 

Para Bruno Madruga, sócio e Head de Renda Variável da Monte Bravo, o grande divisor de águas no dia foi a apresentação de um novo parecer da PEC Emergencial pelo senador Marcio Bittar, relator da pauta. O novo texto, que deve ser discutido amanhã, retirou os dispositivos de desvinculação dos gastos com saúde e educação, que causaram polêmica na semana passada, e manteve os gatilhos para contenção de gastos no futuro.

Outro ponto citado por Madruga é que o mercado parece ter entendido que existiu uma reação exagerada do setor financeiro à proposta de aumento da CSLL. Representantes de cerca de 30% da carteira teórica do Ibovespa, a recuperação dos papéis dos bancões puxou a recuperação da bolsa brasileira, que também contou com a ajuda das empresas ligadas ao minério de ferro, commodity que teve mais um dia de alta no mercado internacional.

Mas isso não significa que o cenário tenha mudado significativamente. Para o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, os ruídos que preenchem o dia de negócios não ajudam em nada, e essa melhora pontual se trata mais de uma correção do que uma mudança de cenário. "A gente ainda não tem nem orçamento aprovado e já estamos em março. Então, enquanto a gente não caminha, o mercado vai embutir um prêmio de risco por qualquer ruído", completa.

Absorvendo a cautela

Enquanto a bolsa brasileira teve tempo de se recuperar, o dólar e o mercado de juros futuros absorveram o maior impacto da cautela local. 

O dólar à vista chegou a ultrapassar a casa dos R$ 5,70 no pior momento do dia, obrigando o Banco Central a interferir no câmbio, vendendo mais de US$ 2 bilhões. 

No fim do dia, o dólar à vista surfou uma melhora de percepção do risco país com o encaminhamento da PEC Emergencial sem grandes fatiamentos, e reduziu a alta para 1,17%, aos R$ 5,6660

Jefferson Rugik, diretor superintendente de câmbio da Correparti, explica que o ambiente que observamos hoje no mercado de câmbio pode ser traduzido como uma tempestade perfeita, com o cenário interno falando muito mais alto do que o externo.

Ainda que os bancos e instituições financeiras tenham reduzido a queda, cabe ao dólar refletir essa desconfiança do mercado com a intervenção estatal, já que o governo havia prometido não mexer com impostos durante a pandemia. "Isso traz a preocupação de que ele pode aumentar outro tipo de imposto toda vez que sentir um aperto nas contas públicas", explica Rugik.

Segundo o diretor da Correparti, o aumento do número de casos da covid-19 e a adoção de lockdowns em diversos estados também preocupam. "O investidor olha da seguinte forma: o Brasil vai demorar para crescer, porque devo continuar por aqui? Isso levou a uma saída intensa dos investidores estrangeiros, que nem o Banco Central conseguiu segurar".

O head de Renda Variável da Monte Bravo lembra, no entanto, que o novo texto da PEC trouxe um fluxo maior de dinheiro estrangeiro na reta final do pregão, o que aliviou o cenário. Além disso, os juros futuros americanos tiveram um dia de queda, o que também alivia a pressão por aqui. 

Para Espírito Santo, da Órama Investimentos, nessa hora de um cenário altamente especulativo, é preciso ter prudência. Para o economista, o patamar de R$ 5,70 para o dólar já precifica um cenário com todas as incertezas que rondam o mercado. "Para mim, a faixa dos R$ 5,40 a R$ 5,60 seria algo muito melhor precificado".

Confira também o comportamento do mercado de juros futuros, que, depois de dispararem mais de 3% na parte da manhã, reduziram o ritmo e fecharam em queda na maior parte da curva. 

  • Janeiro/2022: de 3,88% para 3,87%
  • Janeiro/2023: de 5,80% para 5,77%
  • Janeiro/2025: de 7,47% para 7,45%
  • Janeiro/2027: de 7,07% para 8,08%

O motivo da tensão

A queda provocada na parte da manhã e que pressionou o dólar teve origem em mais uma cartada do presidente da República, Jair Bolsonaro, para tentar segurar o preço dos combustíveis. 

Ontem, o governo anunciou que irá aumentar os impostos sobre carros para pessoas com deficiência (PCD), indústria química e instituições financeiras para compensar a desoneração de impostos do diesel por dois meses e do gás de cozinha indefinidamente 

O CSLL passará de 20% para 25% até 31 de dezembro de 2021, como mostra a edição extra do Diário Oficial da União (DOU), publicada na noite de ontem. Também haverá um aumento de 15% para 20% para distribuidoras de valores mobiliários, corretoras de câmbio, sociedades de crédito, financiamento e investimentos, administradoras de cartões de crédito, sociedades de arrendamento mercantil e associações de poupança e empréstimo.

A informação do aumento de impostos para as instituições financeiras já havia desacelerado os ganhos da bolsa ontem e, sem o exterior positivo, será difícil manter o índice no azul no pregão de hoje. Em relatório, a XP Investimentos afirma que a reação dos bancos foi exagerada, e mantém suas recomendações de investimento em bancos, tendo em vista que a medida é temporária e ainda precisa ser aprovada pelo Congresso.

Para Márcio Lórega, analista da Ativa Investimentos, não faz sentido transferir a conta para outro setor. "Ainda mais em um momento em que o governo precisa de arrecadação, essa desoneração não faz sentido", afirma. Ele lembra que a pressão fiscal pode ser ainda maior por causa do auxílio emergencial, mesmo com a PEC emergencial. "O cobertor é curto", lembra ele.

Ruído nunca é demais?

Por boa parte do dia, pesou também a entrevista do ministro da Economia Paulo Guedes ao podcast Primocast. Guedes afirmou que “é demissível em 30 segundos”, mas que tem a confiança do presidente Jair Bolsonaro. “Se ele confia no meu trabalho, eu consigo executar meu trabalho, está bem”, afirmou. “Se ele não confiar, eu sou demissível em 30 segundos”. 

Entre outros pontos, Guedes citou dois motivos que fariam com que ele abandonasse o cargo: a "perda da confiança" de Bolsonaro e "ir para o caminho errado". No mesmo programa, o ministro falou em “enjaular a besta” dos gastos com a PEC Emergencial, em referência ao auxílio emergencial.

Destaques da bolsa

Maiores altas

Depois do susto inicial, os bancos se recuperam das perdas registradas na tarde de ontem, após a decisão de Bolsonaro de aumentar a carga tributária para o setor, o que alivia todo o índice em um efeito dominó. As commodities seguem brilhando, principalmente aquelas com exposição ao minério de ferro. Confira as maiores altas do dia:

CÓDIGONOME VALORVARIAÇÃO
ITUB4Itaú Unibanco PNR$ 25,774,04%
BBAS3Banco do Brasil ONR$ 28,933,84%
SANB11Santander Brasil unitsR$ 38,113,14%
VALE3Vale ONR$ 101,603,07%
B3SA3 B3 ON R$ 56,01 3,05%

Maiores baixas

A Braskem recuou de forma acentuada nesta tarde, após o governo anunciar a retirada dos estímulos tributários para o setor petroquímico. Na sequência, temos também a Via Varejo, refletindo uma piora na situação da pandemia. Confira as maiores quedas do dia:

CÓDIGONOME VALORVARIAÇÃO
BRKM5Braskem PNAR$ 30,51-4,00%
AZUL4Azul PNR$ 38,79-3,15%
PCAR3GPA ONR$ 22,62-3,04%
GOLL4Gol PNR$ 20,74-2,95%
YDUQ3Yduqs ONR$ 27,89-2,92%
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