Petrobras tem prejuízo de R$ 48,5 bilhões no primeiro trimestre, afetada pelo petróleo em queda livre
Ajustes contábeis gerados pelo colapso no petróleo fizeram a Petrobras reportar um prejuízo de quase R$ 50 bilhões no primeiro trimestre

Ao fim de 2019, o barril do petróleo era negociado acima da faixa dos US$ 60 dólares, tanto o WTI quanto o Brent. Passados três meses, a commodity sofreu um colapso, passando a girar ao redor dos US$ 20 — e é claro que a Petrobras seria fortemente afetada por esse cenário.
A dimensão dos estragos foi revelada nesta quinta-feira (14): a estatal fechou o primeiro trimestre de 2020 com um prejuízo líquido de R$ 48,5 bilhões, revertendo o lucro de R$ 4 bilhões reportado no mesmo intervalo do ano passado.
É um resultado muito aquém da expectativa dos analistas, que trabalhavam com um cenário de expansão nos ganhos: a média das projeções compilada pela Bloomberg apontava para um lucro de R$ 4,21 bilhões entre janeiro e março.
Esse forte prejuízo, no entanto, não se deve a um desempenho operacional mais fraco: ocorre que, com as perspectivas desanimadoras para o mercado de petróleo, a Petrobras precisou fazer ajustes contábeis no valor de seus ativos, dada a perda de valor de suas reservas da commodity.
A companhia trabalhava com uma projeção de US$ 65 dólares para o barril de petróleo, mas, considerando a queda abrupta dos preços e a perspectiva de baixa demanda pela commodity por causa da pandemia de coronavírus, precisou cortar suas estimativas.
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Agora, a Petrobras vê o petróleo fechando 2020 em US$ 25 o barril. Mais que isso, a estatal não vê uma recuperação rápida dos preços: a elevação deve ser, em média, de US$ 5 dólares ao ano — no longo prazo, o valor deve se estabilizar ao redor dos US$ 50.
"Haverá uma mudança estrutural na economia mundial, pois são esperados efeitos permanentes do choque provocado pela crise atual sobre a economia, bem como ocorrerá uma mudança de hábitos dos consumidores, já observados nos dias atuais, que tende a ser perene" — Petrobras, em mensagem aos acionistas
Considerando esse cenário, a Petrobras precisou reavaliar a recuperabilidade de seus ativos, lançando uma desvalorização contábil de R$ 65,3 bilhões — o chamado impairment, no jargão contábil.
Desse montante, R$ 57,6 bilhões dizem respeito aos impactos sobre o valor recuperável dos campos de exploração e produção (E&P) — outros R$ 6,6 bilhões estão relacionados aos campos de águas rasas.
Operações resilientes
No lado operacional, a Petrobras não sentiu grandes impactos do surto de coronavírus no primeiro trimestre do ano. A receita líquida, por exemplo, subiu 6,5% na base anual, totalizando R$ 75,5 bilhões, impulsionada especialmente pelo bom desempenho no mercado externo.
As exportações de petróleo e derivados aumentaram 70% em um ano, chegando a R$ 24,7 bilhões, um resultado que compensou a queda de 6,1% na receita gerada no mercado interno, para R$ 49,1 bilhões.
"Houve um aumento significativo no volume exportado, principalmente de petróleo, com recordes registrados em janeiro e fevereiro, meses em que a queda do Brent ainda não era tão acentuada quando comparada a março", destaca a Petrobras.
Ainda em relação às exportações de petróleo, um ponto importante foi a menor participação da China no primeiro trimestre deste ano em comparação com os últimos três meses de 2019 — vale lembrar que o surto de coronavírus foi sentido com maior intensidade no gigante asiático em janeiro e fevereiro.
Como resultado, as métricas financeiras operacionais da Petrobras tiveram um bom resultado: o Ebitda — ou seja, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — em termos ajustados ficou em R$ 37,5 bilhões, alta de 36,4% na base anual;
A estatal diz ter conseguido aproveitar a valorização do petróleo do óleo combustível no mercado externo na primeira metade do trimestre, o que permitiu a captura de margens interessantes. " A desvalorização do real frente ao dólar no período também contribuiu para este resultado", diz a empresa.

Endividamento em foco
Um tema sempre relevante nos balanços da Petrobras é a gestão da dívida: uma das bandeiras das administrações recentes da estatal é a redução do endividamento e a manutenção da alavancagem em níveis baixos.
E, ao olharmos as métricas em dólar, vemos que a Petrobras continua tendo sucesso em sua empreitada. A dívida líquida da estatal somava US$ 73,1 bilhões ao fim de março, uma baixa de 7,3% em relação aos US$ 78,8 bilhões contabilizados no término de 2019.
Com isso, o índice de alavancagem da Petrobras, medido pela relação entre dívida líquida e Ebitda nos últimos 12 meses, caiu de 2,41 para 2,15 vezes.
"Apesar da crise, a desalavancagem ainda permanece uma prioridade para a Petrobras", diz a estatal, ressaltando que tem como meta fechar o ano com uma dívida bruta de US$ 87 bilhões — atualmente, o indicador está em US$ 89 milhões.
No entanto, com a disparada do dólar, as métricas de endividamento da Petrobras em reais sofreram um impacto e acabaram subindo ao longo dos últimos três meses. A dívida líquida avançou 19,6% na base trimestral, para R$ 380,1 bilhões, e o índice de alavancagem foi de 2,46 para 2,73 vezes.
[captacao]
Reforçando o caixa
Ainda no tema do enfrentamento à crise do coronavírus, a Petrobras ressalta que optou por reforçar seu caixa, de modo a ter uma posição confortável de liquidez para atravessar os períodos de forte incerteza gerada pela crise do coronavpirus.
O fluxo de caixa livre da estatal foi de R$ 26,6 bilhões entre janeiro e março deste ano, muito acima dos R$ 11,8 bilhões reportados no primeiro trimestre de 2019 — nos três últimos meses do ano passado, o fluxo de caix foi de R$ 23,2 bilhões.
Com isso, a posição de caixa e equivalentes ao fim do trimestre chegou a R$ 80,4 bilhões, mais que o dobro dos R$ 36,4 bilhões mantidos em março de 2019.
"No ambiente de incerteza prevalecente, decidimos por manter, durante a crise, saldo de caixa bem mais elevado do que anteriormente, o que no curto prazo possui reflexo negativo sobre o retorno sobre capital empregado, mas que também não significa abandono da meta de maximizá-lo para criar valor ao longo do tempo" — Petrobras, em mensagem aos acionistas
Reação contida
Os investidores reagem de maneira tímida ao balanço da Petrobras, ainda digerindo o enorme prejuízo combinado com uma abordagem mais prudente em meio à pandemia.
Por volta de 20h20 (horário de Brasília), os recibos de ações (ADRs) da Petrobras (PBR) operavam em alta de 1,82% no after market de Nova York — uma espécie de prorrogação do pregão regular.
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