Jovens conservadores: a Geração Z está desiludida a esse ponto? De onde vem a defesa de ‘valores tradicionais’ nas redes sociais?
As melhores distopias são necessariamente um retrato exacerbado do presente, que funcionam como uma espiada sensacionalista do está por vir se a sociedade decidir seguir determinado rumo. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE É como se a obra estivesse o tempo todo nos ameaçando com um futuro terrível… como se fosse a foto […]
As melhores distopias são necessariamente um retrato exacerbado do presente, que funcionam como uma espiada sensacionalista do está por vir se a sociedade decidir seguir determinado rumo.
É como se a obra estivesse o tempo todo nos ameaçando com um futuro terrível… como se fosse a foto de um pulmão cinza e cheio de câncer na capa de uma caixa de cigarro.
Isso significa que a verossimilhança é crucial. Sem identificar traços do presente, não conseguimos nos assustar com o possível futuro — nem usar isso para parecer mais intelectuais na análise do agora (rs).
E é por isso que achei muito difícil ler O Conto da Aia. Potencialmente real demais.
No livro, os Estados Unidos vivem sob um regime teocrático e repressivo no qual, basicamente, as mulheres se tornaram máquinas de reprodução que vivem sob propriedade dos homens, pulando de casa em casa, como ornamentos de luxo (às vezes, nem isso).
Lá, a autora desenha um mundo quase pós-apocalíptico, que voltou aos supostos valores tradicionais para tentar salvar o que restou da sociedade.
Leia Também
O que nos traz ao tema de hoje: o crescente tradicionalismo dos jovens nas redes sociais. Por que a Geração Z parece estar buscando alento em um mundo que parecia ter sido superado?
Resumidamente: por que os jovens estão mais conservadores que nunca nos costumes?
Minha teoria? Porque querem uma tábua de salvação em meio a um mundo cada vez mais complexo.
- Seu plano ideal para a aposentadoria: guia do Seu Dinheiro ajuda a se planejar para o futuro; cadastre-se e acesse gratuitamente
Jovens conservadores: quem são, o que comem e onde habitam?
Embora esse tema tenha partido de uma percepção individual minha sobre o que vejo nas longas horas em que passo nas redes sociais, existem uma série de dados que corroboram o que venho dizer aqui.
E sim, os jovens estão mesmo ficando mais conservadores em relação às gerações anteriores, principalmente os homens — e isso tem tudo a ver com o número crescente de mulheres entrando nessa onda.
Os dados que cito a seguir são do relatório de tendências sobre polarização, da Glocalities, uma empresa de pesquisa de mercado com mais de 30 anos de atuação.
Com base em um estudo abrangente que envolveu mais de 300 mil participantes em 20 países, o relatório revelou que, entre 2014 e 2023, homens jovens de 18 a 24 anos apresentaram uma inclinação crescente ao conservadorismo quando comparados aos pares mais velhos (entre 55 e 66 anos).
O relatório também mostra que, tanto nos países desenvolvidos quanto nos emergentes, os jovens estão se sentindo cada vez mais desiludidos com a sociedade e expressando falta de perspectiva para o futuro.
Sentindo-se deixados para trás, essa parcela dos jovens busca alternativas fora do sistema e acabam encontrando ressonância nas mensagens de direita radical, que muitas vezes se opõem aos valores liberais.
Resumindo: enquanto, em 2014, os homens mais velhos (entre 55 e 65 anos) eram os mais conservadores e os mais jovens (entre 18 e 24 anos) exibiam uma postura significativamente mais liberal, quase uma década depois, os jovens passaram a ser ainda menos liberais que os mais velhos.
O gráfico abaixo consegue ilustrar essa mudança:
Nele, é possível identificar a posição de diferentes grupos etários em relação a duas dimensões entre 2014 e 2023:
- Controle-Liberdade: representa o grau de apoio a valores patriarcais versus valores emancipatórios;
- Desespero-Esperança: representa o grau de sentimento de decepção com a sociedade e pessimismo em relação ao futuro.
Ou seja, a juventude que antes era sinônimo de progresso, agora está mais tradicionalista que as gerações anteriores.
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah… Eu nem acredito
Por outro lado, o estudo também mostra que, nos últimos dez anos, as mulheres jovens se tornaram cada vez mais liberais e anti patriarcais em todo o mundo.
Mas as coisas não são tão “meninos usam conservadorismo e meninas usam liberalismo” quando olhamos a realidade nas redes sociais…
As trad wives, esposas troféu e as “do job”
Dentro desse tópico, não dá para ignorar algumas trends que têm tomado fôlego nos últimos anos.
As Trad Wives, ou esposas tradicionais, como são conhecidas, defendem um retorno aos papéis de gênero tradicionais, como o modelo de dona de casa dos anos 1950. Elas valorizam o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos e a submissão ao marido como escolhas empoderadoras.
Tudo isso patrocinado por um discurso que exalta uma suposta “natureza feminina para o cuidado” — que ignora a construção social que cria esses padrões para as mulheres.
Já as esposas troféu querem outra coisa: vida de luxo bancada pelo marido. Elas até pregam isso como uma forma de feminismo moderno, afinal é “uma escolha delas” depender exclusivamente do marido ou parceiro.
Mas isso não basta, até os “ficantes” precisam pagar tudo. O que não falta no TikTok hoje em dia são vídeos de mulheres completamente indignadas com o fato de os homens não pagarem a conta do date, o salão de beleza etc.
Isso me lembra a figura da Serena Joy Waterford, em “O Conto da Aia”. Ela era uma figura pública conservadora, conhecida por sua defesa de valores tradicionais, incluindo a submissão das mulheres aos papéis domésticos.
No entanto, após a ascensão do regime, Serena é forçada a viver sob as mesmas regras que ajudou a implementar, perdendo grande parte de sua própria autonomia.
Enquanto isso, as redes também têm criado uma espécie de exaltação à prostituição — à medida que desvaloriza a participação feminina no mercado de trabalho —, com uma série de mulheres enaltecendoo quanto isso é lucrativo e muitas trends com músicas destacando moças “do job”, como são chamadas atualmente as profissionais do sexo.
Você pode conferir algumas dessas trends, se ousar, aqui.
A mesma desesperança com o cenário econômico que afeta os homens também afeta as mulheres (como destacado no gráfico acima).
Diante de um mercado de trabalho cada vez mais demandante e cenário econômico instável, a vida de dona de casa surge como uma alternativa aparentemente mais confortável.
O que não necessariamente é verdade.
Não dá para esquecer das discussões secundárias que tudo isso traz, como o do trabalho invisível da mulher, citado por Naomi Wolf em “O Mito da Beleza”.
Sendo breve: para ela, as economias dependem fortemente do trabalho não remunerado das mulheres — no cuidado da casa, dos filhos, dos adoentados e idosos — para funcionar, mas isso não é refletido no PIB (Produto Interno Bruto), que mede apenas atividades economicamente transacionadas.
Jovens conservadores: “Como nossos pais”
Sabrina Carpenter é um nome que vale a pena ser citado aqui. A nova estrela, que conquistou a fama global com alguns hits bombásticos neste ano, tem provocado um rebuliço entre as fãs — majoritariamente adolescentes e jovens adultas.
Isso porque algumas delas estão chocadas com as insinuações sexuais no show da cantora.
As críticas não partiram só dos pais das fãs, mas delas próprias:
“Me desculpe, mas eu sou a única ofendida? Tipo, por que ela está sendo nojenta sexualmente na frente de crianças”, escreveu uma usuária de 17 anos no X (ex-Twitter).
E não dá para dizer que essa discussão é nova. A Madonna que o diga. Entre as décadas de 1980 e 1990, a superestrela provocou controvérsia com suas turnês The Virgin Tour e Blond Ambition.
Esta última, em particular, quase foi barrada em Roma, onde gerou tamanha indignação que parte da população chegou a organizar greves em uma tentativa de impedir sua apresentação.
O interessante é que, mesmo depois de tantos anos, as mesmas performances continuam a chocar. O que me faz questionar sobre a relação desta geração com o sexo.
Uma pesquisa da da Universidade da Califórnia, que entrevistou mais de 1.500 jovens dessa faixa etária, mostra que 47,5% dos jovens disseram que o sexo “não é necessário” para a maioria dos programas de TV e filmes, 44% acham que o romance é “usado em demasia”.
Enquanto 44% dizem que “preferem limpar o banheiro” do que ir a um encontro online.
Em todo lugar lê-se manchetes avisando sobre como essa geração tem menos contato sexual que as anteriores.
Sobre isso, os psicanalistas André Alves e Lucas Liedke, apresentadores do podcast Vibes em Análise, têm uma visão de que isso parece ter perdido a importância para os mais jovens, diante de um mundo que utiliza o sexo para vender quase tudo, mas discute pouco sobre o assunto em si.
Será que, além da desilusão socioeconômica, o sexo também virou um campo de decepção que ajuda a empurrar os mais jovens em direção ao conservadorismo? Indico o podcast completo para uma discussão maior sobre o assunto.
Também não dá para esquecer que a pandemia, além de ter empurrado nossa economia para o cenário decepcionante de agora, também desincentivou o contato físico entre as pessoas e deve ser considerada na hora de analisar esse cenário.
Trazendo de volta a música brasileira:
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais…
Trend vai, trend vem e nós seguimos aqui
O que não falta nas redes sociais são trends, mas nós seguimos produzindo conteúdo de qualidade nas redes sociais do Seu Dinheiro.
Diariamente, soltamos análises de mundo e de mercado, com notícias com potencial de abalar o seu bolso.
Fica o convite para nos seguir no Instagram, basta clicar aqui.
CASA PRÓPRIA
De olho na classe média, faixa 4 do Minha Casa Minha Vida começa a valer em maio; saiba quem pode participar e como aderir
21 de abril de 2025 - 7:00AÇÃO DO MÊS
Itaú (ITUB4), de novo: ação é a mais recomendada para abril — e leva a Itaúsa (ITSA4) junto; veja outras queridinhas dos analistas
3 de abril de 2025 - 6:10DE OLHO NAS REDES
Liberdade ou censura? Até que ponto as redes sociais devem “deixar rolar”: uma discussão sobre Tigrinho, ódio e mentiras
16 de fevereiro de 2025 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Solidão, futuro cancelado e as corridas de 10 km: o mundo visto pelas lentes do Instagram e do TikTok em 2024
22 de dezembro de 2024 - 8:00MONEY MONEY MONEY!
Quem é Justin Sun, o bilionário das criptos que virou sócio em sonho pessoal de Trump e comeu a banana mais cara da história
29 de novembro de 2024 - 18:41DE OLHO NAS REDES
Eleições de 2024: Enquanto todos temiam a inteligência artificial, foi a picaretagem à moda antiga que marcou a campanha
27 de outubro de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Da tolerância e outros demônios: como o Instagram e o TikTok estão mudando nossa relação com a arte?
25 de agosto de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Por que os influencers viraram “a voz de Deus” nas redes sociais — e como a parcela dos ‘sem escrúpulos’ prejudicam o próprio público
21 de julho de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Quanto de mim e de você tem no ChatGPT? Como nossos dados viraram o novo petróleo desta revolução
23 de junho de 2024 - 9:06HISTÓRIA
Lula e Bolsonaro estavam errados sobre o Plano Real — e eles tinham um motivo para isso 30 anos atrás
4 de junho de 2024 - 6:19AUTOMÓVEIS
Os carros mais injustiçados do Brasil: 7 modelos de bons automóveis que andam empacados nas concessionárias — mas talvez não seja à toa
2 de junho de 2024 - 7:50DE OLHO NAS REDES
Por que tem tanta gente burra nas redes sociais? Você provavelmente é o mais inteligente do seu círculo — qual é o problema oculto disso
26 de maio de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Como nossos pais: o TikTok não está oferecendo nada além do ultrapassado — e os jovens adoram. Mas por que achamos que seria diferente?
28 de abril de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
O que o TikTok, Instagram e Facebook têm a ver com as guerras em Gaza e na Ucrânia
17 de março de 2024 - 8:25DE OLHO NAS REDES
A morte da internet, o caso Choquei e o crime sem solução: o que Trump tem a ver com isso — e os desafios para redes em 2024
14 de janeiro de 2024 - 8:00DE OLHO NAS REDES
Pesquisei como ganhar R$ 1 mil por mês sem trabalhar — e a resposta mais fácil não estava no Google e sim no TikTok
17 de dezembro de 2023 - 8:00DE OLHO NAS REDES
O WhatsApp criou mais um arma para espalhar mentiras ou os canais ajudam a quebrar o monopólio do “tio do zap”?
22 de outubro de 2023 - 9:30DE OLHO NAS REDES
Os bilionários piraram? Elon Musk e Mark Zuckerberg ameaçam brigar no ringue, mas tomam nocaute em suas redes sociais
27 de agosto de 2023 - 7:00Onde investir em 2023?