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Um plano para o fim do mundo – ou como ganhar dinheiro de pijamas

Meu cenário-base hoje é o da recuperação mais rápida, em “U”, porque tudo indica que teremos mais algumas semanas de isolamento rigoroso. Se for isso mesmo, a bolsa vai antecipar o movimento de recuperação e você pode lucrar.

Mulher trabalha em computador de casa; home office
Home office - Imagem: Shutterstock

Na segunda-feira passada, no meu primeiro dia de home office e distanciamento social (ou prisão com Netflix e ar-condicionado), coloquei uma TV em cima da mesa de jantar, conectei o Mac da empresa e preparei minha estação de trabalho para o apocalipse.

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Em vez de tacos de baseball com pregos, zumbis e escassez de gasolina, a realidade nos trouxe confinamento, Twitter, um vírus e petróleo em profusão. Ao menos podemos assistir ao fim do mundo ocidental de pijamas e pantufas. Conforto é importante, sempre!

Enquanto eu olhava o mercado derreter e entrava num quadro de mini depressão (devidamente medicada com uma dose industrial de chocolates e a companhia de Alice, Lu e Gronk, os melhores parceiros para o fim do mundo), comecei a me questionar por que não me dei conta antes da seriedade da situação.

Foi preciso vivenciar o colapso da Itália – o caos chinês não foi suficiente – para perceber o tamanho da encrenca. Meu consolo é que gênios como Howard Marks, Ray Dalio e Stuhlberger, lendários gestores de hedge funds, erraram comigo.

Foi justamente aí que eu caí na armadilha – fui atrás das respostas e dos impactos do novo coronavírus com as pessoas erradas. Os três, e tantos outros que li nas últimas semanas, são brilhantes, ganharam muito dinheiro, atravessaram todo tipo de crise e acumularam patrimônio e reputação global, é verdade. Mas nenhum deles é infectologista.

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Todos são versados em crises financeiras e comportamentos de variáveis econômicas, mas desconfio que sabem pouco mais do que eu sobre o comportamento de epidemias e pandemias.

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Enquanto eu lia Ray Dalio acalmando seus cotistas nas suas cartas diárias, me esqueci de um princípio do próprio fundador da Bridgewater – “Believeability”, que imagino ter sido traduzido para “credibilidade” em português.

Em linhas gerais, Dalio nos ensina a sempre dar ouvidos a quem tem mais conhecimento dentro de uma determinada área, independente de hierarquia e outros atributos: por mais brilhante que fosse Einstein, se você quisesse saber por que seu carro está fazendo barulho, melhor confiar no seu mecânico, mesmo que ele não tenha um décimo da instrução do físico alemão.

Pois bem: Bill Gates tem se dedicado há muito tempo ao estudo de epidemiologia – vamos combinar que recursos, disciplina e capacidade cognitiva o cara tem de sobra.

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Bill Gates; bilionários
Bill Gates

Há uns cinco anos, num Ted Talk, Gates previu uma pandemia muito parecida com o que estamos vivendo hoje. Não só isso, há algumas semanas, no dia 28 de fevereiro para ser mais exato, Bill Gates escreveu um artigo falando que o covid-19 poderia ser um patógeno secular (“once in a century”), capaz de causar uma crise de escala global.

Eu li esse artigo no dia em que foi publicado – quando os mercados estavam quase 40% acima do que estão hoje – e simplesmente dispensei a opinião do nerd de Seattle. Preferi o conforto das previsões mais positivas de pessoas que não se dedicam ao tema. Credibilidade (believeability) importa!

Trago o tema à tona não para remoer os erros do passado, mas para tentar entender o que pode acontecer no futuro.

Recentemente, o fundador da Microsoft veio novamente falar sobre a pandemia e, segundo ele, podemos começar a viver com mais normalidade nas próximas seis a dez semanas, desde que os governos sejam rigorosos com as medidas de controle de circulação na fase mais crítica de contágio.

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Se a evolução na China serve de exemplo, Gates pode estar certo mais uma vez.

Como deve reagir a economia?

Assim, o que devemos ver nas economias é uma queda brusca no segundo trimestre, com recuperação já no terceiro trimestre e uma decolada mais forte a partir do último trimestre do ano. Uma recuperação em “V” me parece praticamente descartada, mas uma retomada em “U” está dentro do jogo, desde que as medidas dos bancos centrais sejam suficientes para evitar que a economia entre em um longo período de depressão.

Nesse cenário, a Bolsa antecipa e a gente fica feliz por volta de junho. Daria pra pensar até em um Ibovespa perto do zero a zero no acumulado do ano.

Por outro lado, podemos viver um período de confinamento maior, a depender de como evolui a pandemia. Se ficarmos, sei lá, mais do que três meses parados, o desemprego explode: tem gente boa falando em até 30% de desempregados nos EUA.

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Se o número parece exagerado, nas últimas três semanas, o desemprego na Noruega saiu de 2,3% para 10,9%, o maior nível desde a Segunda Guerra. Com uma massa dessas atrás de emprego e sem renda, fica muito difícil sair do buraco. Haja dinheiro para “religar” a economia.

Com o desemprego na Lua, é possível termos um longo inverno, queda forte de PIB global em 2020 e estagnação por um ou dois anos, ainda mais se pensarmos que a demografia de países desenvolvidos é desfavorável. Mercado demoraria muito tempo para voltar às máximas recentes.

Na crise de 1929, o S&P só voltou para os níveis pré-crise em meados dos anos 50 – é verdade que demorou também porque tivemos a Segunda Guerra no meio do caminho, mas é um bom indicativo de como a recuperação pode levar muito tempo.

Meu cenário-base ainda é o da recuperação mais rápida, em “U”, porque tudo indica que teremos mais algumas semanas de isolamento rigoroso e, aos poucos, os governos vão pensando em maneiras de soltar a população, já com maior preparo dos hospitais e resultados mais conclusivos sobre os medicamentos hoje ainda sob testes preliminares.

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O Brasil, apesar da falta de coordenação e do discurso irresponsável do presidente, tomou medidas com certa antecedência, tem quantidade de leitos e UTIs acima da média (apesar da ideia que temos sobre nosso sistema de saúde) e, por isso, talvez não sofra tanto. Certamente não será tranquilo, mas pode ser bem menos sofrido do que os casos da Itália e da Espanha.

Torçamos.

Dito isso, o que fazer?

Comprar. Mas comprar aos poucos.

Ainda não dá para dizer que saímos do pior, mas confesso que já tenho um pouco mais de coragem agora do que tinha quando da nossa última conversa. Eu compraria em “tranches”, ou prestações.

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Digamos que você tenha R$ 40 mil para investir. Faça quatro aportes semanais de R$ 10 mil em um bom fundo de ações – Constellation (Constellation Inst FIC FIA) e Squadra (Squadra LB FIC FIA) estão abertos na plataforma do BTG Digital, por exemplo.

Uma outra opção seria comprar o índice direto, via BOVA11 – é só comprar no homebroker, como você já faz com ações e fundos imobiliários. Dá para comprar sem sair de casa - na verdade não precisa nem tirar o pijama!

Mas o que você colocar nessa brincadeira só pode ser um dinheiro do qual você não vai precisar de forma alguma! Lembre-se de que teremos um período de vacas magras, com potencial aumento de desemprego, queda de rendas e o risco de uma depressão pela frente.

Não aposte o leite das crianças! Tenha certeza de que você atravessa os próximos 12 a 24 meses sem essa grana.

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Além disso, a recuperação do mercado não vai ser linear – em alguns dias, teremos um número de casos e de mortes muito grande nos EUA; é possível que vejamos mais de mil mortos em um único dia só no Estado de Nova York. Aqui no Brasil o cenário pode complicar bastante também.

Mantenha a calma, fique em casa, lave bem as mãos e compre com disciplina, sabendo que o mercado ainda pode cair bastante antes de subir.

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