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Para Carlos Zarlenga, única saída, diz, é BNDES liberar linhas de curto prazo ou o governo assumir a garantia para empréstimos dos bancos privados
Em meia hora de conversa, o presidente da General Motors América do Sul, o argentino Carlos Zarlenga, citou 14 vezes a palavra liquidez. É esse o maior problema que ele e outros executivos do setor temem no momento. Se não for resolvido em no máximo duas semanas, “empresas vão começar a quebrar”. A única saída, diz, é BNDES liberar linhas de curto prazo ou o governo assumir a garantia para empréstimos dos bancos privados.
A paralisação das fábricas afeta quanto os negócios?
A parada na produção não é o maior problema neste momento. O mais preocupante é a situação de caixa da indústria. Nas últimas três semanas, as vendas de carros foram praticamente zero e é muito difícil antecipar quando poderá haver retomada de demanda. Temos uma cadeia de fornecedores longa e, quando não há receita, a crise se aprofunda rapidamente. A indústria normalmente tem caixa para duas a seis semanas. Então, o problema da liquidez pode quebrar a cadeia de pagamentos. Quando isso acontece, há um grande risco de solvência num curto período. Estamos falando de dias, não de meses, pois até lá empresas vão começar a quebrar. É uma cadeia produtiva que emprega 1,3 milhão de pessoas no País.
Como se resolve isso?
A liquidez que o setor precisa pode vir de três situações: do financiamento de fora do País, das matrizes; de empréstimos dos bancos privados; ou de um sistema de financiamento do governo. Ocorre que todas as empresas globais estão com os mesmos problemas, então acho que não vai ter ajuda externa. No caso do financiamento privado, os bancos não vão emprestar se não tiverem garantias. Por isso, a ação do governo é importante, quer seja como o ministro Paulo Guedes tem falado, de ajudar os bancos privados a emprestarem o dinheiro já disponibilizado pelo Banco Central através de garantias, ou o BNDES prover rapidamente linhas de capital de giro de curto prazo. Alemanha, França, EUA e Coreia estão fazendo isto.
O que está sendo feito no Brasil alivia essa situação?
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Temos de entender que os bancos precisam de garantias e, nesse momento, só o governo pode dar. O governo já fez alguns movimentos para segmentos das empresas. Acho que agora a parte urgente é como trabalhar com a grandes empresas para não converter um problema de liquidez num problema de solvência que resulta em empresas quebrando.
A GM já negociou com sindicatos acordo que inclui redução de salários. Esse é um caminho?
O problema de caixa vai além dos acordos que as empresas façam com os sindicatos. É um problema que a indústria não vai conseguir resolver sozinha. Estou confiante de que o governo entende que isso é chave para a preservação dos postos de trabalho e a capacidade da indústria se manter no futuro.
Que indústria teremos quando isso passar?
O nível de dívida que as empresas vão ter por essa tremenda perda de vendas vai fazer com que todas as decisões de investimento e toda a disciplina financeira mudem porque o foco principal será reduzir essas dívidas. Vamos ver um comportamento muito diferente de precificação - os preços vão subir, pois acompanham o câmbio. As decisões de investimento serão diferentes porque, quando se tem muita dívida no balanço, a capacidade de investir é menor. As discussões de marco regulatório (metas para redução de poluentes, de consumo, de níveis de segurança) terão de ser adiadas porque não haverá dinheiro para fazer os investimentos necessários para atender essas metas.
O setor pode diminuir?
Vai depender de como será a estabilidade do retorno e quanto tempo vai demorar para voltarmos a níveis prévios de crescimento. Se voltar rápido, vai manter mais ou menos ao que é hoje. Se demorar anos, vai ter redução de nível de empregos e de quantidade de empresas em cada país.
Como ficam os projetos de carros elétricos e autônomos?
A nossa indústria vende perto de 100 milhões de veículos por ano no mundo e gira receita de quase US$ 1,5 trilhão, US$ 2 trilhões. Neste ano deve haver uma queda de receita de 30% a 40%. Isso vai ter impacto em tudo o que se planejou para o futuro, sem nenhuma dúvida. Como exatamente vai ser, ninguém pode dizer nesse momento.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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