Ibovespa cede aos ruídos (e vencimento de opções) e fecha em queda firme; dólar também recua
Ao longo do dia, ruídos políticos e questões domésticas pesaram sobre o índice. Lá fora, o otimismo ainda é tímido, na esteira de crise política nos EUA e covid-19

Um foguete sem freio.
É assim que podemos descrever os primeiros dias de 2021, tanto para as bolsas globais, quanto para o Ibovespa. Em Nova York e em São Paulo tivemos uma série de recordes batidos e novas marcas sendo registradas. Por aqui, saímos dos 119 mil e superamos os 125 mil pontos.
O dólar também buscou a sua parte e acumulou uma alta superior a 6% em poucos dias.
Ontem, pressionado pela perspectiva de que um aumento da Selic deve ocorrer em breve após a divulgação da inflação oficial de 2020 e pelo fluxo de entrada de investimentos estrangeiros no país, o dólar reverteu metade dessa valorização toda e notou um recuo de 3,29%. Nesta tarde a moeda americana teve um recuo mais sutil, de “meros” 0,29%, aos R$ 5,3106, mas ainda assim contrário ao movimento de alta exibido no exterior.
Hoje o Ibovespa teve mais um dia de foguete sem freio... Mas a viagem dessa vez foi para o centro da Terra. Pressionado pelo desempenho ruim das blue chips, que por sua vez refletiram a pressão com o vencimento de opções sobre o índice e uma série de ruídos políticos, os investidores preferiram intensificar o movimento de realização de lucros.
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Assim, ao fim do dia, o principal índice da bolsa de valores registrava uma queda de 1,67%, aos 121.933,08 pontos, longe da máxima do dia, que foi na casa dos 124 mil.
Ruídos por toda parte
Um desses ruídos que merecem um destaque especial é o rumor de que o presidente Jair Bolsonaro estaria irritado com o chefe do Banco do Brasil, André Brandão. Nós já vimos esse filme no passado e no final o mercado sempre reage mal a qualquer insinuação de interferência do governo nas estatais.
Segundo informações que circulam na imprensa, Bolsonaro não teria gostado dos planos de reestruturação do banco e que incluem o fechamento de 12 agências, sete escritórios e 242 Postos de Atendimento (PA), além da reabertura do plano de demissão voluntária. Ao fim do dia, nenhum pronunciamento oficial ocorreu, mas as ações do BB amargaram uma queda de 4,94%, a R$ 37,55.
Em segundo plano
Falamos de “ruídos” e não de uma única notícia que movimentou o mercado doméstico nesta quarta-feira. Uma série de fatores também deram um empurrãozinho nesse movimento de realização de lucros. É o que indicaram Pedro Galdi, da Mirae Asset, Alan Gandelman, da Planner Corretora, e Marcio Lórega, da Ativa Investimentos.
- Coronavírus: A questão do coronavírus não pega só no Brasil, mas temos um agravante doméstico, que é o cenário de vacinação ainda é muito incerto. Lá fora, a vacinação já começou, mas medidas pesadas de isolamento social na Alemanha, Reino Unido e outros países, abrem espaço para a leitura de que a economia deve voltar a sofrer neste primeiro trimestre. Por aqui, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que ninguém receberá as vacinas antes de Manaus e a previsão é de que a imunização comece no dia 19 de janeiro. Antes disso, a Anvisa ainda precisa aprovar o uso emergencial das duas candidatas.
- Medidas restritivas: O Estado de São Paulo também estuda antecipar a mudança de status das regiões, o que influencia diretamente no tipo de atividade que pode ser exercida em cada lugar.
- Corrida presidencial: A corrida para a presidência da Câmara também é um fator de incerteza, já que essa é uma pauta que pode mexer com o andamento das reformas econômicas, uma agenda importante para o mercado financeiro.
- Cheiro de greve no ar: Além desses ruídos políticos em Brasília, seja com a vacinação ou corrida presidencial, temos também rumores de que uma nova greve dos caminhoneiros pode ocorrer.
Raio-X
As duas principais divulgações do dia não fizeram muito barulho no mercado.
Pela manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o setor de serviços teve uma alta de 2,6% em novembro, acima do esperado pelo mercado. Essa foi a sexta expansão mensal consecutiva do índice, o que indica um ganho acumulado de 19,2%, ainda insuficiente para reverter a perda de 19,6% entre fevereiro e maio.
Durante a tarde Embora o Livro Bege, do Federal Reserve, tenha indicado uma alta de preços em quase todos os distritos — indicando uma recuperação incompleta da economia — as bolsas internacionais não reagiram de forma negativa. Depois de ficarem estáveis por um tempo, o mercado americano acabou se firmando em alta e seguiu assim até o fechamento. Com exceção do Dow Jones, que terminou com um leve recuo de 0,03%.
Uma notícia fresquinha
Os fatores que seguem limitando a alta no exterior são os mesmos dos últimos dias.
Em primeiro lugar temos a alta expressiva das bolsas globais no começo do ano e que é gatilho para um movimento de realização de lucros.
Depois, foco nos Estados Unidos. Washington vive momentos delicados de crise política. A expectativa durante todo o dia esteve em torno da votação do impeachment do presidente Donald Trump e que acaba de ser aprovado pela Câmara dos Representantes. A pauta segue agora para o Senado. Quando a notícia saiu, os mercados já estavam fechados.
Ontem, o vice-presidente Mike Pence se recusou a invocar a 25ª Emenda, que poderia ser utilizada para destituir Trump, que é acusado de "incitar uma insurreição" e ter apoiado a invasão ao Capitólio na última semana.
Ainda assim, segue no radar o fato de que um governo democrata, que começa no próximo dia 20, indica uma quantidade ainda maior de estímulos fiscais.
Os destaques negativos
As quedas do dia do principal índice da bolsa brasileira foram lideradas pela Usiminas. A companhia foi fortemente impactada pela notícia de que diversas regiões da China voltaram a adotar medidas de lockdown. O país asiático é o maior consumidor de minério de ferro do planeta.
A Vale, com grande peso dentro do IBOV, também foi afetada pela notícia, recuando 2,85%. As duas companhias haviam registrado ganhos significativos recentemente, com a subida do minério de ferro. A CSN foi outra prejudicada pela notícia.
Além do Banco do Brasil, que já mencionamos, vale falar também da Petrobras. O Brent, barril que serve de referência para a estatal brasileira, terminou o dia em queda de 0,92%, o que pressionou ainda mais os papéis da petroleira.
Sozinhas, Vale e Petrobras representam cerca de 15% do índice, por isso, o mau desempenho das duas companhias também ajudam a explicar a queda expressiva de hoje.
Confira as principais quedas da sessão de hoje:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| USIM5 | Usiminas PNA | R$ 15,48 | -6,07% |
| BBAS3 | Banco do Brasil ON | R$ 37,55 | -4,94% |
| PETR4 | Petrobras PN | R$ 29,15 | -4,83% |
| CSNA3 | CSN ON | R$ 36,25 | -4,81% |
| AZUL4 | Azul PN | R$ 35,96 | -4,67% |
No azul
O dia não foi lá muito positivo, mas teve quem se destacasse. A MRV fechou a quarta-feira na ponta da tabela, com expectativas para a divulgação do relatório operacional do último trimestre, que deve sair amanhã.
A PetroRio se distanciou da queda do petróleo e seguiu o bom desempenho do último ano. O gatilho desta vez foi o início da cobertura do Bradesco BBI com uma recomendação neutra, mas indicativo de potencial de alta de até 10%.
A notícia da possível aquisição do Carrefour Global por um grupo canadense chegou a colocar o Carrefour no topo das altas de hoje, mas as ações perderam força ao longo do dia. O GPA, com participação na companhia, no entanto, seguiu a trajetória de valorização e fechou o dia entre as maiores altas.
Confira:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| MRVE3 | MRV ON | R$ 20,21 | 4,39% |
| PRIO3 | PetroRio ON | R$ 79,48 | 3,90% |
| ENEV3 | Eneva ON | R$ 67,50 | 3,67% |
| CSAN3 | Cosan ON | R$ 84,70 | 2,15% |
| PCAR3 | GPA ON | R$ 77,84 | 1,95% |
Juros
O mercado de juros repercutiu os números do setor de serviços, mas também manteve no radar o velho conhecido "risco fiscal". Confira o fechamento das principais taxas:
- Janeiro/2022: de 3,14% para 3,25%
- Janeiro/2023: de 4,81% para 5,03%
- Janeiro/2025: de 6,38% para 6,52%
- Janeiro/2027: de 7,11% para 7,28%
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