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Um filme de terror: inflação volta a ter destaque no cenário brasileiro

Ivan Sant'Anna faz um paralelo entre a inflação galopante do fim dos anos 80 e o atual cenário de virtual estabilidade na variação dos preços — e mostra preocupação com o comportamento do mercado nesse novo panorama

Ibovespa; balanços corporativos
Imagem: Shutterstock

Até poucos dias atrás, os analistas de mercado previam dois cenários para o novo nível de taxa Selic, a ser definido na próxima reunião do Copom – Comitê de Política Monetária, agendada para os dias 16 e 17 deste mês:

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  • Corte de 50 pontos, de 3% ao ano para 2,50%, ou
  • Corte de 75 pontos, para 2,25%.

Havia um consenso: esta seria a última redução de 2020.

Anteontem, quinta-feira (4), o J. P. Morgan surgiu com uma novidade. Segundo a instituição, o Banco Central fará um corte adicional de meio por cento na reunião de agosto, com a taxa Selic terminando o ano em 1,75%.

Segundo o boletim Focus de segunda-feira passada, 1º de junho, a inflação brasileira de 2020 será de 1,55%. Ao ano, é bom que se repita, tal o ineditismo do número.

Caso se materializem essas previsões (1,75% para os juros e 1,55% para a inflação), teremos uma taxa real de 0,20%. Ao ano, é bom que ressalte novamente, para que estes números não sejam confundidos com erros de digitação.

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O mais surpreendente é que os dados inflacionários finais deste ano poderão ser ainda menores. Segundo a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), só para citar um exemplo, a cidade de São Paulo registrou deflação de 0,24% no mês de maio.

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No primeiro boletim Focus de 2020, divulgado em 6 de janeiro, quando a Covid-19 ainda era um segredo guardado a sete chaves na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, os agentes econômicos brasileiros previam, no final do ano, uma taxa Selic de 4,50%, num quadro inflacionário de 3,60%.

Para pessoas jurássicas como eu, esses números são quase utópicos. Pudera!

Durante anos, nós, profissionais de mercado, tínhamos como objetivo principal bater a inflação. Em março de 1990, por exemplo, ela chegou a 82,39%. Ao mês, bem entendido.

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Naqueles tempos, eu publicava uma newsletter intitulada Relatório FNJ.

Só a título de exemplo, vejam dois parágrafos em sequência que escrevi no relatório de agosto de 1989 – note-se que, naquela época, a gente raciocinava em termos mensais ao falar sobre inflação. Os números anualizados fundiam a cuca dos operadores. Além disso, tudo que o Banco Central e o Ministério da Fazenda publicavam era com a intenção de mascarar os dados.

Eis o texto:

“PERSPECTIVAS PARA O MÊS DE SETEMBRO (de 1989) – A inflação (mensal) de agosto, de 29,34% (ao mês), se anualizada significa 2.091,77%. Foi a segunda maior da história do Brasil e só perde para a de janeiro (70,28%) deste ano, sendo que esta foi medida em 51 dias, sofrendo ainda a aplicação de um vetor que ninguém entendeu direito.

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Para setembro, o mercado está estimando uma inflação de 33%. Para que o governo mantenha uma rentabilidade no over igual a de agosto, 43,60% reais (o grifo não consta do original) anualizados, e considerando-se os 20 dias úteis do mês, é preciso que a taxa do over fique em média em 47,67%.”

Pois bem, eu achava que qualquer trader que conseguia operar, e lucrar, em ambiente tão confuso, não teria prejuízo em lugar ou época nenhuma. Fosse onde fosse.

Agora, vendo os extremos opostos de juros e inflação, percebo que ganhar dinheiro no momento atual é tão difícil como naquela época.

Quem, em pleno juízo, poderia imaginar que, durante uma pandemia mundial, com sua consequente diminuição drástica da atividade econômica, a Bolsa de Valores poderia subir 50% em dois meses e meio?

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Note-se que as perspectivas para o restante do ano não são nada boas. Exemplo disso são as declarações feitas anteontem pelo economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita.

Segundo ele, teremos uma recessão de 4,5% em 2020, podendo esse número se elevar a 6% ou 8%, caso a Covid-19 não dê tréguas e estique os prazos de isolamento social.

Que a Bolsa de Valores está subindo, isso é um fato. Não um juízo. Mas, de um momento para o outro, pode se transformar em uma bull trap, fenômeno que acontece quando tudo indica que o mercado vai continuar subindo feito um foguete (skyrocketing) e as cotações, sem nenhuma palinha prévia, desabam na tela à nossa frente.

Isso pode ocorrer quando alguns investidores parrudos se dão conta de que ganhar 20% ou 30%, num cenário de inflação próxima de zero, é bom demais da conta.

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Nesses momentos se dá o estouro da boiada (com minhas desculpas por mais este trocadilho), cada qual querendo realizar seus lucros antes dos outros.

Já vi esse filme de terror quando a inflação era de 1,5% ao dia (primeira quinzena de março de 1990) e tenho medo de vê-lo de novo com 1,5% ao ano, exatamente três décadas depois.

Um grande abraço,

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