Segredos da bolsa: Trump com covid-19 e treta entre Guedes e Marinho mantêm investidores receosos
Crise entre ministros e saúde de Trump devem garantir aquela volatilidadezinha básica nos mercados financeiros

Mais de um quarto de século se passou desde o tetracampeonato mundial da Seleção Brasileira, no hoje longínquo ano de 1994. Não se trata só de um acontecimento de outro século, mas de outro milênio.
Ainda assim, o tempo parece incapaz de apagar uma imagem específica na minha cabeça. E não é a do capitão Dunga xingando sei lá quem enquanto ergue a taça. É a imagem de Galvão Bueno pendurado no pescoço de Pelé berrando: é téééééééétra! É téééééééétra!
Da mesma forma, quando observo um barraco de qualquer espécie, sinto-me incapaz de não imaginar Galvão trocar o erre de lugar e gritar: é trêêêêêêêêêta! É trêêêêêêêêêta!
É um pouco chulo, eu sei, mas é mais forte que eu. Essa imagem me voltou à mente na semana passada, quando rolou a treta entre os ministros Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, por causa das fontes de financiamento do programa Renda Cidadã.
Em meio a muito disse-que-disse, a desavença pública entre dois integrantes do alto escalão do governo acentuou ainda a aversão ao risco entre os ativos locais. No acumulado da semana passada, o Ibovespa caiu mais de 3% e o dólar subiu mais de 2% em relação ao real.
Notemos ainda que desde o início do ano, a depreciação do real ante o dólar ultrapassa os 41%. Isto faz da moeda brasileira a maior perdedora dentre as divisas de mais liquidez nos mercados internacionais de câmbio, levando os analistas a revisarem suas projeções de curto e médio prazos.
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O teto é de vidro
Não bastasse a lavação de roupa suja entre Marinho e Guedes, no fim de semana o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), resolveu sair em defesa da possibilidade de o governo ‘flexionar instrumentos legais’ devido aos custos do combate à pandemia do novo coronavírus.
Nem é preciso dizer o quanto os investidores ficam contentes com os crescentes sinais de que o governo do presidente Jair Bolsonaro mais cedo ou mais tarde vai acabar voltando atrás de seu compromisso declarado com o teto de gastos e com a disciplina fiscal.
Portanto, cautela e volatilidade devem continuar dando as caras na B3.
E enquanto Brasília, a Amazônia e o Pantanal seguem em chamas e o País é atacado por uma onda de calor escaldante, a agenda de indicadores dá um refresco, mas trará dados importantes em relação à atividade econômica, como os de venda no varejo e inflação ao consumidor.
Veja a seguir quais indicadores devem agitar a semana no Brasil
Segunda-feira: para não perder o hábito, a semana começa com o boletim Focus e as expectativas dos participantes do mercado para o PIB, a taxa Selic, a inflação, a balança comercial, a taxa de câmbio, entre outros assuntos; ao longo do dia, o HSBC divulga seu índice de gerentes de compra referente ao setor de serviços em setembro.
Terça-feira: a Anfavea divulga os números da indústria automobilística em setembro e a CNI dá a conhecer seus indicadores industriais referentes a agosto.
Quarta-feira: o dia começa com os dados do IGP-DI de setembro, divulgados pela FGV; ainda pela manhã, o Banco Central do Brasil (BCB) dá a conhecer a medição da atividade econômica no mês passado contida no IBC-BR; pela tarde, o BCB divulga os números semanais de fluxo cambial.
Quinta-feira: às 9h, o IBGE divulga os dados referentes às vendas no varejo em agosto e à produção agrícola em setembro. às 11h30, o Tesouro promove leilão tradicional de LTN, LTF e NTN-F.
Sexta-feira: a semana de indicadores se encerra com os dados do IPCA em setembro com os investidores de olho no impacto dos preços dos alimentos sobre a inflação oficial.
Trump com covid reacende alerta entre os investidores
Como se não bastassem as motivações locais para a aversão ao risco, os investidores acompanham com atenção as notícias vindas do hospital militar Walter Reed, nos arredores de Washington, onde o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, precisou ser internado na última sexta-feira depois de ser diagnosticado com covid-19.
A notícia vem à tona em um momento no qual a campanha para a presidência dos EUA entra em suas últimas semanas e o candidato democrata Joe Biden amplia sua vantagem sobre Trump nas pesquisas de intenção de voto e comparecimento às urnas.
Na avaliação de Nannette Hechler-Fayd’herbe, diretora de investimento do banco Credit Suisse, o teste positivo de Trump tende a servir como um sinal de alerta para os agentes dos mercados financeiros com relação ao persistente avanço da pandemia. "Se aconteceu com o presidente, pode acontecer com qualquer um, com todo o potencial disruptivo que isso pode ter sobre a atividade econômica", adverte ela.
De acordo com os dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, a pandemia já deixou mais de 1 milhão de mortos entre quase 35 milhões de infectados pelo mundo, com EUA e Brasil contabilizando juntos mais de um terço dos mortos e quase a mesma proporção de casos confirmados.
Com o presidente e candidato à reeleição fora de combate, as atenções no exterior voltam-se para o debate entre os vices marcado para a noite de quarta-feira: Kamala Harris, a companheira de chapa de Biden, e Mike Pence, que faz dupla com Trump.
Apesar da agenda fraca no exterior esta semana, a terça-feira reserva discursos dos presidentes do Federal Reserve Bank (Fed, o banco central norte-amerticano), Jerome Powell, e do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, além dos dados da balança comercial norte-americana.
Na quarta-feira, o Fed divulga a a ata da reunião de política monetária em setembro. Na quinta-feira, será a vez de os BCs da zona do euro (BCE) e da Inglaterra (BoE) divulgarem as atas de suas respectivas reuniões. Na sexta-feira será a vez de a bolsa de valores de Xangai voltar a operar depois de um feriado prolongado.
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